Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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17 de abril de 2016

Para Vovô 2

Vô,

Eu sei que já prometi que não escreveria mais cartas, até afirmei isso publicamente para tentar frear esses desejos instintivos dessa humilde escritora. Estou sendo falha, conscientemente falha, me perdoe.

Hoje talvez seja véspera de outro dia qualquer, eu fico daqui amuada entre o meu quarto escuro e as cobertas, escutando a chuva fina que delicadamente cai do céu, e ao mesmo tempo buscando produzir conexões lógicas e não-verbais, acalentado o espaço e a distancia que temos um do outro (se é que elas existem), com as lembranças que me restaram. O silêncio é sempre um fiel aliado para essas possíveis conexões. Te sinto perto, e isso me acalma.

Tenho saudades, principalmente quando chamava de meu avô, com um pronome possessivo que fazia toda a diferença, quem sabe esse fosse o motivo que te chamar milhões de vezes por dia, o fato de saber que poderia ser meu avô, ou meu amor... Saudade também daquele que não sabia me julgar, mas sabia me compreender; que não se afastava, mas que amava, até o seu ultimo suspiro. E creio que essa tenha sido a verdade mais linda: a do amor exposto, entregue, mas nunca vulnerável. Eu tinha certeza do seu amor.

Com aquele olho que enxergava me permitia viajar por aventuras incríveis, desde as corretas até as necessárias, tinha sempre o olhar de encorajamento para mim, e eu nunca fui reprimida. Aprendi com os erros, mas sabia que ao fim de cada um deles poderia me
jogar no seu colo, porque a cada arranhão doloroso, estava ali sentado em sua cadeira vermelha para me escutar, acolher, e amar.

Hoje vovô, entre tristeza e felicidade (porque elas são sensações autônomas e coexistem entre si), relembro quando não permitia que os meus amigos, por mais próximos que fossem te chamasse de avô. Briguenta e carente tomava posse todos os dias da missão de ser sua neta na sua vida. Ciumenta e possessiva desse amor, desde sempre.

Eu sei que Deus não nos trata como um brinquedo que, quando envelhecido ou com a sua utilidade limitada será descartado e outro será posto em seu lugar. Eu sei que esse mistério da morte representa muito mais do que sabemos ou cremos. É um mistério que somente a fé, intensa e significativa, pode serenar quem fica, mas nunca explicar. A fé não explica a razão.

As nossas fotografias revelam motivos que não cabem nos conceitos das palavras. É como se fosse a ponta do cordão que amarra as nossas vidas, e sustenta todo o sentido [e sentimento] do amor.

A minha dor é floreada de saudade é um território santo. E aqui, assim como Moisés ouviu de Deus “Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa”. Para reviver todos os anos convividos ao seu lado é preciso desnudar o presente e embarcar com ternura ao passado.

Sempre com amor,

Sua neta.


Itabuna, 17 de abril de 2016.

9 de abril de 2016

Amigo

Quantas pessoas entram e saem sem pedir licença e não faz a menor diferença? Muitas, talvez. Eu diria a grande maioria.

Tem outras que começam a ser a nossa sub pele, sabe? São pessoas que precisamos correr para contar os nossos projetos, vão ponderar, e que vão nos apoiar, mesmo que não seja o mais correto. Tem pessoas que sabem de segredos que nem lembrávamos. Sabem da nossa cor preferida, do nosso vinho favorito e dos nossos gostos mais peculiares.

Tem amigos que choramos pitangas, amores e vitórias. Tem amigos que aprendemos a amar, respeitar e cuidar. Tem amigos que é capaz de largar o cobertor quentinho às duas da manhã, cortar a cidade inteira para te levar ao hospital, para depois rir do seu drama na injeção e segurar na mão quantas vezes forem preciso. Amigo que lhe empresta dinheiro sem você assinar recibo, mesmo que o valor seja alto. Amigo que lhe chama para sociedade, só porque confia no seu potencial. Amigo que diz “vai dá certo, eu te ajudo”.


Amigo é quem te convence que uma viagem vai te fazer bem, mas que a viagem só vai fazer bem com esse amigo. Tem amigos que nascem para serem nossos amigos, que no primeiro bater de olhos já existe uma identificação e sem querer já sabem da nossa vida mais do que nós mesmo. Porque amigo de verdade não tem ressalvas, mistérios e nem senha no celular.

