Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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4 de junho de 2016

Não me obrigue!

NÃO ME OBRIGUE

Não me obrigue a falar que te amo quando esse sentimento não existir dentro de mim. Não me faça sair do conforto de minha cama quentinha quando eu não quiser. Não insista, não tente me impulsionar com motivos sem graça ou desnecessários.  

Não me obrigue a ter atitudes contrarias a minha vontade. Não determine perfeição onde não existe, e que na verdade, nunca irá existir. Não me obrigue a te chamar pelo apelido, pelo diminutivo. Não vou ser amiga íntima de qualquer jeito, preciso de conquista, partilha e confiança.

Não me obrigue entrar os padrões universais impostos pelas mídias, pela sociedade, pelo vizinho de sua tia. Pare de tentar varrer os cantinhos de meu templo se você não os conhece o meu lar. Pare de violentar os meus planos, os meus sorrisos... Poupe os meus nãos.

Não quero fingir que está tudo bem, nem forçar sorriso. Entenda, eu não sei abraçar quando não quero. Vou desviar o olhar, vou mexer no celular, vou dar desculpas, mas não, não irei abraçar caso não queria.

Não vou fingir que é meu amigo caso não seja, não vou dizer “eu te amo” como se fosse um “olá”. Não sei mergulhar no raso,     amor é algo sério, ou se mergulha com os equipamentos de segurança ou então se morre afogado. Simples!

Vou adorar viajar, vou adorar me guardar. Ambígua, mas nunca indecisa. No mundo sempre lugares novos, e em mim pelo mesmo motivo. Então não insista para eu ficar, não me faça ir sem vontade.

Não adianta dizer que devo usar saia, vestido ou biquíni. Vou contrariar. Vou usar o que o espelho concorda. Vou guardar moedas, cartões postais e cartas de ex-amores. Não se incomode, a casa é minha. Não vou chorar para fazer drama, não vou sair querendo ficar.

Não vou disputar presença, atenção ou amizade. Entra quem quer ficar, e fica quem eu quero que fique. Não me peça explicações. Posso ser um excelente veneno ou antídoto.

A cada vez que sou obrigada a agradar alguém unilateralmente, serei machucada. A cada sim sem escolha, serei cortada por dentro. E será difícil de estancar o que sangrará aqui dentro.

Quando sorrio com a alma mostro todos os dentes, meus abraços são feitos esmagos. Meu amor é intenso e verdadeiro e minha alma pode não lhe agradar. Desculpas, minha vida não foi feita para você, foi feita para mim, desse jeitinho manso e enérgico. Possessiva e autoritária. Um santuário que posso chamar de meu, encarnar eu. Sempre. Do acordar ao adormecer. Não baixo guarda, ser pacífico não significa ser passivo.

Eu vou voar, quando eu quiser, do jeito que eu quiser e sempre que bem entender. Aqui tudo é movimento.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 04 de Junho de 2016

16 de abril de 2016

Eu, o pintor e meu lar

Após convidar um pintor que já trabalha comigo há bastante tempo, fomos aos detalhes:

- Do que precisa, doutora?
- Então, estou querendo substituir esse azul por branco, o friso por dourado e o ‘encardido 
desbotado’ por um marrom-claro que se chama areia.
Algumas sugestões e acordos firmados sobre a data de inicio e data do fim, lista da material em mãos e rumo às compras com preços pela hora da morte.

Ao desembarcar nessas lojas de materiais de construção os homens sempre nos olham com um olhar de prepotência como se não estivéssemos sabendo exatamente o que estamos indo comprar. Mal sabem eles que já temos loja e vendedor preferido, e produtos escolhidos previamente. Bem como uma consulta antecedente em todas as lojas possíveis no nosso raio de alcance.

Apesar de poder contar com uma eficiente ajudante, um ‘simples retoque’ é capaz de sujar todos os móveis e todos os cômodos com um pó branco capaz de irradiar as mais possíveis alergias. Um ‘simples retoque’ significa idas e vindas a lojas de material de construção em busca do dourado perfeito para o detalhe do sanca do gesso, e a lista de materiais sempre triplicam do inicial. Para o nosso desespero, no meio do serviço percebemos que a data estipulada será maior do que a prevista.

Do meio para o fim, embora com todo o desespero tomamos gosto por aquilo que nos agrada e vamos investindo no nosso bem estar, no nosso refúgio, no nosso cantinho desejado nos momentos de cansaço e de tranquilidade. Ter uma casa aconchegante é qualidade de vida, e disso eu não abro mão. Nem do meu conforto, nem do meu deleite.

Não somos tão sexo frágil assim, tocar uma pintura, uma obra ou uma empresa, parece difícil, os desafios são imensos, inclusive aqueles que absorvemos ao longo dos anos por ser uma tarefa masculina. Bom, confesso que fiz uma escolha errada, mas no restante acertei em cheio aos meus desejos. E isso é o que importa.

E o que são alguns espirros no meio de uma crise alérgica, quando o nosso cantinho fica exatamente do jeito que planjamos desde o primeiro momento? São apenas alguns espirros contidos com antialérgico!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 16 de Abril de 2016

9 de abril de 2016

Amigo

Quantas pessoas entram e saem sem pedir licença e não faz a menor diferença? Muitas, talvez. Eu diria a grande maioria.

Tem outras que começam a ser a nossa sub pele, sabe? São pessoas que precisamos correr para contar os nossos projetos, vão ponderar, e que vão nos apoiar, mesmo que não seja o mais correto. Tem pessoas que sabem de segredos que nem lembrávamos. Sabem da nossa cor preferida, do nosso vinho favorito e dos nossos gostos mais peculiares.

