Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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6 de outubro de 2016

Doce amor


Ainda bem pequena, aprendi a me calar para ouvir o outro, sobretudo quando se trata das pessoas ‘mais velhas’; cresci com senhor ou senhora para os pronomes de tratamento; sigo pedindo desculpas com facilidade, assim como por favor, e obrigado. Tenho uma dificuldade absurda em desejar bom dia mecanicamente e me faz mal ser reprimida em casos de esquecimentos. Não que eu não desejo, descarto a obrigatoriedade, apenas.

Certa vez vi um casal de velhinhos sentados num trem em um diálogo animador.  Se o destino me levou naquele dia até aquele lugar e me pôs a sentar preferencialmente ao lado desse casal, é realmente momento de abrir o coração para escutar com outros sentidos. Ele dizia que quando experimentamos o amor nos tornamos eternos, porque abandonamos o esquecimento, para e com o outro. O papo descontraído não parou por aí, seguiram conceituando a solidez no amor e a salvação que somente ele é capaz de alcançar.

Seguimos viagem, ele como se tivesse em posse de uma ementa, seguindo seu apontamento no mesmo tema. A minha posse era de uma memória por vezes falha, assim segui anotando suas observações quase sempre metafóricas e a cada comparação meu coração palpitava de alegria. Tenho certeza que engrandeço com o sentido figurado de coisas óbvias.

Atravessamos um vilarejo, ele apontava delicadamente para uma saia rodada e comprida numa vitrine, para em seguida afirmar que a essência de que todo o sentimento só é bem arrematado se estiver costurado na bainha do amor. Afirmou que o trem só havia partido com os dois de mãos dadas, porque ambos se elegeram para a longa travessia. A grande maioria daqueles que sofrem de paixão se abandonam nas primeiras paradas. A paixão é pragmática. O amor é uma consagração com absurda dedicação sem limite à condição de tempo. Falava no seu tempo, com respirações profundas e delicadas. A sua companheira fitava-o concentradamente.

A história é calçada em amores rendidos, como Penélope aguardou o seu Ulisses, fiel e sempre inteira, cuja sua beleza só não era maior do que o seu caráter. Do cavaleiro Tristão e a Rainha Isolda, a união do amor para além da alegria. Afinal, o amor sentido é isso: o pacto de laços para depois da felicidade.

Mas tem Drummond que torrencialmente chega falando de amor - ou paixão? -, do riso ao pranto, do imortal somente enquanto durar, no contentamento e no pesar. Na chama que [pode] se apagar. Um amor agitado, inquieto, com características de paixão: ardente. E os gloriosos poetas sempre aclamando que quanto menos correspondido, mais sentido. Amores verdadeiramente reais ou inventados, qual a diferença se nos fizer bem? Foi assim para o deleite do amor platônico de Dante e Beatriz. Foram assim para as ilusões de nosso primeiro e vigésimo amor. Se formos lembrados amorosamente e permitir lembrar-se de alguém do mesmo modo, qual o problema?

Não perguntei-lhes o nome, não procurei saber idade, de onde vinham e para qual o destino seguinte. Acompanhei com os olhos a cruzar o portão de desembarque, acenei mentalmente um adeus, um muito obrigado e um amor alinhavado com fios de ouro. E por fim me agradeci por saber calar, por saber ouvir.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 08 de Outubro de 2016.


Foto: Créditos da foto

17 de abril de 2016

Para Vovô 2

Vô,

Eu sei que já prometi que não escreveria mais cartas, até afirmei isso publicamente para tentar frear esses desejos instintivos dessa humilde escritora. Estou sendo falha, conscientemente falha, me perdoe.

Hoje talvez seja véspera de outro dia qualquer, eu fico daqui amuada entre o meu quarto escuro e as cobertas, escutando a chuva fina que delicadamente cai do céu, e ao mesmo tempo buscando produzir conexões lógicas e não-verbais, acalentado o espaço e a distancia que temos um do outro (se é que elas existem), com as lembranças que me restaram. O silêncio é sempre um fiel aliado para essas possíveis conexões. Te sinto perto, e isso me acalma.

Tenho saudades, principalmente quando chamava de meu avô, com um pronome possessivo que fazia toda a diferença, quem sabe esse fosse o motivo que te chamar milhões de vezes por dia, o fato de saber que poderia ser meu avô, ou meu amor... Saudade também daquele que não sabia me julgar, mas sabia me compreender; que não se afastava, mas que amava, até o seu ultimo suspiro. E creio que essa tenha sido a verdade mais linda: a do amor exposto, entregue, mas nunca vulnerável. Eu tinha certeza do seu amor.

Com aquele olho que enxergava me permitia viajar por aventuras incríveis, desde as corretas até as necessárias, tinha sempre o olhar de encorajamento para mim, e eu nunca fui reprimida. Aprendi com os erros, mas sabia que ao fim de cada um deles poderia me
jogar no seu colo, porque a cada arranhão doloroso, estava ali sentado em sua cadeira vermelha para me escutar, acolher, e amar.

Hoje vovô, entre tristeza e felicidade (porque elas são sensações autônomas e coexistem entre si), relembro quando não permitia que os meus amigos, por mais próximos que fossem te chamasse de avô. Briguenta e carente tomava posse todos os dias da missão de ser sua neta na sua vida. Ciumenta e possessiva desse amor, desde sempre.

Eu sei que Deus não nos trata como um brinquedo que, quando envelhecido ou com a sua utilidade limitada será descartado e outro será posto em seu lugar. Eu sei que esse mistério da morte representa muito mais do que sabemos ou cremos. É um mistério que somente a fé, intensa e significativa, pode serenar quem fica, mas nunca explicar. A fé não explica a razão.

