Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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15 de outubro de 2016

Entre vítimas e culpados

Não ser uma homicida não faz de mim uma pessoa melhor. Não ser latrocina não me transforma em alguém mais honesta ou melhor do que qualquer outra. Calma!

Essas são atitudes que não tenho qualquer vontade de fazê-las. É uma conduta consciente, um acordo selado que envolve a moral e costumes que não me traz a vontade de realizá-las.

Existem outras atitudes que podem fazer de mim uma perversa. O mal nas coisas que não enxergo e não compreendo dos sinais ao meu redor. Explico: o mal existe quando não aperto a mão de um subordinado porque ele é inferior a mim. Quando não me preocupo com o caixa da quitanda que já faz quinze dias que não o encontro em sua ocupação habitual, no copo d’água que deixei de oferecer a quem não teve uma boa notícia ao falar ao telefone.

Na minha cabeça o perverso sempre habita no outro: quando me oferecem o troco errado [e eu já imagino ser propositalmente, nunca que ele possa está abalado por algum motivo]; quando furam a fila [e eu sempre penso que es
teja querendo tirar vantagem, sem compreender que ele possa está acometido de alguma enfermidade]; quando envio um texto dedicado e não tenho resposta, afinal destinei meu tempo e palavras do dicionário e a pessoa não me concedeu nem um sorriso amarelo [nunca quero pensar que a pessoa simplesmente não goste de ler ou que esteve abarrotada de trabalho].

Claro, estamos SEMPRE buscando justificativas para nos absolver de um júri formado em nossa cabeça. A culpa é sempre do outro, a minha culpa deve ser anistiada em primeira instância. Estou reagindo, antes que seja tarde demais, a cada vez que a minha cabeça tenta me absolver e absolvo o outro, talvez a perversa seja eu se agir diferente. Não estou querendo buscar a vítima e o culpado nas mais diversas situações que nos acontecem.

É uma mania de obrigar aqueles que nos rodeiam a nos recompensar pelo bem que achamos que fizemos, ou quando temos atitudes negativas precisamos ser entendidos, porque tudo tem um motivo e tivemos os nossos para agir assim, do contrário é muita crueldade.

Pomos o culpado numa cadeira elétrica e damos a pena mais pesada por suas batalhas e sempre tentamos convencer aos jurados sobre as nossas possíveis finalidades a fim de que nos seja concedido não uma pena, mas uma benesse em público, sim, sempre em público.

Se colocar na cadeira do culpado é difícil, sobretudo quando falta empatia, quando os olhos não são capazes de enxergar o que acontece em nossa volta, quando somos tão desatentos que convidamos o ego para ser o nosso par.

Juliana Soledade


Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 15 de Outubro de 2016.

6 de outubro de 2016

Doce amor


Ainda bem pequena, aprendi a me calar para ouvir o outro, sobretudo quando se trata das pessoas ‘mais velhas’; cresci com senhor ou senhora para os pronomes de tratamento; sigo pedindo desculpas com facilidade, assim como por favor, e obrigado. Tenho uma dificuldade absurda em desejar bom dia mecanicamente e me faz mal ser reprimida em casos de esquecimentos. Não que eu não desejo, descarto a obrigatoriedade, apenas.

Certa vez vi um casal de velhinhos sentados num trem em um diálogo animador.  Se o destino me levou naquele dia até aquele lugar e me pôs a sentar preferencialmente ao lado desse casal, é realmente momento de abrir o coração para escutar com outros sentidos. Ele dizia que quando experimentamos o amor nos tornamos eternos, porque abandonamos o esquecimento, para e com o outro. O papo descontraído não parou por aí, seguiram conceituando a solidez no amor e a salvação que somente ele é capaz de alcançar.

Seguimos viagem, ele como se tivesse em posse de uma ementa, seguindo seu apontamento no mesmo tema. A minha posse era de uma memória por vezes falha, assim segui anotando suas observações quase sempre metafóricas e a cada comparação meu coração palpitava de alegria. Tenho certeza que engrandeço com o sentido figurado de coisas óbvias.

Atravessamos um vilarejo, ele apontava delicadamente para uma saia rodada e comprida numa vitrine, para em seguida afirmar que a essência de que todo o sentimento só é bem arrematado se estiver costurado na bainha do amor. Afirmou que o trem só havia partido com os dois de mãos dadas, porque ambos se elegeram para a longa travessia. A grande maioria daqueles que sofrem de paixão se abandonam nas primeiras paradas. A paixão é pragmática. O amor é uma consagração com absurda dedicação sem limite à condição de tempo. Falava no seu tempo, com respirações profundas e delicadas. A sua companheira fitava-o concentradamente.

A história é calçada em amores rendidos, como Penélope aguardou o seu Ulisses, fiel e sempre inteira, cuja sua beleza só não era maior do que o seu caráter. Do cavaleiro Tristão e a Rainha Isolda, a união do amor para além da alegria. Afinal, o amor sentido é isso: o pacto de laços para depois da felicidade.

Mas tem Drummond que torrencialmente chega falando de amor - ou paixão? -, do riso ao pranto, do imortal somente enquanto durar, no contentamento e no pesar. Na chama que [pode] se apagar. Um amor agitado, inquieto, com características de paixão: ardente. E os gloriosos poetas sempre aclamando que quanto menos correspondido, mais sentido. Amores verdadeiramente reais ou inventados, qual a diferença se nos fizer bem? Foi assim para o deleite do amor platônico de Dante e Beatriz. Foram assim para as ilusões de nosso primeiro e vigésimo amor. Se formos lembrados amorosamente e permitir lembrar-se de alguém do mesmo modo, qual o problema?

