Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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6 de agosto de 2016

Sobre malas

Viajar é a interminável angústia de fazer e desfazer as malas. As minhas carregam histórias imprevisíveis, desnorteantes e inesquecíveis.
Já tentei seguir fórmulas para caber mais roupas ou sapatos, sempre algumas coisas ficam pelo caminho ou em urgência compro outro um suporte para aguentar os devaneios capitalistas.
Elas saem para o estrangeiro, para o frio ou calor, suportam nossos rompantes, nossos desavisos, nossas lágrimas. Já usei minha mala como travesseiro. Já subimos pé ante pé em avião, em ônibus e porta mala. Já sentiu areia de praia e pó de asfalto. Já tomamos banho de chuva e já foi carregada por outras mãos.
Em meio aos passos surgiram pessoas e culturas entre minhas aterrissagens.  E se minhas malas falassem dos reencontros, dos abraços e das quedas já levadas, teriam múltiplas histórias a contar. Elas quase sempre levam sorrisos e confianças, retornam com nostalgia e experiências. 
Ao tornar de alguma aventura, as malas sucessivamente pousam em meu quarto como se fossem uma canção de Vinicius de Moraes: “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe.”. Para aguentar a saudade de quem ficou.
Não tem amor eterno com namorado enquanto o suspense impera na esteira do aeroporto.  Não existe desespero maior ao notar os cadeados arrombados e a bagagem violada, acompanhado de duas certezas: choro sincero e ação indenizatória.
Dói abandonar uma mala que já viveu inúmeras histórias junto a nós, descartar apenas porque suas rodinhas não funcionam como antes, ou a sua cor já não é mais do nosso agrado.
Viajar é o mesmo que colecionar algumas moedas de ouro, se orgulhar de cada uma delas, e relembrar apontando entre fotos e memórias do caminho percorrido. Viajar é criar expectativas, é ficar frustrado com o sol do deserto do Saara ou a chuva não programada. É rir dos perrengues, é rir dos exageros. É inventar uma viagem atrás da outra para esquecer um amor, e regressar sem atingir o objetivo.
Viajar é libertar a alma, é tirar cada peça de roupa da mala fazendo lembranças das coisas vividas. Mais do que lembranças que uma mala carrega são os inúmeros souvernirs, chocolates, especiarias e confianças. Chegamos sabendo exatamente onde regressar.

Juliana Soledade

Crônica publicada no Jornal A Região no dia 06 de Agosto de 2016.

1 de agosto de 2016

Afinal, vivemos em um país democrático?

A democracia que nasceu em berço grego e ofertava ao cidadão a sua capacidade plena de decidir, opinar e discutir assuntos relacionados aos de uma determinada cidade Grega. Contudo, a democracia direta não foi efetiva e excluía os direitos dos escravos, estrangeiros e das mulheres. Ora, se poucos possuíam o poder de fato, então podemos pensar na impossibilidade dos interesses, naquele contexto, terem sido considerados universais. Logo, utilizar o termo democracia seria, no mínimo, falacioso. Posso pensar que qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência, ressalvando as proporções devidas.

A democracia é o poder ou governo do povo, onde o caráter de se tornar institucional vem da vontade e o consenso da maior parte, que vai até as urnas e elege seus representantes. Contudo, estamos em um país onde se assume a palavra democracia, mas vemos muitos rasgando a Constituição com a finalidade de beneficiar-se agindo como se fossem ‘os donos do poder’ e, o mais grave, tentando passar para a sociedade a ideia de que vivemos num país democrático.

Diante disso, fica fácil acreditar que o poder que emana do povo é apenas teoria, pois, se o Estado existe, é tão somente por conta do cidadão, para servi-lo e não ao contrário. Mas, desgraçadamente, o que vemos é outra realidade, qual seja: um modelo dito democrático totalmente questionável esse adotado no Brasil: pobreza atraindo pobreza, péssima distribuição de renda, desigualdade de tratamento oferecido pelo Estado Brasileiro aos ricos e aos pobres e uma corrupção manifestada em todos os meios.


Eu consigo enxergar uma quantidade absurda de pessoas sendo manipuladas, para unicamente levar um número menor a se manter ou estar no poder, passando por cima dos direitos sociais, apenas em beneficio próprio. Para alcançar tal propósito, utiliza-se de procedimentos ilegais, como, por exemplo, a compra de votos. Sabe-se de pessoas que recebem um valor meramente simbólico para entregar o seu voto e sua aprovação, permitindo assim que aquele político seja eleito, aproveitando-se da gigante desigualdade socioeconômica existente, pouco se importando com as demandas sociais. É preciso enfatizar que a compra e venda de votos se faz presente notoriamente em muitos lugares, principalmente na população menos favorecida economicamente, ato este que é ilícito e gera pena e multa, regido na Lei nº 9.840/99, caracterizando assim como Crime Eleitoral.

Nesse cenário, é preciso favorecer a ampliação de órgãos que representem a sociedade civil, organizações que defendam os interesses de setores da coletividade. Já temos muitos, mas precisamos de mais força, como a OAB, sindicatos, associações, mutirões, grupos sociais diversos para difusão da participação popular, levando à esfera competente a obrigação de a vontade geral ser efetivada, bem como exigir transparências das ações e controle das arbitrariedades e abusos cometidos. Sendo assim, provavelmente conseguiríamos construir uma sociedade com justiça social e verdadeiramente democrática.