Tem amigos que choramos pitangas, amores e vitórias. Tem amigos que aprendemos a amar, respeitar e cuidar. Tem amigos que é capaz de largar o cobertor quentinho às duas da manhã, cortar a cidade inteira para te levar ao hospital, para depois rir do seu drama na injeção e segurar na mão quantas vezes forem preciso. Amigo que lhe empresta dinheiro sem você assinar recibo, mesmo que o valor seja alto. Amigo que lhe chama para sociedade, só porque confia no seu potencial. Amigo que diz “vai dá certo, eu te ajudo”.


Amigo é quem te convence que uma viagem vai te fazer bem, mas que a viagem só vai fazer bem com esse amigo. Tem amigos que nascem para serem nossos amigos, que no primeiro bater de olhos já existe uma identificação e sem querer já sabem da nossa vida mais do que nós mesmo. Porque amigo de verdade não tem ressalvas, mistérios e nem senha no celular.

Amigo é aquele que te sacode na depressão, que guarda a sua dor para te fazer forte, que ciúma quando novos amigos se aproximam, ou quando o rapaz começa a investir no romance.

Quando eu me acho vacinada de chegadas e partidas, um amigo que extravasa a condição de mera amizade e entra por muitas vezes no condão de irmão, liga e diz: “estou indo embora no domingo”, palavras que me cortaram o peito e fiquei perdida no meu choro com ele me chamando do outro lado da linha. Desliguei, feito uma criança mimada. E me recusei a dar adeus, porque sim, eu sei que qualquer dia desses a gente topa na vida de novo, para rirmos juntos daquela queda que tomei, daquele toco que levei ou daquela vez que disse: “eu te avisei”. Eu sei que ainda vamos comer muitas pizzas de quatro queijos com borda recheada, ainda vamos beber caipirokas até errar o sabor, e vamos sair energizado de um show de Vanessa da Matta. Vamos, eu sei.

É você que foi meu companheiro de conquistas e de choros com soluços. Que sempre atendeu meu telefone e que me perguntava sobre os seus planos. Rimos dos tropeços. Rimos das mancadas. Rimos dos medos bobos e daqueles nem tão bobos assim. É você que me defende feito um bicho, que mostra que o gatinho é um cordeiro. É você que diz: “relaxe”. É com você que divido uma rodada de tapioca ou uma série de caretas.   

Mas eu fico daqui, te desejo toda sorte na vida, e agradecendo por todo o tempo que esteve segurando minhas asas, acolhendo meus prantos e vibrando comigo. Porque agora elas estão tortas, molhadas, frias.



Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 09 de Abril de 2016

24 de março de 2016

Deu Zika!

Como nos proteger de uma doença que assola sem dó nem piedade, e cada vez mais mutante. O governo entrega dezenas de insinuações possíveis sobre o caso; os hospitais acolhem os doentes a torto e a direita, que se antes já sofriam com superlotações e qualidades limitadas, o que poderá se dizer com a atual situação? O que temos são apenas especulações, suposições, e hipóteses das mais divers
as.

No início a microcefalia era ligada a Zika, depois mudaram de opinião e culparam a vacina de rubéola, o larvicida, em seguida retornaram para a tal Zika, descartaram e voltaram a crer que tamanho problema está ligado com um mosquito tão pequeno, minúsculo.

A indústria farmacêutica está lucrando com os remédios paliativos, com a venda excessiva de repelentes e as farmácias assim como os hospitais sempre lotados, falta pouco para distribuir senha de atendimento.

Num intenso desafio de viver, as gestantes sustentam o medo e vive um drama surreal, as crianças microcefálicas guerreiam num mundo incompleto e inseguro para elas. É bom fazer lembrar que o governo federal, quiçá estadual ou municipal estão acolhendo as crianças com microcefalia, bem como as famílias. Uma total falta de assistência. E isso é documentado diariamente nas mídias.

Uma coisa é inegável, o Zika vírus é fruto de uma doença que evoluiu na incompetência de uma saúde preventiva eficiente. Não sabemos quando essa onda de epidemia vai cessar. São mais de 4.000 casos de bebês com microcefalia. E não é apenas um cérebro menor do que o aceitável são crianças com inúmeros comprometimentos, que incluem a visão, audição e uma síndrome muito mais grave do que podemos imaginar.

Vivemos fugindo do mosquito como o diabo da cruz. Não sabemos quando as mulheres poderão voltar a engravidar com segurança, não sabemos do abalo em nossa imunidade e nem garantias sobre uma doença que surgiu entre nós em menos de um ano.

Diante da situação de risco e de informações ambíguas, só nos resta uma boa dose de cautela. E torcer para que com a chegada do inverno e condições climáticas mais amenas, possa diminuir a proliferação do mosquito e a sua infestação.

Mas quem apontar como o causador num país de baixa escolaridade, em grave crise econômica, níveis insatisfatórios de saneamento básico, uma falta absurda de água e prestação de saúde vergonhosa. É difícil apelar para o otimismo.


Não há relatos de uma virose transmitida por mosquito se disseminou tão depressa na história recente da humanidade. Faz medo, meus caros.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 24 de março de 2016

23 de janeiro de 2016

Odisseia da vida perfeita

Outro dia parei frente à televisão e fiquei abobada com a terapia intensiva dos comerciais em busca da vida perfeita, já faz cinco anos que não assisto televisão. Primeiro por não encontrar opções inteligentes na rede aberta, e segundo por preferir utilizar esse curto tempo em atividades mais rentáveis.