Não perguntei-lhes o nome, não procurei saber idade, de onde vinham e para qual o destino seguinte. Acompanhei com os olhos a cruzar o portão de desembarque, acenei mentalmente um adeus, um muito obrigado e um amor alinhavado com fios de ouro. E por fim me agradeci por saber calar, por saber ouvir.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 08 de Outubro de 2016.


Foto: Créditos da foto

30 de setembro de 2016

Eu não vendo, e você?

Venda seu voto e abandone qualquer premissa ética nesse fenômeno de compra e venda no mercado negro da democracia e afirme o quanto é capitalista.

A venda de um voto recaí nos quatro anos seguintes, abarcam consequências dolorosas nos âmbitos sociais, econômicos, culturais e políticos. Flagelamos o nosso direito de exercer um direito quando o vendemos. Equiparo a uma tragédia em cascata: ambição, miséria e alienação. Quase sempre fragilizando a consciência de quem se dispõe ao ato.

Quando vislumbro esta atitude, afirmo sem dúvidas de que estou lidando com dois tipos de miseráveis: o político desprovido de valores e princípios básicos e comprova desacreditar na democracia ao golpeá-la comprando os votos de pessoas mais carentes por diversas circunstâncias sociais e o quase cidadão que não conhece a sua capacidade de mobilização política e se encontra alienado pela própria miséria e preocupado com a sua condição econômica.

Uma série de políticos que não acreditam no futuro da coletividade, bem como não apresentam projetos a altura da sociedade, de outro lado, cidadãos que seguem convivendo com o fruto do imediatismo que alguns trocados proporcionam. Quatro anos vangloriando do poder político e em contrapartida uma conta de luz paga, uma garrafa de bebida, um saco de cimento, alguns tijolos... Em suma, é como se o todo poderoso comprasse ouro a preço de bananas e o eleitor vendesse, ou melhor, doasse a sua alma e consciência ao diabo, sem grandes questionamentos.

Não, alto lá, eu não estou sendo pessimista, creio que com a nova onda de informações via redes sociais estamos mais atentos àqueles que tentam se eleger a custa dos nossos votos. As redes têm permitido as pessoas preocupadas no bem-estar social como uma dessas mudanças que estamos tateando no ar. Atualmente existem mecanismos para um controle social mais acirrado de fenômenos como a compra/venda de votos e os políticos miseráveis de que falei acima estão sujeitos a verem as suas desgraças em rede nacional através das imagens borradas de píxel de algum celular.

O que apenas afirma que estamos num círculo vicioso, sempre haverá pessoas capazes de vender e capazes de comprar, exceto se encontrarmos políticos dispostos e eleitores conscientes. A minha esperança mora nas novas lideranças políticas, na juventude exibindo um real interesse e compromisso conosco e no abandono do ranço do coronelismo.

É na fragilidade de boa parte que reside à chance do político miserável. Ele entende de miséria, fomentando-a como mecanismo de perpetuação de si mesmo. Por fim, eu só posso afirmar que não compactuo com essa engrenagem, não vendo o meu voto, pois acredito e muito no futuro!



Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 30 de Setembro de 2016

21 de setembro de 2016

Agulhas: a eterna saga

O médico sinaliza a necessidade de alguns exames. Me mantenho em jejum após as 22:00 horas, uma fome descontrolada por saber que eu não posso mais comer. Acordo três vezes na madrugada me dirijo até a cozinha, abro a geladeira e bebo água, apenas. Acordo com mais fome do que o normal e me apresso.

Após a preparação psicológica para enfrentar as agulhas, encaro o caminho do laboratório. Mãos frias, sudorese por todo o corpo quando o meu nome completo é acionado pela enfermeira com cara de poucos amigos.

Pede que eu me sente, acomode a bolsa e relaxe o braço. Relaxar é a única coisa capaz de fazer naquela manhã de terça-feira. Ela põe o garrote no braço, e eu quero fugir da cadeira. Prepara as seringas, coloca a A-G-U-L-H-A e pede que eu feche a mão. Duas lágrimas de cada olho, não, pera, são três. Não é possível que ela ainda vai tentar encontrar minha veia com a agulha em mãos. Não tem mais nenhum vaso para contar história, só tem um corpo estático com taquicardia, choroso e desesperado.

A pressão despenca, trazem um copo de água, um pouco de conversa até que veia trai a minha confiança e surge no dorso de minha mão. Primeira espetada e já estou passeando entre os anéis de Saturno. A sala ao lado percebe o meu tímido choro, a enfermeira perde a veia, eu digo que vou embora. Me arrependo, volto, outra enfermeira me atende e refaz todo o procedimento. Minha filha segura na minha mão e garante que não vai doer, mas dói e como dói. Sinto o meu corpo inteiro formigando ao ver quatro seringas cheias de sangue, me sinto anêmica, nem precisa mais de resultado. Peço duas bolsas de sangue para repor tudo o que foi tirado, todos riem. Eu continuo chorando.

Minha menina contou e disse que foram 35 segundos para as quatro seringas, eu contei 5 horas ininterruptas e fui uma verdadeira almofada de alfinetes. Sorry, baby!