As nossas fotografias revelam motivos que não cabem nos conceitos das palavras. É como se fosse a ponta do cordão que amarra as nossas vidas, e sustenta todo o sentido [e sentimento] do amor.

A minha dor é floreada de saudade é um território santo. E aqui, assim como Moisés ouviu de Deus “Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa”. Para reviver todos os anos convividos ao seu lado é preciso desnudar o presente e embarcar com ternura ao passado.

Sempre com amor,

Sua neta.


Itabuna, 17 de abril de 2016.

2 de abril de 2016

Nós dois

A maioria dos casais não escolhe namorar quando se conhece, tampouco já dá o primeiro beijo pensando nos filhos resultantes daquele ato, ou depois da primeira conversa sai anunciando o pretendente como o marido/esposa até o fim dos dias.

Começamos a intuir que aquele investimento vai dar certo quando os sorrisos se entrelaçam numa conversa séria, quando os abraços são os mais desejados no meio de uma multidão, quando percebemos a frequência que os pés se unem à noite, quando temos prioridade em ser o primeiro "bom dia" e último "boa noite". A vida começa a ficar mais alegre, isso é fato.

Por mais que tivéssemos ambos saído de relacionamentos afirmando que passaríamos um longo período na estiagem, que daríamos um tempo desses namoros superficiais, que não queríamos tentar novamente ‘por agora’. Aí pimba!, acontece e pronto, as juras de solteirice caem por terra. Você já vai acordar pensando no príncipe que deveria ter chegado a cavalo, mas que chegou apenas com um olhar e para você está de bom tamanho.

É sempre muito curioso quando começam as apresentações desajeitadas sobre o novo ‘affair’: a mãe sempre diz que é para cuidar bem do bom rapaz; o pai sempre olha atravessado para a paixão da filha; a vizinha da avó fica agoniada para visitar a amiga e conhecer garota que chegou de mãos dadas; e se tiverem filhos de relacionamentos anteriores, é preciso sempre uma dose de cautela e cuidado, afinal o que antes era exclusivo passará a ser ‘dividido’. Mas a convivência se encarrega de mostrar que cada um tem o seu lugar organizado: o namorado da mamãe não chegou para substituir ninguém, e vice-versa.

O melhor de tudo é crer que, para o amor, assim como para a felicidade, não é preciso plateia, que a vida segue o seu curso normal sem tantas satisfações ao universo. Porque num mundo onde tudo é absurdamente virtual, faz bem viver esse amor de verdade, livres dos grilhões do destino.

No fundo, apesar das mutações afetivas do novo século, um relacionamento é acreditar que todos os mil parafusos serão ajustados ao longo da convivência, que teremos o colo para acolher, e uma história incrível para acreditar, apostar e viver como se fosse a última.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 02 de Abril de 2016

6 de fevereiro de 2016

Carnaval


- Que dia você vai para Salvador?


- Amanhã, às cinco e meia da manhã.

Logo após das despedidas ao pé do portão, disparei um mensagem “mesmo sabendo que amanhã você vai estar na maior festa popular do mundo sem mim, vá e aproveite. Você tem idade e maturidade para isso. Talvez seja confiança, talvez seja tranquilidade de quem não se esquenta com besteira”.

Foto: Submerso SUP Dive
Após o segundo casamento compreendi que não se faz necessário a insegurança em um relacionamento por menor ou maior que seja. A lição apareceu na primeira união, mas não fui capaz de aprender, e como aqueles meninos que precisam repetir a série na escola, o aprendizado só foi digerido no segundo matrimônio.

Afirmo todos os dias ao acordar: somos sujeitos livre para voar, e condicionado para voltar. Nossas asas podem nos levar para qualquer lugar, às vezes armadilha, às vezes salvação. Essa escolha é somente nossa.

Aprendi errando que o respeito é o pilar de todos os sentimentos, é a base. O começo, o meio e o fim. O amor não se sustenta sem ele, é como se dependesse diretamente deste arcabouço, que aparentemente simples, é o desenho de toda estrutura.

Não quero senhas, cifrões, ou satisfações. Não credite em mim esperança em cobranças desnecessárias, dolorosamente aprendi que quanto menos cobrança mais leve a vida se torna. Isso se chama confiança, em mim e no outro.

Não quero viver em prisões de redes sociais, em euforia para o mundo, entre beijos apaixonados com plateia. Demorou, mas a maturidade chegou dizendo bem baixinho no ouvido que o maior prazer da existência é o silêncio de alguns momentos.

No final das contas, é fácil entender que uma festa é apenas mais uma festa, que a farra com os amigos é um momento indispensável, e que a vida do outro é tão livre quanto a nossa. Que matar a sede hoje nem sempre significa que temos água fresca para beber no dia seguinte.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A região, publicada no dia 06 de Fevereiro de 2016.

30 de janeiro de 2016

O que eu posso oferecer

Não posso te oferecer uma casa de três andares, 28 quartos ou uma piscina imensa na entrada da casa. Não tenho uma jacuzzi, ou um bondinho para ir ao píer. Não tenho uma luneta para tentar localizar a água de marte. Não tenho uma casa na árvore ou uma área de lazer do tamanho do maracanã.

Admito que estou terminando de arrumar a casa, com as loucas e taças impecavelmente limpas, roupas de cama e de banho alvejadas, passadas e devidamente guardadas, tirando as teias de aranha escondidas, limpando lustres, rejuntes e lustrando móveis. Fazendo mil e uma anotações para comprar aquilo que ainda falta, para repor o que possivelmente vai acabar e guardando o amor dentro de cada um dos potinhos que tenho na cozinha para ofertar em cada uma das refeições.

Eu ofereço uma casa confortável, com o amor nos travesseiros, nos lençóis delicadamente esticados, no cheiro de âmbar que passeia entre os cômodos. Eu ofereço minha agenda reservada, minha atenção exclusiva e o meu cafuné. Vou poder oferecer o melhor que posso ser: a minha felicidade estampada, e o celular no canto no quarto.