Desculpem o blá blá blá, mas estamos envoltos numa vida de perfeição, de cartões de créditos ilimitados, de extremos. Uma busca insana pelo corpo perfeito de Gabriela Pugliese; pela energia de Ivete Sangalo, treinos que cansam apenas de ver pelo ‘Snapchat’. Hugo Gloss com uma vida badalada com os famosos, onde nada parece ter limite.

Estamos nos arriscando o tempo inteiro pelo perfeito (sem sermos completos ou inteiros), e será que de fato existe isso? Estou inserida nisto também, quando digo que quero um sorriso impecável como o de Ana Hickmann, o condicionamento físico de um corredor profissional, ou todos os sapatos da última coleção. Por horas é preciso ser mais consciente, coerente. Pé no chão, falta para mim também, confesso.   
Até as crianças são imbuídas nessa vida de conto de fadas: as férias precisam ser inesquecíveis, as mochilas escolares, bem como todo o seu material precisa ser melhor do que todos os outros colegas. É viagem para a Disney com o dólar pela hora da morte, é roupa da melhor marca, sapato importado, bonecas reborn idênticas a um bebê (e que custam uma pequena fortuna).

Por favor, PAREM!! Vamos nos aceitar com aquela estria que nasceu a partir da gravidez, do quilinho a mais ou do hormônio desregulado. Abandonem as cismas pelas celulites, definitivamente, elas não têm culpa de nada para receber tanta carga negativa. Aceitem quando uma programação não deu certo. Troquem a cerveja gourmet pela água de coco ou pela cachaça ruim de boteco.

Estamos pagando um preço cada vez mais alto pelos padrões impostos pela sociedade e pela mídia. Esquecemo-nos da saúde, das nossas limitações, e de amor-próprio. O que importa nessa vida é abandonar as amarras que criamos por uma vida tão perfeita para de fato se unir pela leveza que podemos ter/ser. Assim, sozinhos, sem depender de ninguém, ao não ser a nossa própria companhia. Beleza e feiura é fácil acostumar, só não é possível conviver com a loucura do perfeito.

Vaidade, tudo é vaidade...

Juliana Soledade


Crônica produzida para o Jornal A Região, publicado no dia 23 de Janeiro de 2016.

12 de dezembro de 2015

Adeus graduação

É estranho sair sem dizer adeus, sem abraços, ou ao menos um simples registro já que estamos tão absorvidos com a tecnologia. Mas foi assim para mim, um fim sem declarações – apesar de querer fazê-las -, uma despedida solitária a cada passo nos corredores, um suspiro de dever cumprido a cada porta que fizeram parte dos meus longos 10 semestres.

Assinar a última prova, entregar ao professor que esteve presente em tantas interrogações ao longo dos cinco anos de curso e em pouco tempo será colega de profissão pelas mesas de audiências, e consequentemente de novas dúvidas práticas, é um sentimento de gratidão sem fim.

Diferente do primeiro dia de aula, em que estava deslocada no meio de tantos colegas experientes, fosse com as leis, fosse com os tantos termos jurídicos, hoje eu saio com a cabeça erguida de vitória, de completude. Um ciclo que se finda, e outro que se arregala para os dias vindouros.

Nunca fui uma boa aluna, nunca me destaquei entre os colegas, nunca fui aquela colega queridinha pela maioria (e talvez nem pela minoria). Sempre quis carregar os destaques comigo sigilosamente, nunca pela maior nota numa prova, ou a aprovação na matéria sem muito esforço. Sim, pelos dias que parecia um zumbi do The walking Dead ao virar noites enfurnada com a cara nos livros.

Foram cinco longos anos de superações, de pequenez, de sorrisos escondidos, assim como as lágrimas. Anos que eu disfarcei as dores e as fraquezas. Anos em que aprendi a carregar livros na bolsa, no carro ou nas viagens. Anos que tive medo de não conseguir cruzar o portão da faculdade com uma palavra composta de oito letras: APROVADA. Medo de não ser capaz de entregar o diploma nos braços da pequena Maria e dizer: - Isto foi por/para você.

O direito me trouxe uma estante cheia de livros jurídicos, me fez aprender a quebrar as regras de física e estar em dois lugares ao mesmo tempo. O direito me ensinou a estudar no momento que a filha dormia, ou enquanto fingia trabalhar. Ele me ensinou sobre erros imperdoáveis, fosse no tribunal, fosse no grupo de whatsaap.



Eu sempre fui meio estranha, confesso. Me apaixonei pelo direito da mesma proporção que pela literatura. Tomei outros rumos dentro da sala de aula. Escolhi estudar teologia, fazer pós-graduação, trabalhar, cuidar de filho e tornar-me escritora simultaneamente. Eu saio assim, sem dinheiro nos bolsos ou nas mãos, sem saber os sonhos dos colegas, ou ter projetos de sociedade. Eu avisei, sou meio estranha. 

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 12 de dezembro de 2015.