E para você, vivemos em democracia?


Juliana Soledade

Crônica publicada no Jornal A Região no dia 30 de Julho de 2016

23 de julho de 2016

Prazo de validade

Aniversariar é o réveillon dento de nós. É escutar os fogos de artificio no bater dos ponteiros a meia noite.

Eu canso de acordar me sentindo velha, uma velha rabugenta. Dessas reclamonas: com a louça suja, com a escova de dente fora do lugar ou com o trânsito fora de órbita.  
Não me recordo de ter sido um bebê formoso, muito embora as fotos sempre se apresentem como iluminadas. As fotos também trazem um silêncio doloroso, é como se muitas perguntas tivessem ficado sem respostas. É um silêncio complexo. 

A verdade é que renasci intensamente ao longo dos 27 anos vividos. E nesse nascer de novo me deixei ser a criança que não fui. A mãe amorosa e atenta aos sinais. Essa vida vive me gastando, mas renego a obrigação de envelhecer quando procuro ser mais humana e abraçar a paz que eu sempre desejei, e que hoje sei da sua permanência ao meu lado. 

Procuramos motivos para nos definir: o signo, os traumas, heranças e as cicatrizes. Hoje com o tocar de sinos representando um novo tempo, não me preocupo com o caminho percorrido ou as pedras recolhidas. Desde 2006 permaneço num reinado que não quero sair, quando deixei de ser apenas Juliana e passei a ser mãe de Maria como sobrenome, e é justamente isso o que permeiam as minhas escolhas e decisões.  

Nasci velha: nas responsabilidades adquiridas desde o abrir de olhos. Na responsabilidade de amar e no direito de não ser amada. Nasci velha e a cada aniversário bate uma reflexão aqui dentro, como tivesse a obrigação de somar em números frios os assaltos da vida.  

Nasci tão velha que não guardo sapatos para ocasiões especiais, nasci velha o suficiente que a vida pode ser mais curta do que a minúscula saia que tenho no guarda roupa. Nasci velha para ter consciência de que posso abusar dos sentimentos, das roupas e da vida. 

Quero continuar assim: menina, mulher, sol, brilho, óculos de sol, pedaço de mar e duas garrafas de espumante. 


Neste aniversário, talvez mais do que os outros, eu posso dizer depois do meu longo minuto de silêncio: obrigada Deus!

Juliana Soledade

Publicação realizada no Jornal A Região no dia 23 de Julho de 2016.

9 de julho de 2016

Aos olhos de uma canceriana

Canceriano apesar de astuto fica magoado num piscar de olhos. E dessa mágoa nunca esqueceremos, pode ser um salgadinho que você não ofereceu em 2000. Anos adiante vamos dizer em tom de ameaça: “e depois de tudo que eu fiz por você...”.

O canceriano se doa sem reservas, mas quando feridos se fecha como uma concha, que nem o mais potente maçarico é capaz de abrir. Não olhem torto, não diga o não de forma ríspida, não o ignore sem motivos. Se tiver razões, o abrace. Se não tiver, o abrace também.

Canceriano tem uma memória incrível. Será um mestre em gravar datas que não são importantes, placas de carro dos amigos, o CPF do pai, do namorado e a data de emissão do RG.

Canceriano vai ter TOC, antes de sair de casa vai verificar se as janelas estão fechadas, se desligou o fogo e se trancou o portão, mesmo assim retornará da metade do caminho para conferir novamente. Canceriano gosta de lar, não é de casa, mas sim do conforto, aconchego e segurança de um lar.

Cancerianos são românticos até o último suspiro, difícil de desistir de um amor. Finge que esqueceu, bloqueia o número de telefone, faz cara de paisagem, mas no fundo sempre acredita nos recomeços. E quando se entrega é com a alma, com o coração, quando magoados se enclausuram completamente, até reunir todos os caquinhos, costurar todos os retalhos e formar uma linda colcha para aquecer novamente.

Não, não existe ninguém mais emocional. Temos dois corações ao invés de um, somos o transbordamento do excesso. É ser filho do mundo e ao mesmo tempo acolher debaixo das asas quem tem um lugar registrado no peito. Canceriano é uma emoção que ninguém entende: é choro no riso, é choro na dor, é choro na despedida.

Amamos a água. Há quem nos confunda com peixe ou sereia. Há aqueles que sentem admiração incontínua pelas águas, seja doce ou salgada; é sempre uma entrega sem precedentes, e justificativas. É  do signo, vai por mim.

Cancerianos detestam ser esquecidos, seja na escola quando pequeno, no compromisso marcado, ou a data do aniversário. Se você tem um amigo canceriano, não esqueça a data do seu aniversário, ele só esquecerá a sua por algo muito relevante. Sabe aquelas mensagens prontas? Não envie para ele, diga de verdade o que o seu coração mandar, e ele saberá.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 09 de Julho de 2016

Aos olhos de uma canceriana

Canceriano apesar de astuto fica magoado num piscar de olhos. E dessa mágoa nunca esqueceremos, pode ser um salgadinho que você não ofereceu em 2000. Anos adiante vamos dizer em tom de ameaça: “e depois de tudo que eu fiz por você...”.