Estou feliz por saber que irei acolher aqui quem luta por mim, saber que depois vou lavar e guardar as taças, as louças, as toalhas e lençóis com o sorriso de orelha a orelha, tendo certeza que brindei com quem amo e se realizou junto comigo, com quem deixou a sua cama quentinha para dormir na minha, com quem percorreu muitos quilômetros para dividir um teto, os sapatos e a minha vitória.

Garanto um largo sorriso ao encontrar com cada um no aeroporto ou rodoviária. Eu garanto o conforto de um amor seguro, sadio. Garanto risos de doer à barriga, abraços de faltar ar. Garanto uma mesa de café da manhã cheia de gostosuras, com certeza de que o bom dia será têt-a-têt. E garanto uma porção de brindes com as pessoas que me fazem mais forte, mais mulher, mais humana.

Talvez não seja muito, mas garanto uma parte generosa do meu coração, do meu humor, de uma vontade descomedida de ser feliz na vida, e o mais óbvio de tudo, de partilhar isso  com os escolhidos.

Juliana Soledade

19 de dezembro de 2015

Dezembro

Faz quase seis anos que eu comecei a aprender a lidar com a morte. Foi traumático, doloroso, triste... E ainda me sinto uma menininha medrosa quando vejo ela se aproximar. Seja de mim, seja de alguém próximo. Nessa vida tão efêmera, tão instantânea e passageira.

Um amigo alcançou a cura pelo câncer, outro dia, recebi a notícia e chorei de alegria por saber que a vida lhe brindou com um recomeço incrível ao lado de sua esposa gestante de gêmeos. Uma vitória emocionada, dele pela força e garra de não se deixar fraquejar em nenhum momento do tratamento, mesmo com as reações comuns que são esperadas, o sorriso no rosto era o bálsamo para a família e amigos enquanto passava longas horas quinzenais na clínica sendo medicado. E por ele, um casal de bebês anunciando a vida nova. Para ele, um brinde na existência.

Em junho consolei uma amiga pela perda precoce de seu marido, vítima de um câncer violento e desleal. Lutou feito gente grande, recebeu todos os cuidados possíveis, desde o amor em doses cavalares até os cuidados médicos em todos os seus estágios. Seu coração pedia a salvação e ver seu filho crescer, sua cabeça disse que não, e nessa guerra injusta a morte venceu.

Não espere o fim para o abraço demorado, a ligação cheia de saudades, para entregar o presente prometido. Não aguarde a doença para demonstrar preocupação, ou o caixão para declarar amor. “Tudo passa tomando chá ou cachaça”, assim cantava Cassia Eller.

Vivemos numa intensa viagem sem bússola nas mãos, desafiando o tempo, nos entregando em nossos sonhos, buscando coragem a cada passo. Anunciando fins e recomeços. Costurando memórias numa bela colcha de retalhos, e recorrendo a ela infindáveis vezes para buscar as famosas lembranças.

Já percebeu como o ano passou rápido? Não espere o espírito natalino para o perdão, ou para ajudar aquela instituição de caridade, isso só traz um alivio na consciência para começar o ano em paz e esquecer-se de quem precisa o resto do ano.

Natal traz abraço sem vontade, roupa nova na sala e gastos desnecessários. Traz sorrisos amarelos e famílias perfeitas como comercial de margarina. Traz cartinhas de crianças implorando que os seus sonhos sejam realizados, sem saber o verdadeiro sentido de natal.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 19 de Dezembro de 2015.

15 de novembro de 2015

Desamor


Foi-se o tempo me que eu me entregava ao amor com as vistas vendadas. Quando mais nova eu tinha o romantismo como uma religião. Fechava os olhos e sonhava acordada com amor sendo devolvido na mesma proporção. Sentia o frio na barriga toda vez que o moço se dirigia a mim. Creditava bilhetes românticos no meio da agenda e dos bolsos.
Já aconteceu de acreditar em filmes de amor. Já aconteceu de acreditar em pedidos de namoros, de imaginar casamentos para a vida inteira. Já aconteceu de pensar que as pessoas lutariam por quem se ama. Já aconteceu de pensar que as pessoas não seriam dispensadas sumariamente quando nos magoassem. Já aconteceu de esperar um perdão despido de mentiras.
Já acreditei na leveza das flores perfumadas, de alianças e de mãos dadas. Já acreditei no ‘eu te amo’ sincero, em juras eternas e em promessas memoráveis. Antes eu pensava que as pessoas se amavam e se casavam por afinidade, por desejo, por escolha e não por carência, pela expectativa do prazer, ou pelo interesse. Os critérios de triagem estão em desequilibro. Eu já pensei que as pessoas faziam o bem se esperar muita coisa em troca, nada além de um obrigado.
Quando lia texto de amor eu sempre acreditava que tinha um grande romance incentivando tudo isso. Depois eu descobri que as pessoas que mais falam de amor são as mais carentes, as mais solitárias, as mais necessitadas de afeto. Ok, sempre tem exceção às regras.
O romantismo está cafona, o amor está brega. Olhos nos olhos só nas músicas. Declarações estão levianas. Entrega de corpo e alma sem rede social é quase nula. O amor é banalizado. As agendas estão lotadas. E o individualismo é um mal que assola.

A vida de repente nos desperta e petrifica o coração.  Eu não sei se já fui boba o suficiente, ou se me falta amor. Estamos cada vez mais ocupados com nós mesmos, com nossas vontades, com o nosso mundo particular tão cheio de si.  Tornamo-nos solitários, presos em nossas redes sociais. Antes somente o bate-papo da uol era inofensivo nos relacionamentos, hoje temos dezenas de redes que nos tornamos obrigados a seguir e dar satisfação. Não conseguimos desligar celulares ao deitar, e nem usamos mais relógio com despertador. E a felicidade se limita apenas a registros deslumbrantes para o mundo ver.