5 de dezembro de 2015

O Impeachment e o Brasil


O Brasil no seu quarto mandato consecutivo no comando do PT, e diretamente abraçado por Lula, embarcou em um caos, uma anarquia instalada sem ter dia marcado para sair do abismo que estamos nos afundando.
Como numa falência múltipla de órgãos, sabemos que a oposição também não é capaz de marcar presença com um plano de governo sustentável. Não existe luz no fim do túnel. Enquanto de um lado um índice de popularidade baixíssimo e uma economia indo de mal a pior, do outro, participações em fraudes e pouca vontade de ser diferente, como se a grande maioria estivesse com o carimbo de corruptos profissionais.
Não me fale em eleição através de um processo “legitimo e democrático” quando não permitem que esse processo seja apurado e verificado abertamente. Ser democrático não é aceitar apenas o jogo que nos interessa, democracia tem regras, e precisamos aceitar o resultado final, por mais que não seja a nossa preferência.
Ser a favor do impeachment não é pedir que Aécio assuma a cadeira, muito menos exigir imediatamente uma nova eleição. Ser a favor do impeachment é declarar contrariedade às tantas omissões de irregularidades de uma presidente que foi escolhida para representar o povo. A possibilidade do impeachment é para tirar do poder aquele que de forma comprovada cometeu crimes de responsabilidade previstos na Constituição Federal e na Lei de Responsabilidade Fiscal. 
O processo não é simples, terá um longo caminho pela frente. Precisamos aguardar a continuidade ou o arquivamento do processo, para isso, votações desgastantes. E de acordo o artigo 79 da nossa Constituição Federal, quem vai assumir o cargo em caso de condenação, é o vice-presidente, Michel Temer.
Escutar um pronunciamento da Presidente afirmando que recebeu com indignação a decisão é no mínimo imaturo. Desde 2013 que pessoas vão as ruas, não para serem vistos como direita ou esquerda, mas sim uma multidão contra o sistema. Desde 2013 a voz do povo clamando por mudança. Porém não clamem pela prisão de Dilma, ela jamais poderá ser presa enquanto não for condenada criminalmente pelo STF.
Sabemos das tantas mentiras ditas na época das eleições: nos direitos dos trabalhadores que não seriam mexidos, nas tarifas que não seriam aumentadas brutalmente, na inflação do preço do combustível, dos juros, da energia. Ela, a presidente, prometeu o controle dos impostos e isso não entra no processo de impeachment.
Neste processo versa sobre questões fundamentadas: atos contra a improbidade administrativa; atos contra a lei orçamentária, a famosa pedalada fiscal que ganhou tanta repercussão esse ano; atos contra o cumprimento das leis e das decisões judiciais; e crime contra a guarda e legal emprego dos dinheiros públicos. Nada além desses pedidos pode ser discutido neste momento. Sobre qualquer outra irregularidade, deverá ser aceito um novo impeachment.
Importante ressaltar, que enquanto Cunha autorizava o processo do impeachment em rede aberta, o sabido Congresso Nacional aprovava um projeto de Lei que permite o governo finalizar o ano com déficit no orçamento. Sabe o que isso significa? Que hoje este excesso de gastos está legalmente autorizado. E provavelmente, os jornais ainda discutirão por semanas sobre a possibilidade dessa legitimidade em ambos os processos.
É um fundamento a ser discutido no âmbito jurídico, moralmente falando, não há parcialidade naquele que autorizou o processo de impeachment. Cunha é um politico corrupto, interesseiro e mentiroso do nosso país. Parcialidade, sabemos que não há. Por outro lado, uma nação que estava aguardava ansiosamente este momento.
Quanto a nós, eleitores-cidadãos-contribuintes, é preciso ir às ruas, mostrar em massa as nossas manifestações populares, para quem sabe, provocar a renúncia de quem pouco nos favorece.
Apenas para resumir, nem Cunha, e muito menos Dilma estão na linha mais correta da politica. É como ver o ladrão querendo bancar o detetive. É como se politica fosse a arte da meia verdade conveniente.


 Crõnica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 05 de Dezembro de 2015

21 de novembro de 2015

Acidentes ou tragédias?

Ao que parece 2015 será um ano marcado por grandes tragédias, e por pessoas querendo medir o tamanho de cada uma delas, culpando a ausência de proteção divina sobre atitudes irracionalmente humanas.  

No início do ano um avião destruiu primariamente 150 vidas, nos Alpes Franceses, consequentemente, muitas outras foram atingidas. Pais que perderam seus filhos, maridos que não deram o último beijo, filhos que não receberam o derradeiro abraço. E quem levou a culpa? Um piloto que foi diagnosticado com depressão e estava inapto para exercer a sua atividade, porém omitiu os fatos até quando conseguiu.

O terremoto no Nepal matou nove mil pessoas, e deixou mais de vinte e três mil feridos. E muitos se perguntaram, onde estavam todos os deuses do hinduísmo que não evitaram tamanha tragédia? Provavelmente estavam onde sempre estiveram.

Em seguida aquela imagem angustiante do menino sírio de três anos de idade que morreu afogado ainda permeia a nossa memória, ali era apenas a pequena mostra dos tantos barcos em condições nada convenientes que deixavam países do Oriente médio e da África, de centenas de refugiados não chegaram ao seu destino.

A vingança destilada de ódio em nome de Allah, neste ano, começou na França com o massacre no jornal sátiro francês. E seguiu em nome do fanatismo durante todo o ano. E eu penso: quantos inocentes sacrificam suas vidas, sem terem outra escolha?

O rompimento dos rejeitos de mineração em Mariana/MG causou uma das maiores catástrofes ambiental do país e sabe que paga a conta? Isso mesmo... eu, você, seu pai, seu vizinho. Mas a nossa conta é bem pequena, a tarifa maior é de quem não tem água, não tem comida, de quem teve a sua casa arrastada, de quem perdeu a vida, dos animais que estão morrendo, da flora. A pior conta mesmo é do Rio doce que não foi poluído, o Rio doce não existe mais. E ‘zefini’.