Na saída do laboratório me entregaram um comprovante com acesso ao resultado pela internet. Ótimo! Dois dias depois começo a via sacra, cada dia libera um exame diferente e eu encaro as telas do Dr. Google para descobrir cada doença que me ronda, a cada pesquisa os sintomas se assimilam. Começo a ler os artigos científicos, pesquiso sobre sintomas de forma individual, não batem com o resultado, mas continuo pesquisando, encontro os remédios para curar a tal doença. Entro em pânico. Aviso que estou nos últimos dias de minha vida, faço plano funerário, testamento e declaração de últimas vontades.

Corro para o consultório com todos os resultados em mãos, ao entregar o exame de cabeça baixa ao médico ele sorri e alega tudo bem com os resultados, eu sorrio junto, ao menos valeu a pena todo o esforço [e desespero], guardo minhas neuroses e vou embora.


Juliana Soledade

9 de setembro de 2016

Essas mulheres

Nossos pais nos ensinaram a ser independentes, no trabalho, na cozinha ou no amor. Nos ensinam que devemos escolher nossa profissão de acordo a aptidão, a chorar até a última gota para sorrir em seguida, a aceitar o nosso corpo, o nosso sorriso. É verdade que alguns pais não ensinam, mas a vida logo trata de mostrar o bê-á-bá!

Os pratos mais sofisticados que fiz na cozinha receberam o mesmo ar de satisfação do meu pai quanto a minha aprovação na monografia. O bolo bem confeitado foi elogiado do mesmo jeito da minha seleção em uma grande empresa. Quando lancei um livro, os meus pais vibravam e apontavam para a filha escritora, quando decidir viajar para divulgá-lo, meu pai assumiu um papel incrível para cuidar de minha filha enquanto eu me realizava.

Nem todos os homens acompanham a mesma linha de raciocínio. Para a grande maioria somos impressionantes: a habilidade em desenvolver a atividade que realmente queremos, de abrir mão do conforto e sair em busca de nossas realizações.

Assustamos pela mesma condição, ser dono das próprias asas, amedronta. A independência financeira e emocional causa um desconforto no parceiro. A possibilidade de voar como pássaros em que nunca conheceram gaiolas, idem. Ou que já souberam o gosto da prisão. Assustamos pelo arbítrio de decisão, da escolha, pelo excesso de certezas. Pela seriedade em pedir perdão e seguir adiante. Por afastar os fantasmas tranquilamente.

Os homens se sentem alarmados com as mulheres que saem para happy hour com as amigas, e já imaginam os chifres postos em sua cabeça. Tem medo de mulher bem relacionada, que conhece [e conversa com] muita gente, daquelas que mantém a amizade com o açougueiro até executivo. Homens suspeitam do decote, da saia curta ou do batom vermelho.

A nossa emancipação emocional é a certeza de que nunca seremos submissas, fugiremos do cárcere, alcançaremos nossos ares. O fato de não demonstrar fragilidade incomoda. Entramos numa linha de seleção, não é qualquer quentinha de feira que agrada. Simples. O joio é facilmente substituído pelo trigo: inteiro e saudável.

Século XXI e ainda tem homem ansiando a posse de uma mulher. Bobinhos! Não vão muito longe. Queremos companheiros seguros o bastante para amar uma mulher segura o bastante.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 10 de Setembro de 2016

28 de agosto de 2016

Meritocracia

Era um caminho normal, acordar aos sábados e antes de ir ao trabalho passar na padaria e comprar os jornais do fim de semana, logo depois fazer à conhecida ‘fézinha’ no ilegal jogo do bicho na porta do estabelecimento e encarar o dia de trabalho mais tranquilo da semana. Era realmente para ser um sábado qualquer, mas ao estacionar o carro um pedinte antigo da cidade, no entanto jovem na idade, encostou e pechinchou:

- Tia, me dá um real? – Seu bordão famoso.
- O que vai fazer com o dinheiro? – Questionei

Eu sou um pouco avessa a entregar dinheiro, sempre pergunto como vai gastar a quantia e se for algo que possa comprar, vou lá, compro e entrego.

Nesse dia, ele me disse que gostaria de comprar um café, logo o convidei para tomarmos café juntos, mesmo com a ausência da fome. Entrei na padaria, pedi dois cafés duplos com leite, e perguntei se ele encarava um misto. Seus olhos brilharam e concordou silenciosamente.

Percebendo que ele permanecia em pé o tempo inteiro, fiz um convite a se sentar:

- Não doutora, quero não – E foi se aproximando da porta da padaria.

Cheguei bem próximo e alertei de que nós dois poderíamos nos sentar e que era um direito de nós consumidores, mas ele recusou, veementemente apreensivo. A atendente também não gostou da minha proposta, passou a nos olhar de cara feia e nos tratar com rispidez.
Peguei os mistos, paguei a conta e saímos. Perguntei aonde iria se alimentar e apontou para a calçada, questionei se poderia dividir o momento, e ele afirmou com a cabeça.