O canceriano se doa sem reservas, mas quando feridos se fecha como uma concha, que nem o mais potente maçarico é capaz de abrir. Não olhem torto, não diga o não de forma ríspida, não o ignore sem motivos. Se tiver razões, o abrace. Se não tiver, o abrace também.

Canceriano tem uma memória incrível. Será um mestre em gravar datas que não são importantes, placas de carro dos amigos, o CPF do pai, do namorado e a data de emissão do RG.

Canceriano vai ter TOC, antes de sair de casa vai verificar se as janelas estão fechadas, se desligou o fogo e se trancou o portão, mesmo assim retornará da metade do caminho para conferir novamente. Canceriano gosta de lar, não é de casa, mas sim do conforto, aconchego e segurança de um lar.

Cancerianos são românticos até o último suspiro, difícil de desistir de um amor. Finge que esqueceu, bloqueia o número de telefone, faz cara de paisagem, mas no fundo sempre acredita nos recomeços. E quando se entrega é com a alma, com o coração, quando magoados se enclausuram completamente, até reunir todos os caquinhos, costurar todos os retalhos e formar uma linda colcha para aquecer novamente.

Não, não existe ninguém mais emocional. Temos dois corações ao invés de um, somos o transbordamento do excesso. É ser filho do mundo e ao mesmo tempo acolher debaixo das asas quem tem um lugar registrado no peito. Canceriano é uma emoção que ninguém entende: é choro no riso, é choro na dor, é choro na despedida.

Amamos a água. Há quem nos confunda com peixe ou sereia. Há aqueles que sentem admiração incontínua pelas águas, seja doce ou salgada; é sempre uma entrega sem precedentes, e justificativas. É  do signo, vai por mim.

Cancerianos detestam ser esquecidos, seja na escola quando pequeno, no compromisso marcado, ou a data do aniversário. Se você tem um amigo canceriano, não esqueça a data do seu aniversário, ele só esquecerá a sua por algo muito relevante. Sabe aquelas mensagens prontas? Não envie para ele, diga de verdade o que o seu coração mandar, e ele saberá.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 09 de Julho de 2016

2 de julho de 2016

O poder da discriminação


Vivemos nessa mania de diminuir a quem nos servem. É difícil dá um sorriso de bom dia ao frentista ao abastecer o carro com um monte de cavalos, é difícil tratar o camelô com dignidade por ser alguém que está na corda bamba da informalidade para garantir o leite dos filhos, ou não. É ‘desnecessário’ convidar a empregada para dividir o almoço na mesa.

É um problema que se parece com o carnegão. Está lá dentro, embutido no brasileiro e para extrair dá um trabalho miserável, mas é notoriamente indispensável.

Não adianta pagar de revolucionário de novos tempos do Brasil quando é incapaz de reconhecer o serviço de uma mulher trabalhadora, alegando que ela tem menos direito (?), que é mais frágil e aquele monte de babaquice que a gente tá cansado de saber.

Não consigo entender quais são essas lutas coletivas que estamos travando, seja ela a homofobia, o racismo, o machismo ou o ‘seachismo’. Não resolve ir às ruas gritar pelo povo oprimido, fazer terapia, doação à criança esperança, se o garçom é maltratado, se o porteiro é ‘terceira-classe’, se trata o manobrista como o gatuno de coisas alheias, e se a moça que faz o café é como a preta serviçal.

Precisamos absorver que conceito de gente não é apenas quem está na mídia, não é quem tem dois milhões de likes em rede social, e tampouco aquele político que não te representa. Gente não é só quem tem dinheiro no banco, pose no avião ou a roupa elegante no barco branco.

Amigo, trate bem o outro, é só um conselho, mas esqueça de que é preto, preta, gay, pobre ou nordestino. Isso é apenas um mero detalhe que não deveria fazer a menor diferença.

No total, somos sete bilhões de seres, sete bilhões de verdades ou não, somos sete bilhões de aflições. E você perdendo tempo em escolher quem merece nosso aperto de mão?

Vai amigo, mete o pé na porta e derruba esse preconceito, principalmente a discriminação com aquele que desempenha uma atividade a seu favor.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 01 de Julho de 2016.

11 de junho de 2016

Que dure apenas enquanto fizer bem


Amadurecer significa abandonar algumas certezas e frear alguns atos e emoções. Não faço mais questão de altar e vestido de noiva, tampouco de uma aliança com generosas pedrinhas de brilhantes. Isso não me deixa enlouquecida. Não mais.

Em tempos de liquidez, amor com compromisso é ouro, isso me faz feliz. E não precisa de registro no cartório ou testemunhas no altar. Serenidade é encontrar a paz com felicidade, sem qualquer formalidade definida. É ter confortáveis braços a se entregar, é ter certeza de que não necessitamos de provas ou argumentos para atestar que um tem o outro.

