Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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19 de março de 2016

As estrelas vermelhas

A verdade veio a tona, vale-se lembrar que a verdade que eles negam juntos e piamente. Uma verdade comprovada e declarada aos quatro cantos do mundo. Sejam eles os grampos, as delações premiadas, os documentos de prova ou os cofres recheados de bens do ex-presidente.

Permita-me questionar se vale a desordem com o regresso? Não tão de repente, e não tão inesperado as estrelas vermelhas se juntam para celebrar o indigesto: uma marionete que sempre a favor do rei tropeçou à custa de sua proteção.
Por favor me apresente qual o brasileiro precisa simular uma ficção com tamanha realidade acontecendo no nosso país?

Entendam, a política é um jogo. O juiz Sérgio Moro apenas deu um xeque-mate, uma típica jogada de mestre. Apertou Lula, mas não o prendeu, mesmo tendo competência e possibilidades, preferiu grampear o telefone do barbudo e sepultar o mandato de Dilma. Uma jogada fantástica, o juiz assustou, prendeu os ‘amigos’, deixou apavorado, e solto o suficiente para que no seu desespero comprometesse os seus comparsas. Simples.

Quer compreender o quanto isso tem afetado as nossas vidas? Desde a prisão coercitiva de Lula o dólar que estava na casa dos R$4,10 chegou a R$3,58, a bolsa de valores teve um aumento considerável. Não importa se você quer comprar dólar ou não ou adquirir ações, importa que isso interfere diretamente no seu arroz e no seu feijão. E ele segue completamente instável com a posse de ministro suspensa. Isso é o Brasil reagindo a essa grave crise política.

Uma pesquisa realizada com 20 economistas e estrategistas mostraram que as variações das taxas de câmbio até o final do ano podem variar brutalmente, de R$2,50 a R$5,00, tudo depende da permanência da atual presidente no poder. E você daí achando que está tudo indo muito bem? Veja o preço do combustível, da energia, do mercado, da taxa de desempregos, de importações... Estamos em níveis assustadores.

O que mais assusta é que não sabemos quais são os próximos capítulos e qual o mal que isso pode ter para o coletivo. Estamos mais uma vez de pés e mãos atadas, apenas tendo o grito como uma força inimaginável. E apenas mais um favor, não use o argumento que temos o que merecemos, ninguém merece tanta sujeira, tanta corrupção. E isso independe de partido.


Política é um jogo, e Moro é um jogador espetacular.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 19 de março de 2016

17 de fevereiro de 2014

Em tempos de guerra



"E quando eu peço proteção
Não é pra fugir do ladrão
Nem pra me esconder na igreja
Eu quero é que deus nos proteja"


Confortavelmente e protegida em meu leito, mas nas ruas uma guerra fria, com sangue, fogo e selvageria. Me parece que estamos tão magoado ou envoltos de uma fúria interna tão agigantada que não nos basta apenas lamentar-se com os amigos nas redes sociais, ou protocolar uma reclamação nos órgãos responsáveis. A realidade agora se encaixa em definições terroristas.

Em um raio de 50 km, somos alvos das piores mazelas, castigados diariamente com surpreendentes noticias de fins trágicos e mínimas divulgações positivas sobre o bem comum (se é que conseguimos pensar nisso).

A implacável batalha entre supostos índios, agricultores, moradores, mortos e o derramamento contínuo de sangue, bens, impérios e trabalhadores. Os diários crimes bárbaros, seja com uma criança de 4 anos sendo assassinada brutalmente em seu leito, ou por um assaltante sendo morto em via pública por policial a paisana e populares calorosamente agradecendo pelo gesto de justiça, ou talvez, por um menino de apenas 13 anos que munido de um moto de 125 cc, furou o bloqueio de uma blitz e em perseguição, pasmem, a vida foi ceifada por uma fatalidade.

Esses são apenas três dos casos constantes presenciados, alguns se vão por drogas, outros por vaidade, outros nem sabem o motivo e de que lado se encontram nesse combate. Aos poucos, esse conflito atravessa dimensões e propõem-se estarem além do raio A ou B.