Juliana Soledade

29 de agosto de 2015

Sobre amores

A primeira vez que o amor rangeu os dentes em minha direção eu não me movi. Era platônico, diga-se de passagem, tinha dois anos a menos que quinze. Escondia minhas paixões dentro dos cadernos, com nomes desenhados no interior de corações e olhares envergonhados. Sempre descontrolada no rubor das bochechas e os batimentos descompassados quando o moço surgia em minha direção.

Aliás, foram tantos amores secretos que começaram no colégio e invadiram o trajeto de minha existência, que ao tentar enumerar, perdi as contas. Creio que nasci mergulhada no amor, como quem enfia a cabeça inteira dentro da água sem medo de morrer afogado, é bem óbvio que eu morri afogada algumas vezes. Renascia afirmando que nunca mais amaria alguém, me enganei. Sigo fomentando amores, seja para a criação literária, seja para partilhar vivências, ou na melhor das hipóteses para declarar paz as minhas inquietudes.

Encontrei amores inesquecíveis e paixões arrebatadoras pelo caminho, fiz juras eternas em noites de lua cheia que se acabaram no raiar do dia. Já tive amores como uma vela, em que a chama durou apenas enquanto havia parafina. Já tive amores escondidos. Já dispensei a obrigatoriedade das promessas e das cartas na mesa, das alianças e formalidades.

Nada pra mim é tão apocalíptico quanto o amor. Ele é como um corpo com hormônios desequilibrados, capaz de mover montanhas, de ter comportamentos passionais, ou proteger dentro de um abraço como pérolas raras.

Esqueça esses amores eternos, infindáveis. Amor acaba e não tem nada de errado nisso. Podemos ser mutações silenciosas ou transformações barulhentas. Tudo é relativo, assim como o amor. E não, não tentem limitar o alcance da paixão, do amor ou do desejo, tudo isso está na mesma embarcação.

Quando ele se desfaz, travamos batalhas internas homéricas, remoemos rejeições, mastigamos desfeitas, engolimos uma ilusão insustentável. E o ego fica em busca de conexões significativas, lambendo as feridas sem encontrar razões ou motivos plausíveis, até encontrar o próximo e tudo começar mais uma vez.

E eu penso que deve haver alguma espécie de sentido para essa avalanche desgovernada que atinge em cheio, sem dó nem piedade o peito dos flagelados e com pouca esperança do futuro.


Deve existir um lado depois dessa camada de pele, como um universo pulsando por outra(s) vida(s), além da identidade escancarada, uma dependência da pele, do cheiro, da voz, uma explicação capaz de tranquilizar as mentes desassossegadas.


- O que virá depois do amor? – Eu pergunto dois anos a mais que vinte e cinco, para salvar a alma ou me entregar com carne e ossos ao prazer do vindouro.

Crônica produzida para o Jornal A Região, do dia 29 de Agosto de 2015.

13 de agosto de 2015

Uma carta para mim mesma 10 anos atrás

Olá, Jú,


Sou eu, ou melhor, sou você lá na frente. As palavras a seguir causarão estranhezas enormes na sua cabecinha, uma dose absurda de descrença e uma frase com exagero deboche “quem você pensa que é?”. Mas recebi o direito de promover todas essas sensações em você, e muito embora as próximas linhas assemelhem-se com profecias, estão longe de sê-las, são apenas verdades.

Um acontecimento incrível irá mudar TODA a sua trajetória de vida. Você sentirá dor e desconfortos absurdos, mas conseguirá amar mais do que a você mesma. Aprenda a partir de agora que a dor pode ser boa, você carregará essa frase por muito tempo. Isso tudo apenas para que compreenda que as voltas dadas pelo mundo são tão somente para desnudá-la de corpo e alma, para si e para o restante do universo.

As suas crenças e certezas serão colocadas à prova. Mas o amor será a primeira redenção e a última cura. Não se engane com esse corpo franzino, você ganhará formas de todos os jeitos, formas inclusive na fortaleza que parece ser tão escondida. O resultado disto? Você dará vida a sua vida e a tantas outras. E só lhe digo isto porque vi acontecer...

Uma breve introdução para absorver com mais clareza o que vem a seguir:

Nos próximos 10 anos:             

Nesse momento, você está em imersa em dúvidas. Uma delas é com o amor real que te bateu na porta. A essa altura já percebeu que todos os outros foram amores platônicos, e não passaram disso. A segunda grande dúvida é como ser mulher e abandonar o corpo e desejos de menina, esta dúvida infelizmente será desvendada rapidamente. Não é preciso ser vidente para saber que você se jogaria de cabeça nesta relação, você nasceu intensa, vibrante.

Quando você pensar em atirar esse amor arrebatador para o alto, compreenderá que não vai poder. Enigmaticamente descobrirá que um ser está dentro do seu, e sim, você só tem 17 anos. Receberá propostas indecorosas para jogar essa vida para fora, mas será forte o suficiente para começar a amar desde o teste de gravidez.

A parte ruim é que o amor não era tão real assim, e ao passar dos anos você terá que assumir as duas funções: mãe e pai, mas lembra de quando eu falei da fortaleza que seria? Então, começa aqui! Vejo-te como uma mãe valente e feroz, no entanto, uma mãe tão doce quanto o mel e que saberá despejar doses absurdas de amor diariamente.

Forte não será apenas o seu ponto chave, também será decidida, isso soará como um sobrenome. Sim, abandonar um grande amor te fará desprendida de energias ruins e dores desnecessárias, possibilitando que outras pessoas sejam felizes nessa história. Nessa questão você entenderá que muitas vezes o pior e o melhor caminham lado a lado de mãos dadas.