A Chapada Diamantina está se acabando em chamas, supostamente criminosa. E por conhecer aquela região, eu me pergunto: como alguém pode destruir essa preciosidade? 

Eu tenho medo desse mar de lama que assola nossas vidas, enquanto pessoas digladiam nas redes com: “medir dor”, “competição de tragédia”. Não percebem a grandiosidade disso tudo. Serão pessoas tentando se refazer por décadas por cada uma dessas catástrofes. Serão animais extintos, leitos de rios que nunca mais serão os mesmos, famílias que se acabaram. É algo que afeta e atinge a TODOS, em diversas esferas. Estamos dispostos num rastro de terror e desespero, todos os dias.

O mais deprimente é que aqueles que se mostraram sensibilizados por Paris ou Mariana, pouquíssimos transformaram isso em atos ou atitudes. Gestos virtuais são apenas para ‘inglês ver’, mas mesmo assim culpam Deus, que nem na tragédia do Éden pôde atentar contra a liberdade da criatura.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região, publicada no dia 21 de Novembro de 2015. 

7 de novembro de 2015

Medicina: amor ou status?

Entre uma taça de vinho e outra, eu afirmei: “eu não vivo muito”, olhares espantados e descrentes. A verdade é que é preciso uma força descomunal para lutar com essa fadiga do não ter uma identificação precisa sobre determinados sintomas, sobre idas a hospital. Tenho uma fraqueza imensa com atendimentos de cinco minutos, com o combo: ‘voltaren + buscopam + predinisona’, logo em seguida pode ir pra casa, algumas furadas e nenhum repouso.

Outro dia fui marcar uma consulta num médico que antes mesmo da consulta deveria fazer uma bateria de exames e levar pronto para a consulta. “Isso é um retorno”, eu indaguei. A recepcionista disse que era ‘praxe’. Pedi que incluísse no tal pedido um exame especifico de vitaminas, me foi negado. Fui embora sem olhar para trás e obviamente sem pegar a guia de exames.

Noutra consulta, a médica foi mais imprudente, não conferiu exames e me diagnosticou com uma síndrome ‘de não sei o quê’ e em seguida, fez uma lista com pelo menos sete remédios. Depois de assustada, eu esqueci propositalmente a receita – quase bíblia – na própria sala.

Senti o coração querer falhar um dia desses e cada médico de três me trouxeram um diagnóstico diferente. Cada um com uma lista de medicamentos ainda maior. Afirmei fazer o tratamento como mandava o figurino, como cada um deles indicou, mas a verdade, cá entre nós, é que eu não ingeri nenhum comprimido. E olha, estou viva, correndo sete quilômetros vez ou outra.

Hoje percebo cada vez mais farmácias e cada vez mais farmácias cheias. Parece incrível como pode ter tanta gente precisando de ‘milagres para a saúde’. O fato é que cansa saber que tudo apenas se resolve com uma porção de remédios sobrenaturais; pessoas continuamente doentes e um mercado vasto entre a indústria farmacêutica e consultórios médicos.

Por obra do destino, encontrei alguém bacana no caminho. Alguém que abriu o sorriso na mesma proporção do ‘vamos investigar’. Um médico que foi enfático ao dizer: “pare os remédios”, trocou as prescrições de ‘poções mágicas’ por uma consulta demorada e listas de exames para descobrir todas as causas de infinitas idas ao hospital, e consequentemente a essa entrega desleal aos efeitos colaterais.

É raro, eu sei. Por isso estou pensando num outro futuro de vida depois deste atendimento médico. Desconstruções que assustam, mas que ao mesmo tempo acalentam. Falas ditas com segurança e conhecimento de causa, isso conforta. Calculo que há pelo menos 10 anos ingiro adoçante, como regra raramente descumprida. Tenho um verdadeiro pavor a açúcar refinado, àquela camada de gordura da picanha, a comidas salgadas. E esse médico com fundamentos cabíveis, disse: “abandone o adoçante”. Ok, é difícil, estou descontruindo.


Encontrar com esse médico que leva a graça de Dr. Cássio, foi um alento. É como descobrir que nem todos estão vendidos às indústrias farmacêuticas, ao magnetismo do consumismo. Sim, parece que a luz no fim do túnel brilhou. Touché!

Juliana Soledade
Crônica produzida para o Jornal A Região, publicado no dia 07 de Novembro de 2015