Aprendi a abrir mão de determinados festejos para manifestar a minha ou a felicidade somada. Quando guardamos em segredo, aliviamos o martírio de alimentar a curiosidade alheia. Quem conhece intimamente, entende o amor e isso é o suficiente. Os não tão chegados percebe o brilho nos olhos. Isso basta.

O juízo assina uma parceria com o equilíbrio quando percebo que não procuro mais um marido, um namorado ou alguém para chamar de meu numa cerimônia pomposa. O tempo nos apresenta o significado da palavra companheiro, e de forma harmônica proporciona lealdade e união. Ser companheiro é excluir os rótulos e completar institivamente o outro sem insistentes cobranças.

Os presentes caros não me são importantes, a minha importância nos dias do outro é que sempre me fizeram ser diferente. Não são fotos, registros, ou comemorações em dias especiais que nos fazem melhor. A diferença se completa em ser ‘sequestrada’ em uma sexta à noite e ser devolvida despretensiosamente numa segunda-feira pela manhã direto no trabalho com a alegria evidente no rosto. Não quero fotos de sorriso forçado ou declarações na asa de um avião. Quero lembranças, partilhas e entregas, sempre!

Evoluir me fez perceber que eu nunca estive verdadeiramente em busca de um marido para seguir protocolos. Os insucessos de duas tentativas convieram para evidenciar que a vida partilhada com as tantas regrinhas quebradas é mais muito leve.

Amadurecer é também compreender que o eterno seja somente o que tiver que durar, enquanto nos fizer bem. E dentro de toda a serenidade das nossas vidas, desejar ser apenas de uma única pessoa.

Feliz dia dos namorados-companheiros-xodós-amasiados!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 11 de Junho de 2016.

4 de junho de 2016

Não me obrigue!

NÃO ME OBRIGUE

Não me obrigue a falar que te amo quando esse sentimento não existir dentro de mim. Não me faça sair do conforto de minha cama quentinha quando eu não quiser. Não insista, não tente me impulsionar com motivos sem graça ou desnecessários.  

Não me obrigue a ter atitudes contrarias a minha vontade. Não determine perfeição onde não existe, e que na verdade, nunca irá existir. Não me obrigue a te chamar pelo apelido, pelo diminutivo. Não vou ser amiga íntima de qualquer jeito, preciso de conquista, partilha e confiança.

Não me obrigue entrar os padrões universais impostos pelas mídias, pela sociedade, pelo vizinho de sua tia. Pare de tentar varrer os cantinhos de meu templo se você não os conhece o meu lar. Pare de violentar os meus planos, os meus sorrisos... Poupe os meus nãos.

Não quero fingir que está tudo bem, nem forçar sorriso. Entenda, eu não sei abraçar quando não quero. Vou desviar o olhar, vou mexer no celular, vou dar desculpas, mas não, não irei abraçar caso não queria.

Não vou fingir que é meu amigo caso não seja, não vou dizer “eu te amo” como se fosse um “olá”. Não sei mergulhar no raso,     amor é algo sério, ou se mergulha com os equipamentos de segurança ou então se morre afogado. Simples!

Vou adorar viajar, vou adorar me guardar. Ambígua, mas nunca indecisa. No mundo sempre lugares novos, e em mim pelo mesmo motivo. Então não insista para eu ficar, não me faça ir sem vontade.

Não adianta dizer que devo usar saia, vestido ou biquíni. Vou contrariar. Vou usar o que o espelho concorda. Vou guardar moedas, cartões postais e cartas de ex-amores. Não se incomode, a casa é minha. Não vou chorar para fazer drama, não vou sair querendo ficar.

Não vou disputar presença, atenção ou amizade. Entra quem quer ficar, e fica quem eu quero que fique. Não me peça explicações. Posso ser um excelente veneno ou antídoto.

A cada vez que sou obrigada a agradar alguém unilateralmente, serei machucada. A cada sim sem escolha, serei cortada por dentro. E será difícil de estancar o que sangrará aqui dentro.

Quando sorrio com a alma mostro todos os dentes, meus abraços são feitos esmagos. Meu amor é intenso e verdadeiro e minha alma pode não lhe agradar. Desculpas, minha vida não foi feita para você, foi feita para mim, desse jeitinho manso e enérgico. Possessiva e autoritária. Um santuário que posso chamar de meu, encarnar eu. Sempre. Do acordar ao adormecer. Não baixo guarda, ser pacífico não significa ser passivo.

Eu vou voar, quando eu quiser, do jeito que eu quiser e sempre que bem entender. Aqui tudo é movimento.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 04 de Junho de 2016

21 de maio de 2016

A beleza da vida

Perfeição, nada mais do que isso. Ter uma boa companhia não é fácil de encontrar, unir com paisagens sempre se desdobram como deliciosas cartas no baralho. O riso funciona com regularidade. O equilíbrio de energias, a inspiração e expiração também.

Limpa e bela era a praia, não havia sujeira de humanos mal criados, ou atendimento ruim no restaurante, que apesar da conta salgada, valia-se a pena desfrutar da graciosidade do bom serviço.