Sentamos nós dois no meio-fio da calçada da padaria e tomamos nosso café. Conversamos por mais uns 20 minutos. Ele me contou que tem dias que faz apenas uma refeição, depende de alguém para ajudar no dinheiro, ou com algum serviço ou com comida. Eu faço todas as refeições e metaforicamente, de modo imediato, levei o primeiro tapa na cara.  Ainda me contou que mora numa casa abandonada, e eu moro em casa própria sempre inventando uma benfeitoria aqui ou ali. Segundo tapa. Ele me tratou de forma respeitosa e grata em cada momento do nosso café, mais um tapa, por acreditar que um pedinte sempre vai nos roubar. Cada um seguiu seu rumo, não antes dele me dizer que o dono e os atendentes não gostam de pobre, e que sempre é mal tratado. O último tapa, afinal sempre fui muito bem recebida e nunca me olharam ‘torto’.

- Já eu não gosto de pobreza de espírito – Salientei.

Deixei de frequentar a padaria, menos o jogo do bicho ainda que permanece na porta e eu continuo insistindo na ‘fézinha’, entretanto hoje de uma forma diferente: que o respeito exista independente de sua classe e que eu acerte no jogo. Porque a vida, meus caros, é muito dura fora da bolha, e carece de doses de sensibilidade no cotidiano.

Juliana Soledade


Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 27 de Agosto de 2016

6 de agosto de 2016

Sobre malas

Viajar é a interminável angústia de fazer e desfazer as malas. As minhas carregam histórias imprevisíveis, desnorteantes e inesquecíveis.
Já tentei seguir fórmulas para caber mais roupas ou sapatos, sempre algumas coisas ficam pelo caminho ou em urgência compro outro um suporte para aguentar os devaneios capitalistas.
Elas saem para o estrangeiro, para o frio ou calor, suportam nossos rompantes, nossos desavisos, nossas lágrimas. Já usei minha mala como travesseiro. Já subimos pé ante pé em avião, em ônibus e porta mala. Já sentiu areia de praia e pó de asfalto. Já tomamos banho de chuva e já foi carregada por outras mãos.
Em meio aos passos surgiram pessoas e culturas entre minhas aterrissagens.  E se minhas malas falassem dos reencontros, dos abraços e das quedas já levadas, teriam múltiplas histórias a contar. Elas quase sempre levam sorrisos e confianças, retornam com nostalgia e experiências. 
Ao tornar de alguma aventura, as malas sucessivamente pousam em meu quarto como se fossem uma canção de Vinicius de Moraes: “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe.”. Para aguentar a saudade de quem ficou.
Não tem amor eterno com namorado enquanto o suspense impera na esteira do aeroporto.  Não existe desespero maior ao notar os cadeados arrombados e a bagagem violada, acompanhado de duas certezas: choro sincero e ação indenizatória.
Dói abandonar uma mala que já viveu inúmeras histórias junto a nós, descartar apenas porque suas rodinhas não funcionam como antes, ou a sua cor já não é mais do nosso agrado.
Viajar é o mesmo que colecionar algumas moedas de ouro, se orgulhar de cada uma delas, e relembrar apontando entre fotos e memórias do caminho percorrido. Viajar é criar expectativas, é ficar frustrado com o sol do deserto do Saara ou a chuva não programada. É rir dos perrengues, é rir dos exageros. É inventar uma viagem atrás da outra para esquecer um amor, e regressar sem atingir o objetivo.
Viajar é libertar a alma, é tirar cada peça de roupa da mala fazendo lembranças das coisas vividas. Mais do que lembranças que uma mala carrega são os inúmeros souvernirs, chocolates, especiarias e confianças. Chegamos sabendo exatamente onde regressar.

Juliana Soledade

Crônica publicada no Jornal A Região no dia 06 de Agosto de 2016.

1 de agosto de 2016

Afinal, vivemos em um país democrático?

A democracia que nasceu em berço grego e ofertava ao cidadão a sua capacidade plena de decidir, opinar e discutir assuntos relacionados aos de uma determinada cidade Grega. Contudo, a democracia direta não foi efetiva e excluía os direitos dos escravos, estrangeiros e das mulheres. Ora, se poucos possuíam o poder de fato, então podemos pensar na impossibilidade dos interesses, naquele contexto, terem sido considerados universais. Logo, utilizar o termo democracia seria, no mínimo, falacioso. Posso pensar que qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência, ressalvando as proporções devidas.

A democracia é o poder ou governo do povo, onde o caráter de se tornar institucional vem da vontade e o consenso da maior parte, que vai até as urnas e elege seus representantes. Contudo, estamos em um país onde se assume a palavra democracia, mas vemos muitos rasgando a Constituição com a finalidade de beneficiar-se agindo como se fossem ‘os donos do poder’ e, o mais grave, tentando passar para a sociedade a ideia de que vivemos num país democrático.

Diante disso, fica fácil acreditar que o poder que emana do povo é apenas teoria, pois, se o Estado existe, é tão somente por conta do cidadão, para servi-lo e não ao contrário. Mas, desgraçadamente, o que vemos é outra realidade, qual seja: um modelo dito democrático totalmente questionável esse adotado no Brasil: pobreza atraindo pobreza, péssima distribuição de renda, desigualdade de tratamento oferecido pelo Estado Brasileiro aos ricos e aos pobres e uma corrupção manifestada em todos os meios.