Você se casará pouco tempo depois, como sempre sonhou: véu, grinalda, alianças decoradas e muito sonho no altar. Entretanto você casou beira-mar, menina, tenho certeza que as ondas levarão para bem longe tudo aquilo que você não merece. Mais uma vez eu lhe afirmo, você será forte, e embora pareça frágil, saberá que tem uma armadura de aço te protegendo.

Juliana, eu ainda vejo como uma menina, tão cheia de responsabilidades e medos, mas por que carga d’aguas pediu para vir ao mundo com emoção? Não adianta reclamar, eu ainda não parei. Preferi andar acompanhando juntamente com a sua intensidade seus anseios e coragens. Confesso que estou assustada, porém tranquila em saber que às vezes consegue ter boas decisões.

O mais bonito que eu vejo é esse amor que você esparrama, acontece que, lançará sem medo e acaba se machucando quando percebe que ele não é devolvido. O choro será seu amigo, queria dizer para não chorar por tudo, mas é sua natureza, se a felicidade atinge em cheio, terá lágrimas cristalinas com um sorriso incandescente, todavia a mágoa e tristeza também provocarão soluços com nariz entupido.

Um grande amor abandonará esse plano, e mesmo sabendo que isso pode acontecer a qualquer momento, você não irá aceitar, por isso vai sofrer mais do que o previsto. O pior é que essas dores se arrastarão até os dias de hoje. A terapia vai aliviar seu coração. Sim, não deixe de fazer terapia.

Você vai conhecer amores i-nes-que-cí-veis, mas se arrependerá de ter conhecido a grande maioria. Outros dois você viverá de memórias, lembranças e gratidão; Você vai conhecer a morte de perto; Aprenderá a ter medo de médicos, injeções e hospitais, isso medo dos grandes; Vai passar por alguns renascimentos nesses 10 anos, e lhe digo que embora ainda esteja escrevendo como uma menina, todos dirão que cresceu.

Vai acumular pontos, tanto no cartão de crédito quanto no corpo; Vai conhecer diversos estados e culturas; Vai inventar desculpas para viajar, justamente por descobrir a sua própria companhia é imbatível; Vai conhecer um punhado de gente bacana nestas viagens; Vai se apaixonar por Chico Buarque. Eu sei que quer conhecer o carnaval de Salvador, será apenas um sonho dissipado em pouco tempo. Aprenderá a ter medo de multidão e carnaval não é um bom plano.

Conhecerá o estudo por outro cenário, será uma das suas grandes paixões. Acumulará diversos cursos distintos, dando desculpas a cada um deles; Se arrependerá de ter queimado o primeiro livro, mas isso será o impulso para escrever outros três. Isso vai te fazer ainda mais forte.

Por fim, estou aqui na frente tentando fazer entender que as expectativas, gargalhadas e sexo não são requisitos para uma vida perfeita. Esqueça um pouco o passado, lembranças ao excesso embaçam o presente.  

Mas eu sei que quer ter certeza sobre o futuro, definitivamente fique tranquila. A vida te reserva muito mais do que pode imaginar: frio na barriga, coração disparado e uma avalanche de emoções como um livro de Rubem Fonseca [você também vai se apaixonar por esse autor!].

Te espero cá na frente, acompanhada de histórias surpreendentes.

Dois beijos,


9 de agosto de 2015

É Agosto


No final da década de 80 Papai tinha bigodes horríveis (e eu tinha certeza que ele roçava na barriga de minha mãe), eu nasci tendo que encarar esse rosto mimoso com um tufo imenso abaixo do nariz, ainda quando pequena ele insistia em aparar e manter aquela poluição facial, hoje rimos da modinha e das fotos épicas.

Painho sempre foi esbelto e distante, fala mais com os olhos e o corpo do que com a boca. Painho tem rodeios, mas também tem braços que acolhem e carinhos que acalentam. Ele sabe quando é hora ficar, sobretudo a hora de partir.

Eu invadi a sua vida sem pedir licença por duas vezes, a primeira foi no meu nascimento, a segunda no seu renascimento, uma pessoa-amor que me olhou com os dois olhos e com um coração que não tem tamanho de tão grande. Painho deu-me sobrenome referência, e uma família apaixonante. Painho me oferece os pés no chão a cada bate-papo e a confiança de voar em outras órbitas. Ele escuta Caetano Veloso enquanto eu me viro às avessas com Chico Buarque.

Poderia listar que somos tão parecidos como tanta gente diz, mas na verdade somos o elo com um acerte interessante. Esse paralelo é óbvio apenas porque aprendemos a caminhar no mesmo passo e compasso sem nunca ter levantado as guardas, ou ter declarado guerra.

Engana-se quem pensa que é preciso ter bases sólidas para desempenhar tão bem este personagem, ele, sem pai até no registro, soube desenvolver com maestria, alçado na escola da vida, entre pedras e tropeços, chegando ao auge com a catequização inicial da própria neta que tem como uma filha.

Eu nunca aprendi a confiar em meu pai. Eu nasci confiando, quando pequena eu chegava em casa arrebentada e ele cuidava dos machucados, depois do banho pedia que ele enxugasse as feridas. Depois de grande ele repetiu nos tantos cortes cirúrgicos, e soube cuidar melhor do que qualquer enfermeiro graduado, Bob como é chamado, tem delicadeza. A confiança apenas dilatou com o passar dos anos. Quem diria que seriamos sócios-amigos-cúmplices-parceiros de jornada? Bem, ninguém diria.

A delicadeza da vida se revela quando ele sabe fazer o papel ofertado, compartilhando afetos e referências, vibrando junto-com e alimentando sentimentos. Ele mostrou que pode ser pai, e me ensinou a ter a fortaleza de um pai. Mas eu acho mesmo que meu coração já batia por ele desde quando eu nadava na barriga de minha mãe.