Amigo é aquele que te sacode na depressão, que guarda a sua dor para te fazer forte, que ciúma quando novos amigos se aproximam, ou quando o rapaz começa a investir no romance.

Quando eu me acho vacinada de chegadas e partidas, um amigo que extravasa a condição de mera amizade e entra por muitas vezes no condão de irmão, liga e diz: “estou indo embora no domingo”, palavras que me cortaram o peito e fiquei perdida no meu choro com ele me chamando do outro lado da linha. Desliguei, feito uma criança mimada. E me recusei a dar adeus, porque sim, eu sei que qualquer dia desses a gente topa na vida de novo, para rirmos juntos daquela queda que tomei, daquele toco que levei ou daquela vez que disse: “eu te avisei”. Eu sei que ainda vamos comer muitas pizzas de quatro queijos com borda recheada, ainda vamos beber caipirokas até errar o sabor, e vamos sair energizado de um show de Vanessa da Matta. Vamos, eu sei.

É você que foi meu companheiro de conquistas e de choros com soluços. Que sempre atendeu meu telefone e que me perguntava sobre os seus planos. Rimos dos tropeços. Rimos das mancadas. Rimos dos medos bobos e daqueles nem tão bobos assim. É você que me defende feito um bicho, que mostra que o gatinho é um cordeiro. É você que diz: “relaxe”. É com você que divido uma rodada de tapioca ou uma série de caretas.   

Mas eu fico daqui, te desejo toda sorte na vida, e agradecendo por todo o tempo que esteve segurando minhas asas, acolhendo meus prantos e vibrando comigo. Porque agora elas estão tortas, molhadas, frias.



Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 09 de Abril de 2016

13 de agosto de 2015

Uma carta para mim mesma 10 anos atrás

Olá, Jú,


Sou eu, ou melhor, sou você lá na frente. As palavras a seguir causarão estranhezas enormes na sua cabecinha, uma dose absurda de descrença e uma frase com exagero deboche “quem você pensa que é?”. Mas recebi o direito de promover todas essas sensações em você, e muito embora as próximas linhas assemelhem-se com profecias, estão longe de sê-las, são apenas verdades.

Um acontecimento incrível irá mudar TODA a sua trajetória de vida. Você sentirá dor e desconfortos absurdos, mas conseguirá amar mais do que a você mesma. Aprenda a partir de agora que a dor pode ser boa, você carregará essa frase por muito tempo. Isso tudo apenas para que compreenda que as voltas dadas pelo mundo são tão somente para desnudá-la de corpo e alma, para si e para o restante do universo.

As suas crenças e certezas serão colocadas à prova. Mas o amor será a primeira redenção e a última cura. Não se engane com esse corpo franzino, você ganhará formas de todos os jeitos, formas inclusive na fortaleza que parece ser tão escondida. O resultado disto? Você dará vida a sua vida e a tantas outras. E só lhe digo isto porque vi acontecer...

Uma breve introdução para absorver com mais clareza o que vem a seguir:

Nos próximos 10 anos:             

Nesse momento, você está em imersa em dúvidas. Uma delas é com o amor real que te bateu na porta. A essa altura já percebeu que todos os outros foram amores platônicos, e não passaram disso. A segunda grande dúvida é como ser mulher e abandonar o corpo e desejos de menina, esta dúvida infelizmente será desvendada rapidamente. Não é preciso ser vidente para saber que você se jogaria de cabeça nesta relação, você nasceu intensa, vibrante.

Quando você pensar em atirar esse amor arrebatador para o alto, compreenderá que não vai poder. Enigmaticamente descobrirá que um ser está dentro do seu, e sim, você só tem 17 anos. Receberá propostas indecorosas para jogar essa vida para fora, mas será forte o suficiente para começar a amar desde o teste de gravidez.

A parte ruim é que o amor não era tão real assim, e ao passar dos anos você terá que assumir as duas funções: mãe e pai, mas lembra de quando eu falei da fortaleza que seria? Então, começa aqui! Vejo-te como uma mãe valente e feroz, no entanto, uma mãe tão doce quanto o mel e que saberá despejar doses absurdas de amor diariamente.