Eu consigo enxergar uma quantidade absurda de pessoas sendo manipuladas, para unicamente levar um número menor a se manter ou estar no poder, passando por cima dos direitos sociais, apenas em beneficio próprio. Para alcançar tal propósito, utiliza-se de procedimentos ilegais, como, por exemplo, a compra de votos. Sabe-se de pessoas que recebem um valor meramente simbólico para entregar o seu voto e sua aprovação, permitindo assim que aquele político seja eleito, aproveitando-se da gigante desigualdade socioeconômica existente, pouco se importando com as demandas sociais. É preciso enfatizar que a compra e venda de votos se faz presente notoriamente em muitos lugares, principalmente na população menos favorecida economicamente, ato este que é ilícito e gera pena e multa, regido na Lei nº 9.840/99, caracterizando assim como Crime Eleitoral.

Nesse cenário, é preciso favorecer a ampliação de órgãos que representem a sociedade civil, organizações que defendam os interesses de setores da coletividade. Já temos muitos, mas precisamos de mais força, como a OAB, sindicatos, associações, mutirões, grupos sociais diversos para difusão da participação popular, levando à esfera competente a obrigação de a vontade geral ser efetivada, bem como exigir transparências das ações e controle das arbitrariedades e abusos cometidos. Sendo assim, provavelmente conseguiríamos construir uma sociedade com justiça social e verdadeiramente democrática.

E para você, vivemos em democracia?


Juliana Soledade

Crônica publicada no Jornal A Região no dia 30 de Julho de 2016

9 de julho de 2016

Aos olhos de uma canceriana

Canceriano apesar de astuto fica magoado num piscar de olhos. E dessa mágoa nunca esqueceremos, pode ser um salgadinho que você não ofereceu em 2000. Anos adiante vamos dizer em tom de ameaça: “e depois de tudo que eu fiz por você...”.

O canceriano se doa sem reservas, mas quando feridos se fecha como uma concha, que nem o mais potente maçarico é capaz de abrir. Não olhem torto, não diga o não de forma ríspida, não o ignore sem motivos. Se tiver razões, o abrace. Se não tiver, o abrace também.

Canceriano tem uma memória incrível. Será um mestre em gravar datas que não são importantes, placas de carro dos amigos, o CPF do pai, do namorado e a data de emissão do RG.

Canceriano vai ter TOC, antes de sair de casa vai verificar se as janelas estão fechadas, se desligou o fogo e se trancou o portão, mesmo assim retornará da metade do caminho para conferir novamente. Canceriano gosta de lar, não é de casa, mas sim do conforto, aconchego e segurança de um lar.

Cancerianos são românticos até o último suspiro, difícil de desistir de um amor. Finge que esqueceu, bloqueia o número de telefone, faz cara de paisagem, mas no fundo sempre acredita nos recomeços. E quando se entrega é com a alma, com o coração, quando magoados se enclausuram completamente, até reunir todos os caquinhos, costurar todos os retalhos e formar uma linda colcha para aquecer novamente.

Não, não existe ninguém mais emocional. Temos dois corações ao invés de um, somos o transbordamento do excesso. É ser filho do mundo e ao mesmo tempo acolher debaixo das asas quem tem um lugar registrado no peito. Canceriano é uma emoção que ninguém entende: é choro no riso, é choro na dor, é choro na despedida.

Amamos a água. Há quem nos confunda com peixe ou sereia. Há aqueles que sentem admiração incontínua pelas águas, seja doce ou salgada; é sempre uma entrega sem precedentes, e justificativas. É  do signo, vai por mim.

Cancerianos detestam ser esquecidos, seja na escola quando pequeno, no compromisso marcado, ou a data do aniversário. Se você tem um amigo canceriano, não esqueça a data do seu aniversário, ele só esquecerá a sua por algo muito relevante. Sabe aquelas mensagens prontas? Não envie para ele, diga de verdade o que o seu coração mandar, e ele saberá.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 09 de Julho de 2016

Aos olhos de uma canceriana

Canceriano apesar de astuto fica magoado num piscar de olhos. E dessa mágoa nunca esqueceremos, pode ser um salgadinho que você não ofereceu em 2000. Anos adiante vamos dizer em tom de ameaça: “e depois de tudo que eu fiz por você...”.

O canceriano se doa sem reservas, mas quando feridos se fecha como uma concha, que nem o mais potente maçarico é capaz de abrir. Não olhem torto, não diga o não de forma ríspida, não o ignore sem motivos. Se tiver razões, o abrace. Se não tiver, o abrace também.

Canceriano tem uma memória incrível. Será um mestre em gravar datas que não são importantes, placas de carro dos amigos, o CPF do pai, do namorado e a data de emissão do RG.

Canceriano vai ter TOC, antes de sair de casa vai verificar se as janelas estão fechadas, se desligou o fogo e se trancou o portão, mesmo assim retornará da metade do caminho para conferir novamente. Canceriano gosta de lar, não é de casa, mas sim do conforto, aconchego e segurança de um lar.

Cancerianos são românticos até o último suspiro, difícil de desistir de um amor. Finge que esqueceu, bloqueia o número de telefone, faz cara de paisagem, mas no fundo sempre acredita nos recomeços. E quando se entrega é com a alma, com o coração, quando magoados se enclausuram completamente, até reunir todos os caquinhos, costurar todos os retalhos e formar uma linda colcha para aquecer novamente.

Não, não existe ninguém mais emocional. Temos dois corações ao invés de um, somos o transbordamento do excesso. É ser filho do mundo e ao mesmo tempo acolher debaixo das asas quem tem um lugar registrado no peito. Canceriano é uma emoção que ninguém entende: é choro no riso, é choro na dor, é choro na despedida.