Uma caminhada frente às águas transparentes que refletidas no céu transformavam-se em um azul encantado, decorando o mar apenas alguns barcos ultra luxuosos. O sol pronto para nos deixar coradas e cansadas o suficiente para esperar a próxima novidade (ou vista) da vida.

Era horrível um final de semana em Trancoso, sobretudo a hora do adeus. Uma imparcialidade desumana. Uma vista contrastada com o paraíso. Dentro do meu bem-estar físico, psíquico fiquei arrasada, melhor, ficamos arrasadas. Como abandonar tudo aquilo, uma típica vidinha de madame e tornar a vida profissional em questão de horas?

Diante da praia dos amores ou da praia do espelho, eu não tinha nada a fazer, nem pensar, nem sofrer. É como se sonhasse com os olhos abertos e esse mesmo sonho fosse real. O bater de ondas era sinfonia para as nossas conversas, a única testemunha de nossas confissões e diálogos, esquecendo os naufrágios e assinando calmaria em cada passo, cada foto, cada símbolo, cada lembrança gerada.

O domingo quando se aquietou foi capaz de deixar lágrimas, o perfume do verão e uma penumbra antes do regresso. Acabou doendo até os ossos o momento do adeus. Dentro de um conforto absoluto em desfrutar uma presença tão desejada era capaz de sentir um ligeiro sofrimento à demora de alguns meses para outro reencontro. Graças que ele sempre chegava, e se reinventava para cultivar reminiscências e apontamentos, fotografias e registros. Tudo tão genuíno, sem firulas ou frescuras.


Realmente, ter uma boa companhia é o mesmo de ter boas viagens, bons momentos e excelentes risadas. É contar os dias para o próximo encontro, é fazer as malas e embarcar sabendo que nunca retornaremos da mesma maneira, sempre com algumas dúvidas e outras respostas, com alguns inícios e outros fins, insistindo vez ou outra a abrir a janela do recomeçar.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 21 de Maio de 2016

14 de maio de 2016

Sobre o mar

Eu amo o mar e preciso começar o texto com essa afirmativa: sim, eu amo o mar.

Tomei o primeiro banho de mar com poucos meses de vida, não sei se o choro foi de medo ou emoção e desde então nunca mais nos abandonamos. Cresci beirando o litoral, sempre banhada com água salgada, na praia era água de mar, longe dela era o suor e lágrimas.

Vovô me fez ser corajosa: ensinou-me a remar, incentivou a mergulhar e me doutrinou a respeitá-lo; a ouvir os seus sinais, a rezar sem dizer uma só palavra; a deixar a areia enterrar os pés com as marolas. Eu não conheci outra pessoa tão apaixonada pelo mar quanto Vô, e devo os primeiros ensinamentos a ele.

No mar eu desatraco do cais de meus limites e me ponho a navegar em rumos desconhecidos, no entanto, absurdamente familiar. No mar eu sou concha, sou marola, sou loca de pedra e peixe. No mar eu tenho vida. A dor sempre parece menor e o amor sempre se esparrama. A nossa relação é tão profunda, íntima.

Há alguns anos tatuei uma gota na perna que apesar de existir dois grandes significados, um deles é referenciando o mar, a santa água salgada, que me acalma e me transforma.

A água quando chega à cintura me sinto uma sereia pronta para navegar rumo ao lar novamente. Um sorriso escancarado e os olhos fechados para ouvir o que ninguém entende: os seus signos, as suas dores, os seus amores. Um mergulho vale como um abraço, o vai e vem de ondas é um passo de dança.

No último final de semana tive a oportunidade de mergulhar com cilindro no Porto da Barra em Salvador, desejo antigo. Após uma semana de vento forte e chuva, o mar ficou turvo e agitado, mas não menos encantador.

Com equipamentos de segurança e um instrutor capacitado, encaramos a imersão. Poderia reafirmar sobre a beleza do mar, sobretudo do fundo de suas águas, mas prefiro dizer que o mar jamais será incrivelmente lindo se não for com prudência e cuidado, e isso a equipe do Submerso SUP Dive tem de sobra. Bons equipamentos e profissionais competentes faz toda a diferença.

Com Robson fui uma sereia liberta. Entreguei-me a respiração serena e as nadadeiras ritmadas. Ali onde reina beleza, com uma infinidade de cardumes de peixes, corais e cavalos marinhos. Fomos inteiros, completos.

A maré sempre recua clamando saudade. Eu sempre vou embora querendo ficar, querendo morar bem em frente ao mar. Sou pertencente à água salgada. Consinto com Dorival Caymmi, “era doce morrer no mar”, porque a cada volta parte de mim fica por lá...


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 14 de Maio de 2016

Contato da Submerso Sup Dive (71) 
3035-3095 / 98705-6860 - Localizado no Porto da Barra, Salvador/BA.

16 de abril de 2016

Eu, o pintor e meu lar

Após convidar um pintor que já trabalha comigo há bastante tempo, fomos aos detalhes:

- Do que precisa, doutora?
- Então, estou querendo substituir esse azul por branco, o friso por dourado e o ‘encardido 
desbotado’ por um marrom-claro que se chama areia.
Algumas sugestões e acordos firmados sobre a data de inicio e data do fim, lista da material em mãos e rumo às compras com preços pela hora da morte.