Dispomos do ódio voraz, da partilha de sentimentos negativos - e tão vingativos - que sequer estamos nos dando conta do encontro do nosso destino, um neo anarquismo descomedido, transformado o futuro primitivo, ao tentar pagar na mesma moeda.

O governo anda mal, lamentamos. As vias públicas esburacadas, queixamos. Presenciamos violência, nos recolhemos. A saúde pede socorro, entristecemos. Abandonamos de forma sucinta nossos hábitos culturais, nossos momentos na praça com um sorvete na mão. 

Com tudo isso, apenas cresce a nossa sede de vingança, com uma desconstrução moral e física. Um governo que direciona os seus holofotes para a Copa, eleições e empreendimentos internacionais e esquece: a educação castigada, saúde violentada e a segurança maltratada.

Como fingir que tudo anda bem com o Exército, Força Nacional, comando especial da Polícia Federal, Militar e Civil, helicóptero, manifestações dos meios mais violentos possíveis? 

Lulu Santos diria: "Assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade...", Renato Russo bradaria "Quem pensa por si só é livre e ser livre é coisa muito séria", Caetano Veloso, sairia "Sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo.."

Estamos numa verdadeira sociedade do medo. Alguns estão a dois passos do paraíso, nós estamos a um passo da hostilidade.

Reina-se então, a treva, e aos poucos, a ruína.

"Quem não quiser sofrer, que se isole" - Fernando Pessoa

Juliana Soledade

28 de junho de 2013

Os efeitos das manifestações

“O que querem os jovens e as multidões, com essa massa esmagadora de tantos questionamentos?”

Uma pergunta que ecoa de um milhão de vozes, que ainda faz o país implorar por resposta digna e concreta. Vemos que o gigante espreguiçou e dominou a sociedade que até então estava adormecida.

Os protestos dos anos 60/70 tem uma identidade política de esquerda, enquanto esses protestos têm uma identidade mais diluída, tanto social, quanto civil, os protestos atuais não querem ser vistos como de direita ou de esquerda, estamos contra o sistema, não há liderança aparente, não há nomes específicos, familiarizados ou não nos representando. É a voz do povo.

Desde a campanha das diretas da década 80 no século passado, não se via nada semelhante na historia do país. Na última vez em que o povo invadiu as ruas em busca da tão sonhada democracia o presidente caiu, ao rememorar esse fato percebemos que o povo tem voz, e como diria Chico Buarque na música “Roda Viva”: “A gente quer ter voz ativa/ No nosso destino mandar...”..

Percebemos que as pessoas não se sentem representadas pelas instituições democráticas, não é contra a democracia, pelo contrário, a favor desde que tenha a efetividade garantida constitucionalmente e a nossa multidão representativa é ciente que de fato nada está sendo tratado como deveria.

O que querem de fato os manifestantes? Participar? Serem ouvidos? Falar? Se fosse apenas isso, esse objetivo já teria sido conquistado, mas não, queremos muito mais, queremos influenciar diretamente, como um país dito democrático, onde a voz do povo deve ser ouvida. 25 anos de vida democrática e consciente disso é que vamos às ruas e preenchemos as lacunas existentes, seja com o nosso grito de socorro, seja com as nossas mobilizações.

Não vivemos uma guerra civil, não temos as dores do Iraque, não sofremos como a África, não estamos diante a escravidão da China ou a ditadura de Cuba, contudo estamos na opressão, principalmente quando somos obrigados a aceitar a importação seis mil médicos estrangeiros - diferente de médicos formados que estudaram em outros países e para exercer a profissão em território nacional é necessário revalidação do curso em universidade federal e não o investimento na saúde pública.

Sofremos na prepotência quando um homofóbico assume uma comissão de direitos humanos. Vemos a tirania de políticos que tentavam a aprovação da emenda constitucional (PEC-37) para justamente desconstituir o poder de investigação de uma instituição que ainda consegue atuar com independência e tão somente pela nossa luta que, por unanimidade este Projeto de Emenda Constitucional medíocre foi desestabilizado e rejeitado. Somos obrigados a aceitar a corrupção, os desmandos e tantos (des)governos.