Forte não será apenas o seu ponto chave, também será decidida, isso soará como um sobrenome. Sim, abandonar um grande amor te fará desprendida de energias ruins e dores desnecessárias, possibilitando que outras pessoas sejam felizes nessa história. Nessa questão você entenderá que muitas vezes o pior e o melhor caminham lado a lado de mãos dadas.

Você se casará pouco tempo depois, como sempre sonhou: véu, grinalda, alianças decoradas e muito sonho no altar. Entretanto você casou beira-mar, menina, tenho certeza que as ondas levarão para bem longe tudo aquilo que você não merece. Mais uma vez eu lhe afirmo, você será forte, e embora pareça frágil, saberá que tem uma armadura de aço te protegendo.

Juliana, eu ainda vejo como uma menina, tão cheia de responsabilidades e medos, mas por que carga d’aguas pediu para vir ao mundo com emoção? Não adianta reclamar, eu ainda não parei. Preferi andar acompanhando juntamente com a sua intensidade seus anseios e coragens. Confesso que estou assustada, porém tranquila em saber que às vezes consegue ter boas decisões.

O mais bonito que eu vejo é esse amor que você esparrama, acontece que, lançará sem medo e acaba se machucando quando percebe que ele não é devolvido. O choro será seu amigo, queria dizer para não chorar por tudo, mas é sua natureza, se a felicidade atinge em cheio, terá lágrimas cristalinas com um sorriso incandescente, todavia a mágoa e tristeza também provocarão soluços com nariz entupido.

Um grande amor abandonará esse plano, e mesmo sabendo que isso pode acontecer a qualquer momento, você não irá aceitar, por isso vai sofrer mais do que o previsto. O pior é que essas dores se arrastarão até os dias de hoje. A terapia vai aliviar seu coração. Sim, não deixe de fazer terapia.

Você vai conhecer amores i-nes-que-cí-veis, mas se arrependerá de ter conhecido a grande maioria. Outros dois você viverá de memórias, lembranças e gratidão; Você vai conhecer a morte de perto; Aprenderá a ter medo de médicos, injeções e hospitais, isso medo dos grandes; Vai passar por alguns renascimentos nesses 10 anos, e lhe digo que embora ainda esteja escrevendo como uma menina, todos dirão que cresceu.

Vai acumular pontos, tanto no cartão de crédito quanto no corpo; Vai conhecer diversos estados e culturas; Vai inventar desculpas para viajar, justamente por descobrir a sua própria companhia é imbatível; Vai conhecer um punhado de gente bacana nestas viagens; Vai se apaixonar por Chico Buarque. Eu sei que quer conhecer o carnaval de Salvador, será apenas um sonho dissipado em pouco tempo. Aprenderá a ter medo de multidão e carnaval não é um bom plano.

Conhecerá o estudo por outro cenário, será uma das suas grandes paixões. Acumulará diversos cursos distintos, dando desculpas a cada um deles; Se arrependerá de ter queimado o primeiro livro, mas isso será o impulso para escrever outros três. Isso vai te fazer ainda mais forte.

Por fim, estou aqui na frente tentando fazer entender que as expectativas, gargalhadas e sexo não são requisitos para uma vida perfeita. Esqueça um pouco o passado, lembranças ao excesso embaçam o presente.  

Mas eu sei que quer ter certeza sobre o futuro, definitivamente fique tranquila. A vida te reserva muito mais do que pode imaginar: frio na barriga, coração disparado e uma avalanche de emoções como um livro de Rubem Fonseca [você também vai se apaixonar por esse autor!].

Te espero cá na frente, acompanhada de histórias surpreendentes.

Dois beijos,


26 de outubro de 2014

Carta na manga

A normalidade corria entre as veias dela, uma vida inteiramente sobre controle, seja do marido, seja na permanência educacional dos filhos, a vivência coerente e imprescindível de uma mulher que dispõe de uma generosa aliança em seu dedo esquerdo.

Poderia continuar tudo nos moldes esperados, senão fosse um número adicionado erroneamente no celular da jovem, uma mensagem disparada pelo whatsaap descontrolou todos os dias seguintes, uma paixão acidental espetou dois seres carente de desvelo. O desgaste matrimonial, a falência progressiva do anelo foi apenas a motivação necessária para o ciclo posterior, o impulso não esperado que se tornou desejado e parte da memória de dois corações ensanguentados foi a razão encontrada para os devaneios devidamente encravados na semiescuridão.