Amamos a água. Há quem nos confunda com peixe ou sereia. Há aqueles que sentem admiração incontínua pelas águas, seja doce ou salgada; é sempre uma entrega sem precedentes, e justificativas. É  do signo, vai por mim.

Cancerianos detestam ser esquecidos, seja na escola quando pequeno, no compromisso marcado, ou a data do aniversário. Se você tem um amigo canceriano, não esqueça a data do seu aniversário, ele só esquecerá a sua por algo muito relevante. Sabe aquelas mensagens prontas? Não envie para ele, diga de verdade o que o seu coração mandar, e ele saberá.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 09 de Julho de 2016

2 de julho de 2016

O poder da discriminação


Vivemos nessa mania de diminuir a quem nos servem. É difícil dá um sorriso de bom dia ao frentista ao abastecer o carro com um monte de cavalos, é difícil tratar o camelô com dignidade por ser alguém que está na corda bamba da informalidade para garantir o leite dos filhos, ou não. É ‘desnecessário’ convidar a empregada para dividir o almoço na mesa.

É um problema que se parece com o carnegão. Está lá dentro, embutido no brasileiro e para extrair dá um trabalho miserável, mas é notoriamente indispensável.

Não adianta pagar de revolucionário de novos tempos do Brasil quando é incapaz de reconhecer o serviço de uma mulher trabalhadora, alegando que ela tem menos direito (?), que é mais frágil e aquele monte de babaquice que a gente tá cansado de saber.

Não consigo entender quais são essas lutas coletivas que estamos travando, seja ela a homofobia, o racismo, o machismo ou o ‘seachismo’. Não resolve ir às ruas gritar pelo povo oprimido, fazer terapia, doação à criança esperança, se o garçom é maltratado, se o porteiro é ‘terceira-classe’, se trata o manobrista como o gatuno de coisas alheias, e se a moça que faz o café é como a preta serviçal.

Precisamos absorver que conceito de gente não é apenas quem está na mídia, não é quem tem dois milhões de likes em rede social, e tampouco aquele político que não te representa. Gente não é só quem tem dinheiro no banco, pose no avião ou a roupa elegante no barco branco.

Amigo, trate bem o outro, é só um conselho, mas esqueça de que é preto, preta, gay, pobre ou nordestino. Isso é apenas um mero detalhe que não deveria fazer a menor diferença.

No total, somos sete bilhões de seres, sete bilhões de verdades ou não, somos sete bilhões de aflições. E você perdendo tempo em escolher quem merece nosso aperto de mão?

Vai amigo, mete o pé na porta e derruba esse preconceito, principalmente a discriminação com aquele que desempenha uma atividade a seu favor.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 01 de Julho de 2016.

19 de junho de 2016

We are Brasil

O tal do modismo nos empurra para um abismo desleal. Por vezes eu tenho a sensação que estamos pragmaticamente perdidos.

Perdoem-me senhores, mas não vi manifestação além das fronteiras sobre o maior desastre ambiental do Brasil em Mariana/MG, sobre aquele menino do Rio de Janeiro, João Hélio, nem sobre o estado crítico de nossa política. Não vi que “we are” para o estupro coletivo, não vi “we are” para a modelo e apresentadora Ana Hickman, não vi “we are” para as vítimas da boate Kiss. Entenda, anunciar o fatídico é uma coisa, ter comoção generalizada, é outra bem diferente.

Será que somos todos Brasil depois do último jogo da seleção que levou a sua desclassificação da copa América? Será que somos todos Brasil com essa vontade de mudar de país pela quantidade de impostos e essa crise de desempregos? Será que somos todos Brasil com essa violência desenfreada?

Ninguém foi Brasil com a famosa derrota dos 7x1, ninguém foi mais Brasil com a votação do impeachment, ninguém foi mais Brasil quando retiraram os cobertores dos moradores de rua de São Paulo, enquanto os termômetros seguiam em temperaturas baixíssimas. Ao contrário, fomos menos e estamos menos.

Mas vejo pessoas extremamente sensibilizadas pelos atentados que ocorrem pelo mundo afora. Nas punições de outros países. Nos crimes de outras nacionalidades. O brasileiro é aquele sujeito solidário, que sabe ser um leão na rede social e um gatinho frente aos problemas sociais.

Não é colocar uma bandeira colorida em rede social e pensar que já deu sua contribuição social para a humanidade, sendo que aqui continuará sendo homofóbico e odiando os gays. Ninguém que ser da favela, do morro ou de um vilarejo. Ninguém que ser benevolente com vítimas do desabafamento da igreja evangélica.

Em ano de eleições percebo que levaremos mais rasteiras com essas atitudes. Enquanto não abandonarmos o pensamento mesquinho, e abraçar o plural, teremos muitas dores de cabeça.

Amigos, é fácil se convalescer com a dor do outro, contudo, precisamos ser mais Brasil, onde se mata negro, favelado, mulheres e crianças TODOS OS DIAS. É preciso se comover com a criança que pede esmola. O SUS mata TODOS OS DIAS pela falta de medicamentos e equipamentos básicos. O terrorismo aqui é ver pacientes jogados em corredor por falta de leitos.

Precisamos de “Pray for Brasil” e que isso venha do mundo inteiro.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 18 de Junho de 2016.