Meu pai me ensinou - e ensina - que "A história fala dos heróis, a história fala dos vilões; a história só não fala dos omissos”. Eu tento aprender as lições nas entrelinhas.

Do alto, apenas gratidão! E um desejo de que o exercício da paternidade seja todos os dias a todos os pais. 

20 de julho de 2015

Desejo, carne e fogo


Ele não gosta da chuva, é verdade. Mas quando era ela que estava ao lado ele não tinha medo nem dos dragões de Game of Thrones. Ela tinha a segurança que ele tanto buscava, tinha o tiro de pistola automática no meio do alvo. Tinha o olhar de águia e a leveza. Bom, e ele era o homem mais disposto a enfrentar os leões e o encantamento para dançar suavemente no vão de entrada de um restaurante sem vergonha e sem discrição. Mal sabiam que música tocava, no entanto, o primeiro rodopio anunciou que bailariam unidos como um, e que os próximos minutos não seria nada daquilo que ela estava planejando. Inclusive de um delicioso banho de garoa com uma plateia curiosa.

Da chuva, o derramamento de desejo, carne e fogo.

29 de junho de 2015

Dobrinhas




Ele me disse no ouvido "suas dobrinhas são lindas", eu tinha vergonha de cada uma delas, quem não teria no meu lugar? O mais bonito a ser escutado ainda estava por vir, completou dizendo "mais lindas do que qualquer curva que exista por aí". Foi como ter em mãos um "Green card", agora sim ele tinha passagem livre no meu coração, na minha vida e capaz até dos meus pensamentos. Eu durante todo esse tempo só queria me sentir segura nos braços de quem amava. E sim, me sinto segura, me sinto amada.

Sexta-feira santa

De repente começou a caminhar leve e foi na direção dela. Encarava com os olhos quase sorrindo, um gesto de expressão malicioso. Encarou-o também, quase sorrindo também, com vergonha, mas com entrega. Ele usava uma calça jeans desbotada e camisa branca, uma cara de ladrão de coração alheio. Olhava de baixo para cima, encarava na cintura até os ombros. Sacudia levemente a cabeça a encarando cada vez mais, e cada vez mais perto.

Tinha partículas de suor no corpo da moça. Aliás, todos ali estavam suados, mas não conseguia enxergar ninguém além dele. Poderia até ter visto antes, mas não sabia onde. Ela já caminhou por muitos lugares, ele parecia também já ter caminhado por muitos lugares. Não havia lugares, estavam no lugar. Havia um movimento incontestável, e instigante, os lábios se mexiam como um convite, os braços como um abraço a envolvê-la.  E chegando cada vez mais perto, morno.

A sua mão máscula pressionou o ombro. A delicada mão apertou sua cintura. Os seus olhos encararam dos pés a cabeça, percebeu os cabelos molhados, o decote generoso, os quadris por baixo do vestido, os pés mal acomodados no sapato de salto, levantou a cabeça e cravou seu sorriso próximo do dela. Também suado, lambuzou a sua mão no rosto, ela fez o mesmo, estendeu a mão aberta e alisou o rosto dele, disse qualquer coisa que ele não entendeu. Quando questionada, disse com todas as letras: “você é gostoso!”. Era apenas um corpo sedento por outro corpo.

“quero você”, ele disse. Ela retrucou que queria naquele momento, “agora”. O sorriso foi ainda mais largo. Agarrou a sua cintura fina, carregou para um lugar mais reservado e com a boca entreaberta se aproximou e não se importando com quem estava presente, se beijaram como dois carentes. Apesar de não se conhecerem, se agarraram como dois famintos.

A língua dele lambou o pescoço, a língua dela invadiu o ouvido dele, depois se encontraram encharcadas. Tiraram as roupas um do outro e mal tiveram tempo para admirar o físico audacioso. Apertaram um contra o outro, pareciam metades perdidas que se encontraram. Tudo tão bem encaixado. Tão conexo. Não deu para rolar na cama ou na areia, o espaço era limitado, o espaço era apenas provocar ainda mais prazer. Do prazer até explodir em êxtase e para novamente não saber se já se conheciam. 


9 de junho de 2015

Passaporte

Encontrei aquele homem que me fez perder a noção de quem sou, do que estava fazendo e onde estava. Achei tudo tão incrível, essa é a parte boa, mas a pior arte mesmo é que deixei de ser dona de mim mesma.

Ele é o meu passaporte para a felicidade. Os seus olhos sempre ditava o próximo e mais constante destino: os seus lábios molhados. Sabia sussurrar com a sua respiração ofegante em meu pescoço, tilintando minhas ações como um encanto: os beijos sedentos pelo corpo, minhas mãos correndo por sua pele macia, meu sexo que se transforma em nosso sexo e um prazer violento e derradeiro sobre nós.

Eu perdi a razão, as rédeas e a consciência, em contrapartida me lancei nos meus desejos, anseios e vontades que me guardavam até os meus trinta e poucos anos de vida. Ele é aquele bilhete premiado da loteria, quando penso nos abraços no meio da chuva consigo sorrir sozinha com a conta bancária em vermelho, esqueço que segunda-feira ainda é o dia mais chato da semana, e abraço o chefe como meu melhor amigo.

Ele me faz contar borboletas na barriga quando diz que vamos nos encontrar no final do dia. Possuidor de um sex appeal indescritível me fez ver estrelas cadentes quando me trancou num quarto, seus olhos reluzentes como chama me tragou como o melhor dos cigarros, embebedou de mel e voraz se despertou para mim.