Não precisou de grandes subterfúgios, alardeou internamente sobre o seu desejo voraz de tê-lo em seus braços, tons sanguíneos latejantes forçava aquela vida. Alguns passos até o carro, outros quilômetros para a materialização desse querer. Uma vida que recebeu vitalidade de buscar o seu destino para além das regras de etiqueta, e da existência terrena.

Um abalo traiçoeiro na troca de beijos com lábios ávidos, sem juras de amor, sem vontade de mergulhar raízes naquela outra pessoa, e apesar do horário devidamente calculado, apenas fruir com prazer numa grande cama macia e delicada era o desejo de ambos. A cama os recebia para o encaixe, sem serem abreviações, sem limites impostos, apenas eles, nus, sedentos, como fogo ao vento, um incêndio apressado e necessário. Fogo, tesão e querer, nada mais seguravam dois amantes.  

Ao voltar, aliança no dedo, e um cotidiano a cumprir, alimentando o copo de água antes que evapore por completo. Porém, sem dúvidas, nada condiciona uma mulher, nem significâncias, nem irrelevâncias. Impecável somente o marido que transitava pelo tempo. 

Juliana Soledade

Primavera, 26 de Outubro de 2014

8 de outubro de 2014

Cabelo

Vovô tinha cabelos além de brancos, eram alvos, muito finos e em sua cabeça algumas partes eles já tinham desaparecido. Comecei a cortar o cabelo de vovô quando nem sabia atravessar a rua sozinha. No início desenhava um mosaico em sua cabeça, ele não me censurava. Vezes outras, o barbeiro consertava as imperfeições que eu gerava.

Ele se recostava na cadeira, eu sentava em seu colo e aparava os seus pelos da sobrancelha, nariz e orelhas. Ele me deixava passar creme hidratante nos pés também, quando insistia muito besuntava por quase todo corpo, homem daquele tempo não se rendia fácil às vaidades. Mas eu o fazia ser rendido.

Vovô gostava do sol da manhã, principalmente na primavera. Ele sentava na porta de casa e deixava se esquentar, eu sempre acompanhava, dizia que fazia bem para o sangue. Sua bisneta desfrutou assim como eu de seu confortável colo no batente da porta, ela só não pôde retirar sozinha a roupa mais quente à medida que o sol aquecia o corpo, nem conversou sobre o movimento na avenida que avistávamos, tampouco do desenho de nuvens no céu. 

Conforme os anos corriam, eu continuava a cortar seu cabelo, melhorei um pouco, talvez. Guardava os tufos branquinhos, depois atirava para cima no quintal. Vovô tinha uma paciência incontável comigo. Não precisava o cabelo crescer muito, eu sempre tinha um motivo para pegar o pente e a tesoura, e aparar. Caso não ficasse bom, a culpa era da tesoura cega, e ele nem se importava.

Ele me deixava lixar as suas unhas das mãos, mas nunca me deixou cortar, dado que tinha um cortador de unhas, incrivelmente limpo e guardava feito joia. Ele era cuidadoso, mesmo enxergando somente com um olho, e neste pingava colírio diariamente, quando estava no seu ninho, eu gotejava bem na parte colorida do olho. Ele se sentia cuidado.

Guardei a tesoura que cortava o seu cabelo, para quem sabe um dia, eu poder cuidar tão bem de meu pai como cuidei de meu avô. Ou ainda, permitir que a minha pequena Maria experimente do amor em fragmentos de delicadeza.  

Enquanto isso, a vida corre e meu pai não me deixa cortar os seus cabelos. 


Primavera, 8 de setembro de 2014

25 de setembro de 2014

Vovô

Após a morte de vovô e todo o processo de quarentena que atravessei, hoje foi a primeira vez que eu estive no local onde o seu corpo foi repousado. E também a primeira vez que eu pude compreender nitidamente a morte dele. No início do ano a ficha caiu, a realidade se fez presente quando percebi que ele não estava fazendo uma viagem ou estava numa brincadeira de esconde-esconde comigo. Por mais doído que foram as outras tentativas de afirmações, nesta eu estava serena. Creio que precisava desse diagnóstico comigo mesma.