*We are: somos todos (tradução livre)

*Pray for Brasil: Reze pelo Brasil (tradução livre)

11 de junho de 2016

Que dure apenas enquanto fizer bem


Amadurecer significa abandonar algumas certezas e frear alguns atos e emoções. Não faço mais questão de altar e vestido de noiva, tampouco de uma aliança com generosas pedrinhas de brilhantes. Isso não me deixa enlouquecida. Não mais.

Em tempos de liquidez, amor com compromisso é ouro, isso me faz feliz. E não precisa de registro no cartório ou testemunhas no altar. Serenidade é encontrar a paz com felicidade, sem qualquer formalidade definida. É ter confortáveis braços a se entregar, é ter certeza de que não necessitamos de provas ou argumentos para atestar que um tem o outro.

Aprendi a abrir mão de determinados festejos para manifestar a minha ou a felicidade somada. Quando guardamos em segredo, aliviamos o martírio de alimentar a curiosidade alheia. Quem conhece intimamente, entende o amor e isso é o suficiente. Os não tão chegados percebe o brilho nos olhos. Isso basta.

O juízo assina uma parceria com o equilíbrio quando percebo que não procuro mais um marido, um namorado ou alguém para chamar de meu numa cerimônia pomposa. O tempo nos apresenta o significado da palavra companheiro, e de forma harmônica proporciona lealdade e união. Ser companheiro é excluir os rótulos e completar institivamente o outro sem insistentes cobranças.

Os presentes caros não me são importantes, a minha importância nos dias do outro é que sempre me fizeram ser diferente. Não são fotos, registros, ou comemorações em dias especiais que nos fazem melhor. A diferença se completa em ser ‘sequestrada’ em uma sexta à noite e ser devolvida despretensiosamente numa segunda-feira pela manhã direto no trabalho com a alegria evidente no rosto. Não quero fotos de sorriso forçado ou declarações na asa de um avião. Quero lembranças, partilhas e entregas, sempre!

Evoluir me fez perceber que eu nunca estive verdadeiramente em busca de um marido para seguir protocolos. Os insucessos de duas tentativas convieram para evidenciar que a vida partilhada com as tantas regrinhas quebradas é mais muito leve.

Amadurecer é também compreender que o eterno seja somente o que tiver que durar, enquanto nos fizer bem. E dentro de toda a serenidade das nossas vidas, desejar ser apenas de uma única pessoa.

Feliz dia dos namorados-companheiros-xodós-amasiados!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 11 de Junho de 2016.

4 de junho de 2016

Não me obrigue!

NÃO ME OBRIGUE

Não me obrigue a falar que te amo quando esse sentimento não existir dentro de mim. Não me faça sair do conforto de minha cama quentinha quando eu não quiser. Não insista, não tente me impulsionar com motivos sem graça ou desnecessários.  

Não me obrigue a ter atitudes contrarias a minha vontade. Não determine perfeição onde não existe, e que na verdade, nunca irá existir. Não me obrigue a te chamar pelo apelido, pelo diminutivo. Não vou ser amiga íntima de qualquer jeito, preciso de conquista, partilha e confiança.

Não me obrigue entrar os padrões universais impostos pelas mídias, pela sociedade, pelo vizinho de sua tia. Pare de tentar varrer os cantinhos de meu templo se você não os conhece o meu lar. Pare de violentar os meus planos, os meus sorrisos... Poupe os meus nãos.

Não quero fingir que está tudo bem, nem forçar sorriso. Entenda, eu não sei abraçar quando não quero. Vou desviar o olhar, vou mexer no celular, vou dar desculpas, mas não, não irei abraçar caso não queria.

Não vou fingir que é meu amigo caso não seja, não vou dizer “eu te amo” como se fosse um “olá”. Não sei mergulhar no raso,     amor é algo sério, ou se mergulha com os equipamentos de segurança ou então se morre afogado. Simples!

Vou adorar viajar, vou adorar me guardar. Ambígua, mas nunca indecisa. No mundo sempre lugares novos, e em mim pelo mesmo motivo. Então não insista para eu ficar, não me faça ir sem vontade.

Não adianta dizer que devo usar saia, vestido ou biquíni. Vou contrariar. Vou usar o que o espelho concorda. Vou guardar moedas, cartões postais e cartas de ex-amores. Não se incomode, a casa é minha. Não vou chorar para fazer drama, não vou sair querendo ficar.

Não vou disputar presença, atenção ou amizade. Entra quem quer ficar, e fica quem eu quero que fique. Não me peça explicações. Posso ser um excelente veneno ou antídoto.

A cada vez que sou obrigada a agradar alguém unilateralmente, serei machucada. A cada sim sem escolha, serei cortada por dentro. E será difícil de estancar o que sangrará aqui dentro.

Quando sorrio com a alma mostro todos os dentes, meus abraços são feitos esmagos. Meu amor é intenso e verdadeiro e minha alma pode não lhe agradar. Desculpas, minha vida não foi feita para você, foi feita para mim, desse jeitinho manso e enérgico. Possessiva e autoritária. Um santuário que posso chamar de meu, encarnar eu. Sempre. Do acordar ao adormecer. Não baixo guarda, ser pacífico não significa ser passivo.