Ao desembarcar nessas lojas de materiais de construção os homens sempre nos olham com um olhar de prepotência como se não estivéssemos sabendo exatamente o que estamos indo comprar. Mal sabem eles que já temos loja e vendedor preferido, e produtos escolhidos previamente. Bem como uma consulta antecedente em todas as lojas possíveis no nosso raio de alcance.

Apesar de poder contar com uma eficiente ajudante, um ‘simples retoque’ é capaz de sujar todos os móveis e todos os cômodos com um pó branco capaz de irradiar as mais possíveis alergias. Um ‘simples retoque’ significa idas e vindas a lojas de material de construção em busca do dourado perfeito para o detalhe do sanca do gesso, e a lista de materiais sempre triplicam do inicial. Para o nosso desespero, no meio do serviço percebemos que a data estipulada será maior do que a prevista.

Do meio para o fim, embora com todo o desespero tomamos gosto por aquilo que nos agrada e vamos investindo no nosso bem estar, no nosso refúgio, no nosso cantinho desejado nos momentos de cansaço e de tranquilidade. Ter uma casa aconchegante é qualidade de vida, e disso eu não abro mão. Nem do meu conforto, nem do meu deleite.

Não somos tão sexo frágil assim, tocar uma pintura, uma obra ou uma empresa, parece difícil, os desafios são imensos, inclusive aqueles que absorvemos ao longo dos anos por ser uma tarefa masculina. Bom, confesso que fiz uma escolha errada, mas no restante acertei em cheio aos meus desejos. E isso é o que importa.

E o que são alguns espirros no meio de uma crise alérgica, quando o nosso cantinho fica exatamente do jeito que planjamos desde o primeiro momento? São apenas alguns espirros contidos com antialérgico!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 16 de Abril de 2016

24 de março de 2016

Deu Zika!

Como nos proteger de uma doença que assola sem dó nem piedade, e cada vez mais mutante. O governo entrega dezenas de insinuações possíveis sobre o caso; os hospitais acolhem os doentes a torto e a direita, que se antes já sofriam com superlotações e qualidades limitadas, o que poderá se dizer com a atual situação? O que temos são apenas especulações, suposições, e hipóteses das mais divers
as.

No início a microcefalia era ligada a Zika, depois mudaram de opinião e culparam a vacina de rubéola, o larvicida, em seguida retornaram para a tal Zika, descartaram e voltaram a crer que tamanho problema está ligado com um mosquito tão pequeno, minúsculo.

A indústria farmacêutica está lucrando com os remédios paliativos, com a venda excessiva de repelentes e as farmácias assim como os hospitais sempre lotados, falta pouco para distribuir senha de atendimento.

Num intenso desafio de viver, as gestantes sustentam o medo e vive um drama surreal, as crianças microcefálicas guerreiam num mundo incompleto e inseguro para elas. É bom fazer lembrar que o governo federal, quiçá estadual ou municipal estão acolhendo as crianças com microcefalia, bem como as famílias. Uma total falta de assistência. E isso é documentado diariamente nas mídias.

Uma coisa é inegável, o Zika vírus é fruto de uma doença que evoluiu na incompetência de uma saúde preventiva eficiente. Não sabemos quando essa onda de epidemia vai cessar. São mais de 4.000 casos de bebês com microcefalia. E não é apenas um cérebro menor do que o aceitável são crianças com inúmeros comprometimentos, que incluem a visão, audição e uma síndrome muito mais grave do que podemos imaginar.

Vivemos fugindo do mosquito como o diabo da cruz. Não sabemos quando as mulheres poderão voltar a engravidar com segurança, não sabemos do abalo em nossa imunidade e nem garantias sobre uma doença que surgiu entre nós em menos de um ano.

Diante da situação de risco e de informações ambíguas, só nos resta uma boa dose de cautela. E torcer para que com a chegada do inverno e condições climáticas mais amenas, possa diminuir a proliferação do mosquito e a sua infestação.

Mas quem apontar como o causador num país de baixa escolaridade, em grave crise econômica, níveis insatisfatórios de saneamento básico, uma falta absurda de água e prestação de saúde vergonhosa. É difícil apelar para o otimismo.


Não há relatos de uma virose transmitida por mosquito se disseminou tão depressa na história recente da humanidade. Faz medo, meus caros.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 24 de março de 2016

8 de janeiro de 2016

Perfil organizado

Morei em Itabuna, passei o dia no litoral, virei praieira. Vou e volto. Amo e desamo. As palavras me perseguem. No fim me entrego ao silêncio. Sou fascinada por minha dor.

O ciclo era este: Vovô ministrava amor em doses cavalares, Vovó me ensinava à paciência de preparar bolos confeitados, Painho cuidava dos machucados com muito esmero, Mainha fazia os almoços memoráveis de domingo. Tia Fátima virava adolescente, meu primo Adriano apresentou a comédia. Tia Marília a geometria, Tia Clery a compreensão.

Na minha vértice de escritora, vou expulsando verbos, anjos e demônios. Vou me vendendo, me comprando, me reinventando.