2 de novembro de 2015

Cabelo

Vovô tinha cabelos além de brancos, eram alvos, muito finos e em sua cabeça algumas partes eles já tinham desaparecido. Comecei a cortar o cabelo de vovô quando nem sabia atravessar a rua sozinha. No início desenhava um mosaico em sua cabeça, ele não me censurava. Vezes outras, o barbeiro consertava as imperfeições que eu gerava.
Ele se recostava na cadeira, eu sentava em seu colo e aparava os seus pelos da sobrancelha, nariz e orelhas. Ele me deixava passar creme hidratante nos pés também, quando insistia muito besuntava por quase todo corpo, homem daquele tempo não se rendia fácil às vaidades. Mas eu o fazia ser rendido.
Vovô gostava do sol da manhã, principalmente na primavera. Ele sentava na porta de casa e deixava se esquentar, eu sempre acompanhava, dizia que fazia bem para o sangue. Sua bisneta desfrutou assim como eu de seu confortável colo no batente da porta, ela só não pôde retirar sozinha a roupa mais quente à medida que o sol aquecia o corpo, nem conversou sobre o movimento na avenida que avistávamos, tampouco do desenho de nuvens no céu.
Conforme os anos corriam, eu continuava a cortar seu cabelo, melhorei um pouco, talvez. Guardava os tufos branquinhos, depois atirava para cima no quintal. Vovô tinha uma paciência incontável comigo. Não precisava o cabelo crescer muito, eu sempre tinha um motivo para pegar o pente e a tesoura, e aparar. Caso não ficasse bom, a culpa era da tesoura cega, e ele nem se importava.
Ele me deixava lixar as suas unhas das mãos, mas nunca me deixou cortar, dado que tinha um cortador de unhas, incrivelmente limpo e guardava feito joia. Ele era cuidadoso, mesmo enxergando somente com um olho, e neste pingava colírio diariamente, quando estava no seu ninho, eu gotejava bem na parte colorida do olho. Ele se sentia cuidado.
Guardei a tesoura que cortava o seu cabelo, para quem sabe um dia, eu poder cuidar tão bem de meu pai como cuidei de meu avô. Ou ainda, permitir que a pequena Maria experimente do amor em fragmentos de delicadeza.
Nas suas últimas horas de vida ele me aconchegou em seu colo. Enquanto sentado na sua cama, eu desengonçada acomodei minha cabeça e recebi os seus derradeiros e mais significantes carinhos. Ainda não escutei um ‘eu amo você’ tão precioso e memorável quanto o desse dia. E, confesso, ainda não encontrei uma palavra que pudesse definir a beleza desse momento, não consigo recordar sem que algumas lágrimas despenquem dos meus olhos.
Enquanto isso, a vida corre e meu pai não me deixa cortar os seus cabelos.

Juliana Soledade
Crônica produzida para o Jornal A Região, publicado no dia 24 de Outubro de 2015

Tempo

O meu amor pelo tempo tem sido colocado em questão com frequência. Vive exigindo prazos, metas e apontamentos. Aos 20 te cobram a faculdade, aos 30 uma vida encaminhada profissionalmente, aos 40 a família perfeita, e se nada disso se encaixar no roteiro, o maldito tempo passa e os consultórios de terapia ficam lotados de pessoas frustradas com ‘socialmente correto’ que não foi alcançado.
Começando pelo facebook a toda manhã mostrando o que eu estava fazendo no mesmo dia em anos anteriores, muito mais do que nostálgico é perceber o quanto amadurecimento foi eficaz ao longo dos anos. Fechei os olhos dentro de um carro na quinta-feira passada e lá estava eu indo a caminho da capital, abro os olhos hoje e já se passou uma semana. Parece que nada aconteceu nesse período, mas sim, houve tantas informações, tantos risos, tantos banhos de lavar a alma, houve vivência.

Como se fosse um exercício mental recordei que já faz um mês que bateram no meu carro, e eu chorei feito uma criança quando roubam o pirulito mais bonito de suas mãos. Continuei puxando na memória as atividades dos meses anteriores e fiquei ofegante, talvez tenha sido um dos anos mais cansativos, apesar de próximo do fim, parece que ainda tenho o Everest para subir, penso eu.
Quando criança as férias duravam uma eternidade, as manhãs eram mais vibrantes, as chuvas não demoravam e os sorvetes derretiam bem devagar. À medida que somamos números as nossas idades o tempo ganha peso, tanto da experiência quanto das obrigações. O tempo não salva a morte, não promete amores eternos, tampouco garante a cura para o câncer.
Parece que deixei de ser criança ontem, ainda consigo sentir o cheiro de água maravilha que escorria pelas mãos das irmãs no colégio a cada joelho ralado. Sinto o coração disparado no nascimento de minha filha. O arrependimento de ter dito sim no altar. Consigo viver outra vez a sensação de liberdade na primeira separação. Fecho os olhos e tenho ainda com mais certeza de que o tempo formou o eu hoje, e agradeço, agradeço e agradeço. Como Caetano Veloso canta, um senhor “compositor de destinos”, em Oração ao tempo.
Juliana Soledade
Crônica produzida para o Jornal A Região, do dia 17 de Outubro de 2015.

26 de setembro de 2015

Mães

Nasce uma mãe quando dois riscos no exame da farmácia sinalizam uma gravidez, confirmada pelo ultrassom com os primeiros batimentos cardíacos, a emoção apenas acumula, explodindo no primeiro choro do bebê.
Ao abrir de olhos no nascimento de um filho, nasce imediatamente uma empreiteira:
- Restaurante delivery, primeiros socorros e intuição aguçada. Um polvo, uma máquina de cafuné e nasce uma fortaleza.
Mãe perde o medo de baratas, morcegos e aranhas. São leões famintos prontos a serem desafiados. Se atiram frente aos dragões para a segurança do filho.
A criança poderia dormir diante uma febre de 40 graus, a mãe jamais dormiria. Sempre controlando a temperatura, a tosse ou um suspiro diferente no meio da noite.
Mãe consegue induzir tranquilamente a um filho saltar no meio do oceano sem proteção, a não ser a dela, é óbvio. Filhos abraçam suas mães depois da queda e com apenas um beijo curam as dores do universo.
Filhos podem dormir em outros cômodos, em outras casas, podem estar a milhares de quilômetros de distância. Mãe sempre sabe quando alguma coisa está errada ou no mínimo desconfia que o filho comeu Mc Donalds, quando deveria comer pão integral com suco sem gelo.
Mãe sente a dor como a carne cortando quando não consegue salvar um filho das mazelas do mundo. Como numa situação de emergência, sabe ser uma equipe numa só: médico, paramédico, enfermeiro e motorista.
Somente mãe consegue cantar em sequência e sem perder o ritmo as músicas da Xuxa, galinha pintadinha, Aline Barros e Peppa Pig. Conhece as falas dos personagens nos desenhos, reconhece o Patati e Patatá pela voz, e por mais que reclame prefere assistir junto com o filho. A certeza de que em pouco tempo nada disso mais fará parte do roteiro assusta.
- E os brinquedos são seguros? As mães pensam.
Enquanto os filhos gritam enlouquecidamente para se atirarem aos brinquedos mais perigosos.
Apesar de tudo, pensam que nunca estarão completamente prontas. Desconfiam da médica, do vento ou do sono no meio da tarde. Trabalham fora, cuidam da casa, das roupas e da comida. Preparam com afeto a cama e aprendem a rezar com toda a fé que nunca tiveram. Adormecem antes do previsto, choram escondidas no banho e saem sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
Mães sempre sabem esfrangalhar o seu coração para suturar o do filho. Camuflam as suas dores com um largo sorriso, voltam a brincar de bonecas e carrinhos. Caem, se machucam, e se derretem com um beijo estalado.
A vida segue de um lado com um amor que escancara em forma miniatura, do outro uma mãe sempre exposta aos mais profundos sentidos, rigorosamente consciente do equilíbrio necessário, entre o medo e tentativa da inteireza da maternidade.