Não podemos esquecer-nos do significado de MOVIMENTO: coisas que se mexem, que se animam, que se espalham e depois mesmo desaparecendo deixaram marcas, com valores e identidades especificas. Movimentos que trazem uma grande mudança cultural: passamos a pensar diferente, esclarecendo que não estamos apoiando o atual sistema econômico, logo não está refletindo na necessidade do nosso corpo social.
Apresentando a pequena Maria o que é democracia.

Às vezes parece ser apenas vinte centavos, mas é a chamada “cascata de informação” como bem diz os sociólogos, que se realiza quando um grupo pequeno tem uma atitude em comum e decidem se unir, nesta união tudo ganha proporções interessantes, as ações se tornam maiores, em seguida, mais pessoas acreditam nesta ‘atitude do bem’ e de repente a Avenida Paulista, como tantas outras do Brasil se tornam cobertas de pessoas buscando a tão sonhada revolução com um ‘cardápio’ de reivindicações para começar a mudar um país que por vezes se mostra engessado.

A partir de uma tarifa, um pequeno aumento, desvendou os brasileiros e mostra dia após dia que está tudo errado no sistema, a tarifa é apenas um símbolo... Apesar de uma questão ínfima tornou-se imã para os tantos problemas existentes, as questões individuais que se tornaram um corpo e hoje tem voz para somar ao coro.

Essa onda de manifestações que varrem o país quebra o silêncio que ficou insuportável para uma parcela expressiva da população e o alcance da manifestação prova que o mundo virtual é o mundo real e esta sendo escrita uma nova página da nossa história.

Existe um tipo de liderança, diferente da tradicional, a de hoje está diretamente ligada na tecnologia. ‘As lideranças’ são aquelas que tomam iniciativa virtual para os movimentos que é muito mais complexa do que os movimentos anteriores. Da mesma forma que a mídia é muito mais complexa do que em movimentos que já aconteceram. Sem bandeiras nas manifestações, os jovens não querem representações partidárias.

Com a acessibilidade para as redes sociais e a difusão de informações com rapidez, temos uma grande quantidade de pessoas que aderem com facilidade, facilitando taticamente a ação dos manifestantes, entretanto, é importante frisar que nenhuma manifestação ocorre por causa das redes sociais, mas ela difunde e propaga as informações.

Não podemos deixar de enxergar os excessos, existem de ambos os lados e vem encontrando resistência naqueles que defendem o caráter pacifico das manifestações, por vezes prejudicando àqueles ‘do bem’.

A multidão se volta para uma grande demonstração de democracia e é nas ruas que vemos a força de expressão do coletivo, também está à ação de alguns grupos mais violentos, mas eles são minoria e não representam a grande massa unida em busca da mudança.

Pensando de maneira prática e objetiva, o movimento já deu certo, a pressão funcionou. Os aumentos foram revogados e outras cidades se comprometeram a essa decisão, só que as nossas reivindicações ultrapassam os aumentos tarifários do transporte, e, justamente neste outros temas é que batalha está travada e demorara até termos uma resposta à altura, porque os cinco pactos anunciados pela nossa presidenta são apenas um ‘cala-a-boca’ para a sociedade brasileira e a reforma constitucional é apenas mais uma manobra política, onde muitos juristas renomados já se posicionaram contra a partir de tantas divergências após o anúncio.

Pois o que queremos afinal são mudanças que atinja a estrutura em longo prazo: mudanças que sejam econômicas, politicas, jurídica, entre tantas outras necessárias.

Não deixemos de lembrar que ano vindouro teremos a copa do mundo, ano politico, e no balanço não podemos ignorar o peso dessa multidão que clama o hino nacional, deixando de permanecer “deitado eternamente em berço esplêndido” e mostrando que “um filho teu não foge à luta”, insistindo na prática das palavras de ordem e progresso de nossa bandeira.

Juliana Soledade