Eu vou voar, quando eu quiser, do jeito que eu quiser e sempre que bem entender. Aqui tudo é movimento.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 04 de Junho de 2016

21 de maio de 2016

A beleza da vida

Perfeição, nada mais do que isso. Ter uma boa companhia não é fácil de encontrar, unir com paisagens sempre se desdobram como deliciosas cartas no baralho. O riso funciona com regularidade. O equilíbrio de energias, a inspiração e expiração também.

Limpa e bela era a praia, não havia sujeira de humanos mal criados, ou atendimento ruim no restaurante, que apesar da conta salgada, valia-se a pena desfrutar da graciosidade do bom serviço.

Uma caminhada frente às águas transparentes que refletidas no céu transformavam-se em um azul encantado, decorando o mar apenas alguns barcos ultra luxuosos. O sol pronto para nos deixar coradas e cansadas o suficiente para esperar a próxima novidade (ou vista) da vida.

Era horrível um final de semana em Trancoso, sobretudo a hora do adeus. Uma imparcialidade desumana. Uma vista contrastada com o paraíso. Dentro do meu bem-estar físico, psíquico fiquei arrasada, melhor, ficamos arrasadas. Como abandonar tudo aquilo, uma típica vidinha de madame e tornar a vida profissional em questão de horas?

Diante da praia dos amores ou da praia do espelho, eu não tinha nada a fazer, nem pensar, nem sofrer. É como se sonhasse com os olhos abertos e esse mesmo sonho fosse real. O bater de ondas era sinfonia para as nossas conversas, a única testemunha de nossas confissões e diálogos, esquecendo os naufrágios e assinando calmaria em cada passo, cada foto, cada símbolo, cada lembrança gerada.

O domingo quando se aquietou foi capaz de deixar lágrimas, o perfume do verão e uma penumbra antes do regresso. Acabou doendo até os ossos o momento do adeus. Dentro de um conforto absoluto em desfrutar uma presença tão desejada era capaz de sentir um ligeiro sofrimento à demora de alguns meses para outro reencontro. Graças que ele sempre chegava, e se reinventava para cultivar reminiscências e apontamentos, fotografias e registros. Tudo tão genuíno, sem firulas ou frescuras.


Realmente, ter uma boa companhia é o mesmo de ter boas viagens, bons momentos e excelentes risadas. É contar os dias para o próximo encontro, é fazer as malas e embarcar sabendo que nunca retornaremos da mesma maneira, sempre com algumas dúvidas e outras respostas, com alguns inícios e outros fins, insistindo vez ou outra a abrir a janela do recomeçar.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 21 de Maio de 2016

14 de maio de 2016

Sobre o mar

Eu amo o mar e preciso começar o texto com essa afirmativa: sim, eu amo o mar.

Tomei o primeiro banho de mar com poucos meses de vida, não sei se o choro foi de medo ou emoção e desde então nunca mais nos abandonamos. Cresci beirando o litoral, sempre banhada com água salgada, na praia era água de mar, longe dela era o suor e lágrimas.

Vovô me fez ser corajosa: ensinou-me a remar, incentivou a mergulhar e me doutrinou a respeitá-lo; a ouvir os seus sinais, a rezar sem dizer uma só palavra; a deixar a areia enterrar os pés com as marolas. Eu não conheci outra pessoa tão apaixonada pelo mar quanto Vô, e devo os primeiros ensinamentos a ele.

No mar eu desatraco do cais de meus limites e me ponho a navegar em rumos desconhecidos, no entanto, absurdamente familiar. No mar eu sou concha, sou marola, sou loca de pedra e peixe. No mar eu tenho vida. A dor sempre parece menor e o amor sempre se esparrama. A nossa relação é tão profunda, íntima.

Há alguns anos tatuei uma gota na perna que apesar de existir dois grandes significados, um deles é referenciando o mar, a santa água salgada, que me acalma e me transforma.

A água quando chega à cintura me sinto uma sereia pronta para navegar rumo ao lar novamente. Um sorriso escancarado e os olhos fechados para ouvir o que ninguém entende: os seus signos, as suas dores, os seus amores. Um mergulho vale como um abraço, o vai e vem de ondas é um passo de dança.

No último final de semana tive a oportunidade de mergulhar com cilindro no Porto da Barra em Salvador, desejo antigo. Após uma semana de vento forte e chuva, o mar ficou turvo e agitado, mas não menos encantador.

Com equipamentos de segurança e um instrutor capacitado, encaramos a imersão. Poderia reafirmar sobre a beleza do mar, sobretudo do fundo de suas águas, mas prefiro dizer que o mar jamais será incrivelmente lindo se não for com prudência e cuidado, e isso a equipe do Submerso SUP Dive tem de sobra. Bons equipamentos e profissionais competentes faz toda a diferença.

Com Robson fui uma sereia liberta. Entreguei-me a respiração serena e as nadadeiras ritmadas. Ali onde reina beleza, com uma infinidade de cardumes de peixes, corais e cavalos marinhos. Fomos inteiros, completos.

A maré sempre recua clamando saudade. Eu sempre vou embora querendo ficar, querendo morar bem em frente ao mar. Sou pertencente à água salgada. Consinto com Dorival Caymmi, “era doce morrer no mar”, porque a cada volta parte de mim fica por lá...


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 14 de Maio de 2016

Contato da Submerso Sup Dive (71) 
3035-3095 / 98705-6860 - Localizado no Porto da Barra, Salvador/BA.