Nunca fui centro das atenções. Gosto da possibilidade de nem sempre ir com todo mundo, com todas as culinárias e especiarias, com raças diversas. Com pouca consciência ou sentimento.

Dou um braço pelo azul, e o traio com vermelho. Abandono o azul e o vermelho pelo branco. Mudana. Nasci assim. Sempre desconfiada. Inquieta. Se soubesse dançar, não teria uma só palavra parada, nem uma música sem ritmo corporal. Respeito acima de todas as coisas a seriedade dos sentimentos, e aceito a simplicidade dos sentidos, primata ou contemporâneo.

Fico eufórica com os anúncios de viagens turísticas. Contemplo me entregando as Ilhas Maldivas, ao caminho de Santiago de Compostela e a paz do Tibete. Penso nos deuses indianos, no tango argentino, no vinho Italiano. Posso abandonar a euforia em um sono entre o almoço e o futuro.

Não tente qualquer discurso para me convencer. Acorrento minhas mãos para não aplaudir pregações idiotas. Ancoro meus pés em minha fortaleza para não me dispor em ambientes intoleráveis.

Vivo me perdoando, porque é doce perdoar. Às vezes me destruo, porque é mais leve reconstruir. Sou fascinada em minha dor.

Devoro uma moqueca baiana como se não houvesse amanhã, mas sei deixar escorrer um espumante gelado por minha garganta como uma fina europeia. Às vezes me satisfaço com pão e água como banquete.

Divirto-me na chuva, viro menina levada, sei tomar banho de bica. Com o sol me banho com água salgada, invado o mar. Me invado, reinvento, escorro em mim como lágrimas, desamarro-me para recompor, para escorrer sempre que preciso, e inventar, reinventar e escorrer de novo.

Vou e volto é o meu direito, uma obrigação que grita, afirmando: você é liberta. Vou e volto com quem me perturba, quem me abusa. Amo, desamo, faço e refaço.

Perdoo o mal que me atingiu, me aconchego com o bem. E vivo de palavras, ditas e não ditas. Elas me agarram, as imagens me agarram. Não tenho simpatia.

De tudo resta o silêncio, minha maior liberdade. Sou fascinada em minha dor.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 9 de Janeiro de 2016.

12 de dezembro de 2015

Adeus graduação

É estranho sair sem dizer adeus, sem abraços, ou ao menos um simples registro já que estamos tão absorvidos com a tecnologia. Mas foi assim para mim, um fim sem declarações – apesar de querer fazê-las -, uma despedida solitária a cada passo nos corredores, um suspiro de dever cumprido a cada porta que fizeram parte dos meus longos 10 semestres.

Assinar a última prova, entregar ao professor que esteve presente em tantas interrogações ao longo dos cinco anos de curso e em pouco tempo será colega de profissão pelas mesas de audiências, e consequentemente de novas dúvidas práticas, é um sentimento de gratidão sem fim.

Diferente do primeiro dia de aula, em que estava deslocada no meio de tantos colegas experientes, fosse com as leis, fosse com os tantos termos jurídicos, hoje eu saio com a cabeça erguida de vitória, de completude. Um ciclo que se finda, e outro que se arregala para os dias vindouros.

Nunca fui uma boa aluna, nunca me destaquei entre os colegas, nunca fui aquela colega queridinha pela maioria (e talvez nem pela minoria). Sempre quis carregar os destaques comigo sigilosamente, nunca pela maior nota numa prova, ou a aprovação na matéria sem muito esforço. Sim, pelos dias que parecia um zumbi do The walking Dead ao virar noites enfurnada com a cara nos livros.

Foram cinco longos anos de superações, de pequenez, de sorrisos escondidos, assim como as lágrimas. Anos que eu disfarcei as dores e as fraquezas. Anos em que aprendi a carregar livros na bolsa, no carro ou nas viagens. Anos que tive medo de não conseguir cruzar o portão da faculdade com uma palavra composta de oito letras: APROVADA. Medo de não ser capaz de entregar o diploma nos braços da pequena Maria e dizer: - Isto foi por/para você.

O direito me trouxe uma estante cheia de livros jurídicos, me fez aprender a quebrar as regras de física e estar em dois lugares ao mesmo tempo. O direito me ensinou a estudar no momento que a filha dormia, ou enquanto fingia trabalhar. Ele me ensinou sobre erros imperdoáveis, fosse no tribunal, fosse no grupo de whatsaap.



Eu sempre fui meio estranha, confesso. Me apaixonei pelo direito da mesma proporção que pela literatura. Tomei outros rumos dentro da sala de aula. Escolhi estudar teologia, fazer pós-graduação, trabalhar, cuidar de filho e tornar-me escritora simultaneamente. Eu saio assim, sem dinheiro nos bolsos ou nas mãos, sem saber os sonhos dos colegas, ou ter projetos de sociedade. Eu avisei, sou meio estranha. 

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 12 de dezembro de 2015.

21 de novembro de 2015

Acidentes ou tragédias?

Ao que parece 2015 será um ano marcado por grandes tragédias, e por pessoas querendo medir o tamanho de cada uma delas, culpando a ausência de proteção divina sobre atitudes irracionalmente humanas.  