E eu sei que ao ver naquela calça jeans com a camisa branca minha respiração vai ofegar novamente, e todas as últimas vezes sempre vão parecer com a primeira. Nosso perfume sempre parece o mesmo, o de amor exalado, que mistura com a pegada no cabelo, a mordida na orelha e o beijo estalado. Uma viagem extraordinária para o horizonte só nosso...

5 de junho de 2015

23 de abril de 2015

Desatino

Meu Querido Don Juan,

Vivemos em reinos e irmandades proibidas, contracenando em vidas que não nossas. Sou o transbordamento de minhas confusões e preciso que ajude a definir a cor da minha pele, o gosto do meu sorriso, o sabor do meu suor, as minhas características tão abandonadas.

Você é a minha primavera colorida que dissipou o invernou sombrio, e apagou o fogaréu do infernal mundo de Dante. Agora é hora de reconstruirmos a nossas vidas. Quero oferecer um hoje certo para ser o nosso sempre, assim o nosso amor será sempre certeza, desejo, espera e compreensões, sem tempo definido, respeitando o nosso ciclo de vida.

Em seus braços não me sinto ameaçada ou lutando incessantemente contra aqueles moinhos de vento de D. Quixote. Contigo eu tenho o exílio e o descompasso da minha respiração. Em ti eu tenho a melhor visão de mim mesma.

De repente eu mergulho num mar de ousadia, apressadamente me visto como uma dama a ser desejada. Uma ansiedade que fazia meu coração saltar pela garganta. Admirei-me no espelho, munida do melhor vestido decotado, um perfume atraente e com joias em seu devido lugar, completamente pronta para lhe encontrar de surpresa. Partilhar um pouco do seu mundo, que parece tão impossível.

Eu imaginei mil maneiras de abordá-lo, todas pareciam ridículas. Por segurança fiz um bilhete no guardanapo, mas quando ouvi sua voz meu coração sacolejou feito escola de samba em dia de carnaval. Inconsequentemente fui ao seu encontro, gostaria que visse a sua cara de espanto quando me viu frente a frente! Mal nos falamos. Um cumprimento formal e sucinto, digno de quem estava acompanhado.

Eu, revestida de egoísmo, nem imaginei que poderia causar constrangimentos. Elegante e distinto tomou o papel de minhas mãos. Nossos olhares se encontraram em todos os lapsos de trégua. Não havia mais nada a fazer, a não ser aguardar que me telefonasse.

Mal pude acreditar que em poucas horas poderia me derramar em você numa terra tão distante. As fronteiras racionais foram atiradas. Tínhamos urgência de amor. Ousamos sem arrependimento para nos amar loucamente até a exaustão. Degustei cada pedaço do seu corpo, mergulhei fundo em meus delírios e adormecemos agarrados feitos um. Uma viagem incrível para resgatar as minhas forças perdidas.

Até o próximo desatino,
Stella,



20 de abril de 2015

Nossa entrega

João Miguel,

Tudo se modifica neste mundo. Aqui estou eu no meio de minhas inquietações, completamente concentrada, escrevendo para você.  Depois do nosso último encontro naquela rua escura da cidade às duas da manhã, sou outra mulher, ou agora posso dizer que finalmente sou uma mulher. Senti por seus atos, palavras convincentes e pelo seu corpo sensual, ativo e vibrante tudo aquilo que tem para me oferecer.

A necessidade que tínhamos um do outro era tão desesperadora que poucas palavras trocamos. Nossos corpos eram capazes de responder a qualquer pergunta. Fizemos amor como dois alucinados, pude te sentir inteiro. Em seus olhos uma imensidão de estrelas brilhantes. Consegui vagar em seu fogo natural, enquanto transbordava você pedia mais. Com o nosso prazer eu me sentia plena. Em cada momento que parecia que o meu corpo elevava. Tocando-o, busquei os seus contornos e agora memorizo de olhos fechados. Descobrimos a possibilidade de nos sentir vivos descobrindo o nosso prazer no outro.

Sem medos e sem pudor. Somente amor. A cada movimento lascivo, uma sensação esplendorosa. Os nossos pedaços se uniram, não havendo distinção. O nosso amor nos transporta, porém a luxúria do prazer alvoraçados dos nossos corpos nos levou a vivências indecifráveis. Lembramo-nos de tudo, mesmo que de modo precário, nosso tempo se torna infinito. Agradamos nossas matérias e naturezas sagradas.

É como se naquela insanidade nunca estivéssemos tão sãos! Queríamos nos perder em nossos braços para que nunca mais alguém nos encontre. Fizemos de nosso amor um banquete da melhor qualidade.

Um amor que físico que atravessou todas as dimensões, sem suavizar as fronteiras entre a alma e o corpo, estávamos envoltos de tudo. Nesta condição fomos comparsas, herdeiros da paixão. Tivemos um sexo intenso, explosivo, insubordinado e ao mesmo tempo franco e carinhoso, protagonizamos entrega. Embriagamos de peles e cheiros, descobrimos o que contínhamos.  A nossa consumação agora vaga em nossas memórias. Enfeitamos o nosso picadeiro, preparando para o próximo espetáculo ainda mais real. E, agora sim, já posso morrer de tanta felicidade.

Sempre sua,

Alana

17 de abril de 2015

Para Vovô


Itabuna, 17 de Abril de 2015

De repente o jardineiro passa com a tesoura e leva todas as minhas forças. A segunda quinzena de abril tem esse poder. Parece que vou perder a seiva e com ela todas as minhas energias se esvaziam. Seca por dentro a ponto de achar que é irremediável, somente na lembrança do seu olhar, nas suas palavras, no seu rosto sereno e no seu coração é que faz meus ‘brotos’ começarem a reviver novamente. Assim, abandono espaços vazios de solidão e passo a abrigar outra vez a luz da esperança.