Juliana Soledade

19 de setembro de 2015

A blindagem da presidente

Trocar o discurso no desfile de sete de setembro por uma mensagem na internet foi uma das inúmeras bizarrices de nossa presidente. Não satisfeita, fechou o desfile com um muro de aço e se manteve a quilômetros de distância do povo que elegeu. Dada a palavra para início do desfile, vaias intermináveis.

Custei a acreditar que o dever cívico que sempre se vestiu de verde e amarelo, passou para a vergonha escancarada adornada de preto. Como numa via de mão dupla, perdemos o respeito e ridicularizamos uma figura pública que representa a nação. Passamos a protestar pela água, pela comida e pela dor alheia. Criminalizamos o sistema.

Após as eleições, as promessas são de aumento de impostos e serviços básicos, diferente do período eleitoral, onde o fantástico mundo de Alice no país das maravilhas parecia alcançável, hoje o cumprimento das juras são realidades pesarosas, como uma penitência violenta.

Dilma provou que a vaca pode tossir, penalizando a classe trabalhadora e diminuindo os direitos que foram garantidos por anos de luta, inclusive pelo partido militante que ela representa.

Articulações maquiavélicas contra o povo, para suprir um rombo gigantesco que beneficiou poucos escolhidos. Delações premiadas que tiranizam com capacidade intelectual de muitos.

Das três notícias da semana que assombram: a suspensão de concursos públicos, congelamento do ajuste dos servidores e a sugestão da nova CPMF, em contrapartida, carros luxuosos são substituídos no Senado. Se a esperteza é crucificada, na política é requisito obrigatório.

A moeda nacional desvalorizada, as obras do PAC são suspensas, cortes nas mil e umas bolsas do governo. A gasolina só aumenta, a bandeira continua vermelha na conta de luz, contenção no FIES e tem greve em diversos setores. É, meus caros, a travessia será longa, já que até o gás não aguentou a pressão.

Como num jogo de xadrez, os peões já caíram, cavalos, bispos e torres são derrubados lentamente, restando apenas à rainha para proteger a sua majestade. Como no tabuleiro, o rei está em xeque.

A política brasileira abandonou os conceitos de Bobbio, deixando de ser do povo, para o bolso. Enriquecimento ilícito e maracutaias ilimitadas. O melhor eu não garanto, mas o pior vem a galope.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região, do dia 19 de Setembro de 2015.

12 de setembro de 2015

Formalidades necessárias

Nasceu? Corre para registrar, e aviso, precisa do documento dos pais, e da declaração do parto. Vacinar? Leva o cartão de vacinas e prepara o remedinho, porque vai ter febre. Vai estudar? Tem fardamento, mochila, quatro fotos 3x4, uma lista imensa de materiais, e lanche saudável todo santo dia.

Ao entrar no avião a comissária informa sobre o cinto de segurança, os avisos luminosos das saídas de emergência e as máscaras de oxigênio que cairão automaticamente. No exame de sangue, o jejum. Na cozinha oriental, o sushiman, o peixe cru e o saquê. No vinho, a temperatura ideal.


Os mandamentos parecem não ter fim, começam pela bíblia e seguem no abrir de olhos toda manhã. No júri a toga e o malhete. No circo, o picadeiro. As alianças, no casamento. Para a reunião de trabalho, infindáveis protocolos. Vestido de festa combina com bolsa de mão e sapato alto com pés doloridos.


Soa estranho fazer barulho no cinema, do mesmo jeito que entrar sem pipoca. Dá pra imaginar o pódio da Fórmula 1 sem o tradicional champanhe? É como o lápis sem cor e a matemática sem a regra de três.

Até o romantismo não dispensa a sua formalidade, SMS desequilibradas e apaixonadas, juras de amor, flores em tons quentes, e beijos de novela. O juiz precisa receber a petição com “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito”, o médico precisa ser chamada de doutor sem nunca ter cursado um doutorado, assim como o juiz; antes do P e B se escreve M.

Regras para usar o milagroso gel anticelulite, para escutar sobre as reformas políticas que nunca vão existir. Um ritual para ler a revista e outro para o jornal. Um protocolo a ser cumprido nas mentiras ditas das promessas eleitorais.