No início do ano um avião destruiu primariamente 150 vidas, nos Alpes Franceses, consequentemente, muitas outras foram atingidas. Pais que perderam seus filhos, maridos que não deram o último beijo, filhos que não receberam o derradeiro abraço. E quem levou a culpa? Um piloto que foi diagnosticado com depressão e estava inapto para exercer a sua atividade, porém omitiu os fatos até quando conseguiu.

O terremoto no Nepal matou nove mil pessoas, e deixou mais de vinte e três mil feridos. E muitos se perguntaram, onde estavam todos os deuses do hinduísmo que não evitaram tamanha tragédia? Provavelmente estavam onde sempre estiveram.

Em seguida aquela imagem angustiante do menino sírio de três anos de idade que morreu afogado ainda permeia a nossa memória, ali era apenas a pequena mostra dos tantos barcos em condições nada convenientes que deixavam países do Oriente médio e da África, de centenas de refugiados não chegaram ao seu destino.

A vingança destilada de ódio em nome de Allah, neste ano, começou na França com o massacre no jornal sátiro francês. E seguiu em nome do fanatismo durante todo o ano. E eu penso: quantos inocentes sacrificam suas vidas, sem terem outra escolha?

O rompimento dos rejeitos de mineração em Mariana/MG causou uma das maiores catástrofes ambiental do país e sabe que paga a conta? Isso mesmo... eu, você, seu pai, seu vizinho. Mas a nossa conta é bem pequena, a tarifa maior é de quem não tem água, não tem comida, de quem teve a sua casa arrastada, de quem perdeu a vida, dos animais que estão morrendo, da flora. A pior conta mesmo é do Rio doce que não foi poluído, o Rio doce não existe mais. E ‘zefini’.

A Chapada Diamantina está se acabando em chamas, supostamente criminosa. E por conhecer aquela região, eu me pergunto: como alguém pode destruir essa preciosidade? 

Eu tenho medo desse mar de lama que assola nossas vidas, enquanto pessoas digladiam nas redes com: “medir dor”, “competição de tragédia”. Não percebem a grandiosidade disso tudo. Serão pessoas tentando se refazer por décadas por cada uma dessas catástrofes. Serão animais extintos, leitos de rios que nunca mais serão os mesmos, famílias que se acabaram. É algo que afeta e atinge a TODOS, em diversas esferas. Estamos dispostos num rastro de terror e desespero, todos os dias.

O mais deprimente é que aqueles que se mostraram sensibilizados por Paris ou Mariana, pouquíssimos transformaram isso em atos ou atitudes. Gestos virtuais são apenas para ‘inglês ver’, mas mesmo assim culpam Deus, que nem na tragédia do Éden pôde atentar contra a liberdade da criatura.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região, publicada no dia 21 de Novembro de 2015. 

15 de novembro de 2015

Desamor


Foi-se o tempo me que eu me entregava ao amor com as vistas vendadas. Quando mais nova eu tinha o romantismo como uma religião. Fechava os olhos e sonhava acordada com amor sendo devolvido na mesma proporção. Sentia o frio na barriga toda vez que o moço se dirigia a mim. Creditava bilhetes românticos no meio da agenda e dos bolsos.
Já aconteceu de acreditar em filmes de amor. Já aconteceu de acreditar em pedidos de namoros, de imaginar casamentos para a vida inteira. Já aconteceu de pensar que as pessoas lutariam por quem se ama. Já aconteceu de pensar que as pessoas não seriam dispensadas sumariamente quando nos magoassem. Já aconteceu de esperar um perdão despido de mentiras.
Já acreditei na leveza das flores perfumadas, de alianças e de mãos dadas. Já acreditei no ‘eu te amo’ sincero, em juras eternas e em promessas memoráveis. Antes eu pensava que as pessoas se amavam e se casavam por afinidade, por desejo, por escolha e não por carência, pela expectativa do prazer, ou pelo interesse. Os critérios de triagem estão em desequilibro. Eu já pensei que as pessoas faziam o bem se esperar muita coisa em troca, nada além de um obrigado.
Quando lia texto de amor eu sempre acreditava que tinha um grande romance incentivando tudo isso. Depois eu descobri que as pessoas que mais falam de amor são as mais carentes, as mais solitárias, as mais necessitadas de afeto. Ok, sempre tem exceção às regras.
O romantismo está cafona, o amor está brega. Olhos nos olhos só nas músicas. Declarações estão levianas. Entrega de corpo e alma sem rede social é quase nula. O amor é banalizado. As agendas estão lotadas. E o individualismo é um mal que assola.

A vida de repente nos desperta e petrifica o coração.  Eu não sei se já fui boba o suficiente, ou se me falta amor. Estamos cada vez mais ocupados com nós mesmos, com nossas vontades, com o nosso mundo particular tão cheio de si.  Tornamo-nos solitários, presos em nossas redes sociais. Antes somente o bate-papo da uol era inofensivo nos relacionamentos, hoje temos dezenas de redes que nos tornamos obrigados a seguir e dar satisfação. Não conseguimos desligar celulares ao deitar, e nem usamos mais relógio com despertador. E a felicidade se limita apenas a registros deslumbrantes para o mundo ver.

Juliana Soledade