Quantas vezes foi a minha terapia natural? Digamos que era a minha homeopatia, a erva-cheiro. Contigo Vô, me sentia a vontade para falar até do desequilíbrio. Era como prender o trapézio, recolher todas as redes, e conseguir com equilíbrio e paz atravessar o longo fio sem cair. O senhor era assim, esse fio condutor, sujeito de travessias e alegrias.

A dor da perda me cegou com o egoísmo, aquilo que antes só transformava em lamento, hoje transmuto para a gratidão dos 21 anos compartilhados inteiramente ao seu lado, bebendo de um amor delicado e protetivo, desses que somente pai com açúcar pode oferecer.

Agora mais lucida do que noutros anos, a alma não está mais em frangalhos, e já não tenho mais um mar de dúvidas me assolando, o meu céu permanece azul quando elevo os meus pensamentos e percebo que a morte foi apenas uma passagem. Estaremos juntos na eternidade e caminharemos serelepes em outras dimensões.

O fato de ter encarado terapias, ter despido a minha alma e revelar além das máscaras a Juliana que chora, que é fraca e tem muitos medos, me assustou. Apresentar esse mundo ao analista me causou desconforto. Mas eu precisava me sentir inteira outra vez, e como me dizia, “a verdade, mesmo que doa, acaba curando”. E ela me curou.

Daqui, bem distante, eu fico com as lembranças e a certeza do amor sem fronteiras que partilhamos.


Juliana

13 de abril de 2015

Da entrega ao fim

Meu amado,

Possivelmente essa carta jamais chegue até suas mãos, mas caso atravesse os seus dedos é porque tinha que ser. Era preciso que você soubesse o que penso sobre a vida, sobre os encontros, sobre nós e os tantos desencontros, aquele que perdemos, ou o que tivemos. O quanto amamos sem rotular amor, e pior sem verdadeiramente viver esse amor de maneira completa e plena. Fizemos um bem mútuo, guardamos segredos por anos, do pouco e do tão intenso que partilhamos, mas tudo tão excepcional que valeu por toda a vida.

Mesmo aquilo que não vivemos, mas desejamos intensamente, tateamos ou sentimos, acabamos vivendo, mesmo que tenham sido em vidas completamente distintas e distantes. Aprendemos em outros mundos, sem qualquer percepção de nossos companheiros. Não quero que se amargure por isso, você foi o melhor dos impossíveis para mim. Um completo tesouro de afetos, que mal cabia em mim de tão precioso.

O que nos limitou foi uma vida limitada as nossas intensidades, contudo, vibrante a cada mensagem trocada. Éramos obrigados a registrar os olhares que não pudemos contemporizar, as vivencias que tínhamos prometidos, mas que escaparam como água entre nossos dedos. Senti falta de tatear seu corpo nas noites frias, falta do calor do beijo e do abraço, do toque tão másculo que me fez sentir viva, do diálogo sadio e produtivo, do riso farto e apaixonante e das 
suas memórias serenas que partilhou comigo.

Meu amor, vivemos sempre em vidas paralelas, mas amamos todos os nossos segundos dedicados um ao outro, somos mestres na entrega. Fizemos do nosso amor uma arte deliciosa, brotou com um simples toque e nunca se decifrou, quase que impossível ele se sustentou por anos com a mesma intensidade da primeira troca de olhares. Nos amamos com a grandeza de adultos conscientes.

Você foi tão atinado, permitiu que eu fosse sempre eu mesma. Soube derramar o seu amor e desejo sem nunca depender de mim, nunca se submeteu aos meus caprichos e nunca foi bajulador. Compreensivo e sem críticas, ao contrário, sempre tão incentivador. Tínhamos um lugar no espaço e no tempo de nosso sentimento e de emoção. Renunciei amores e tive a coragem de sofrer por minha decisão.

Querido, você foi um grande amor. Uma entrega completa em nossos encontros. Como a música ‘Elegante, fino e sincero’, sempre se destacou assim e foi a minha melhor poesia na figura de humana. Eu era o gesto, o barulho, a mulher completa, como chamada por você ‘do despojamento à sofisticação’. Uma relação integral. E por mais que tente definir quem fomos e somos, jamais conseguiria, éramos caviar, rapadura, música clássica ou rock, salsa ou bolero, terra e ar, água e fogo, éramos adaptáveis. Embora tão ambíguos, fomos paz, sem variações.

Pensar em te deixar me dói muito. Só de pensar fico aterrorizada. Mas, a vida, de repente ficou muito preciosa a ponto de continuar presa como uma terceira pessoa nessa relação. Abandonar um relacionamento que sempre foi um empate de afetos, nenhum dos dois amava demais, ou se entregava demais, fomos iguais, inteiros. Recebíamos amor diariamente, e expressávamos sempre com a mais louca intensidade em nossos encontros.

Peço que não mude jamais, seja da grande aventura à doce ventura. Ame quem o entenda, e quem mereça você quando eu terminar esta carta. Quero vê-lo feliz. Tenha sempre um segredo, assim como o nosso. Preserve essa mágica que abandona medos ou convicções. Cultive os momentos e a simplicidade. As lembranças são como um afago em nossa memória.

Não se lamente, mas reze por mim, para que eu me mantenha em paz. Tente com as suas forças fazer isso sem me procurar, necessito me desligar de você. Vivi intimamente emaranhada aos seus afetos. Agora é hora de acenar adeus. Preciso viver o próximo tempo na intensidade de um ciclone, sem me autodestruir. Acorde querido, o sonho está acabando, apesar de querer continuar sonhando em braços, eu não posso mais.

Seja você e seja feliz, aceite suas dores e tenha fé. Ame, como te amei em todos os dias. Preciso que entenda que esta carta é apenas uma memória em homenagem ao nosso amor. Escrevo apressadamente porque caso desapareça, posso não surgir novamente tão cedo.  


Guardo você aqui, bem no centro.



Márcia