A presidente cria suas regras com o português, ops, presidenta. O soldado bate continência como saudação militar. O celular tal qual cartão de débito precisa de senha e o cheque acima de cem deve ser nominal. O remédio precisa ser administrado conforme a receita.

As formalidades se esvaziam no sexo, sem por favor, obrigado ou volte sempre, sem regras, etiquetas ou requisitos. O sexo é livre. Não pera, o beijo, o carinho e gozo são obrigatórios, mas sem predefinições ou ordens delimitadas. Pelo menos aqui o céu é o limite.



Juliana Soledade




Foto: Mariana Lisboa

29 de agosto de 2015

Sobre amores

A primeira vez que o amor rangeu os dentes em minha direção eu não me movi. Era platônico, diga-se de passagem, tinha dois anos a menos que quinze. Escondia minhas paixões dentro dos cadernos, com nomes desenhados no interior de corações e olhares envergonhados. Sempre descontrolada no rubor das bochechas e os batimentos descompassados quando o moço surgia em minha direção.

Aliás, foram tantos amores secretos que começaram no colégio e invadiram o trajeto de minha existência, que ao tentar enumerar, perdi as contas. Creio que nasci mergulhada no amor, como quem enfia a cabeça inteira dentro da água sem medo de morrer afogado, é bem óbvio que eu morri afogada algumas vezes. Renascia afirmando que nunca mais amaria alguém, me enganei. Sigo fomentando amores, seja para a criação literária, seja para partilhar vivências, ou na melhor das hipóteses para declarar paz as minhas inquietudes.

Encontrei amores inesquecíveis e paixões arrebatadoras pelo caminho, fiz juras eternas em noites de lua cheia que se acabaram no raiar do dia. Já tive amores como uma vela, em que a chama durou apenas enquanto havia parafina. Já tive amores escondidos. Já dispensei a obrigatoriedade das promessas e das cartas na mesa, das alianças e formalidades.

Nada pra mim é tão apocalíptico quanto o amor. Ele é como um corpo com hormônios desequilibrados, capaz de mover montanhas, de ter comportamentos passionais, ou proteger dentro de um abraço como pérolas raras.

Esqueça esses amores eternos, infindáveis. Amor acaba e não tem nada de errado nisso. Podemos ser mutações silenciosas ou transformações barulhentas. Tudo é relativo, assim como o amor. E não, não tentem limitar o alcance da paixão, do amor ou do desejo, tudo isso está na mesma embarcação.

Quando ele se desfaz, travamos batalhas internas homéricas, remoemos rejeições, mastigamos desfeitas, engolimos uma ilusão insustentável. E o ego fica em busca de conexões significativas, lambendo as feridas sem encontrar razões ou motivos plausíveis, até encontrar o próximo e tudo começar mais uma vez.

E eu penso que deve haver alguma espécie de sentido para essa avalanche desgovernada que atinge em cheio, sem dó nem piedade o peito dos flagelados e com pouca esperança do futuro.


Deve existir um lado depois dessa camada de pele, como um universo pulsando por outra(s) vida(s), além da identidade escancarada, uma dependência da pele, do cheiro, da voz, uma explicação capaz de tranquilizar as mentes desassossegadas.


- O que virá depois do amor? – Eu pergunto dois anos a mais que vinte e cinco, para salvar a alma ou me entregar com carne e ossos ao prazer do vindouro.

Crônica produzida para o Jornal A Região, do dia 29 de Agosto de 2015.

16 de agosto de 2015

Guarda-roupa de sentir

Era criança e usava um vestido zebrado, e sorria pela alegria de saber que ele crescia junto-com, mas sem ter a menor ideia do que estava por vir. Quando o vestido virou uma blusa e se transformou num trapo, fui obrigada a deixá-lo no canto. Ainda borralheira sem prever qualquer dos passos do futuro.

Publicação realizada no Jornal A Região, em 15 de agosto de 2015
Minha fortuna não tinha cor, mas tinha cheiro. O bairro Alto Maron me ofertava tudo o que uma criança desejava ter: ladeiras para descer de patins, bicicleta ou carrinho de rolimã, uma turma animada na mesma faixa de idade, tampões dos dedos dos pés abandonados pela rua, e muitos vizinhos mal humorados que eu gostava de tiranizar. 

Vestia vestidos rodados no São João, alguns pegaram fogo na barra. Quando cresci, o fogo foi figurativo, sem vestidos rodados, ele subia nas pernas. Gostava de fogueira, de banho chuva no meio da rua e de arco-íris.

No período gestacional coloquei a barriga para tomar sol, depois a filha, por fim o avô. Esse último não merece a dor da morte, mas uma bela roupa de patchwork para continuar colorindo a vida. E fica bonito quando me apodero do amor com saudade em roupas coloridas.

Vejo minha filha crescer em roupas agradáveis, minha e dela. Por vezes um delicioso vestido de algodão, ou num pijama confortável para apresentá-la aos filmes clássicos. Não tenho produção pré-definidas para escutar músicas, ou cantarolar: do banho à festa de casamento, cada uma leva a sua necessidade.

A felicidade não se cansa de vestir branco, se estiver com um sorriso incandescente, até preto se dá bem. Encontrei o amor em duas oportunidades, estava de jeans confortável, já era amor, não precisava ter marca de calcinha. Fiz retaliações com gosto de vingança com minissaia e não me arrependo.


Escrevo admirando uma mangueira plantada por mim na meninice, sorte a minha que a empresa escolheu o local certo para ser minha, frente à cor, cheiro e sabor.  Certa de que roupas são molduras de experimentos e identificações; Paisagens é movimento; Palavras são roupagens para uma história que não para...