Durante o meu período de recuperação pós morte, eu surtei, inúmeras vezes tentei escavar o seu túmulo com minhas próprias mãos, flagelada e abandonada retornava para minha casa frustrada. Ou ainda esperei que ele cruzasse a porta de casa incontável vezes com os braços abertos.

Hoje eu entendo perfeitamente sobre a morte de vovô. E somente o que me resta são as lembranças e saudades conscientes, sem surtos e sem loucuras. Vô era meu porto, de repente ele se transformou em navio e partiu, sem jogar o lenço, sem acenar adeus. Abruptamente o seu cheiro de amor foi enterrado, debaixo daqueles sete palmos devidamente calculados.

Ele não tinha apenas cheiro de amor, ele dispunha dos gestos mais delicados comigo. Era um pai com açúcar. Era quem me abraçava e permitia que eu sentasse em seu colo feito uma criança mimada. Foi quem me ensinou a andar de bicicleta atirando-me ladeira abaixo. Era quem falava de amor com os olhos, com o olho que via e com aquele que não via também.

Vovô tinha mãos delicadas, e tinha carinho para dar em cada um dos seus dedos. Ele tinha gestos cativantes, e palavras certeiras. Vovô era a minha cura e salvação
.
Mas no agora eu digo, dolorosamente real você se foi. E só então, com o peito aquecido de lembranças, percebo o tamanho de minha gratidão e devoção por ele. Olhos fechados, cicatriz regenerada, três passos a frente e adeus.

Juliana Soledade

17 de setembro de 2014

Infância - Tia Dete

Por Juliana Soledade


Tia Dete sempre observava a casa cheia, no final da tarde ela se debruçava na mureta da varanda e contemplava o dia indo embora, mantinha os seus cabelos brancos e parecia ter medo do futuro.

Arregalava os olhos todas as vezes que minha mãe ofertava uma carteira de cigarros escondida, ela sempre tinha agilidade para esconder sem que ninguém suspeitasse.

Tia Dete - Arquivo de Gillis Lisboa
Titia tinha voz rouca, e um riso gostoso de ouvir, falava pouco e não me recordo de vê-la falando alto. Eu era costumeiramente confundida por uma tia já falecida. Nunca soube se era feliz ou triste, sei que era doce com o mundo e seu olhar na varanda era de quem esperava o amado voltar.

Quando bem menina, íamos aos almoços de domingo, na casa cheia de filhos, netos e agregados, a sala de jantar enchia. As crianças nunca sentavam a mesa, e sim numa escada que dava acesso ao quintal. Vovô também ia conosco. Nunca esqueci o sabor da galinha com batatas servidas, tinha amor como tempero.


Eu nunca soube o que ela gostava e o que não gostava. Nunca ficamos sozinhas, ela tinha um exército protegendo-a e cuidando-a com todo afeto que pudesse existir. As suas mãos fortes tocavam em meu ombro como sinal de cumprimento.Seu olhar comprido esparramava certa delicadeza. Titia me trazia paz.


Itabuna, verão de um ano qualquer.

2 de setembro de 2014

Urgentes

Ontem a tarde voltaram a se ver. Elegante, como de costume e, discreto em seu cinto de segurança. A sua camisa de botão quadriculada com cores leves estava impecavelmente bem passada. Já a calça jeans escura contrastava com a pele clara. No rosto, um óculos que o deixava intelectualmente mais bonito e não permitia esconder o par de contas azuis daquele olhar.
Há muito não se viam. Mas sempre que se encontravam renovava-se o impacto. E, desta vez, mais ainda – porque era a consumação dos sonhos alimentados por meses, por ambos.
A menina proibida, com sua paixão secreta, delírio e loucura de noites insones. Era ela, que com a garganta fechada atravessou estados para esse encontro. Neste dia, se perdeu no caminho, acelerou os passos, pegou um metrô lotado, fez baldeação e foi incapaz de aguardar o curso normal das escadas rolantes. Ela aguardava aquele momento como se fosse o ultimo pedido do gênio da lâmpada.
Deu o  primeiro passo rumo ao carro que a aguardava, sabia dos perigos. Seus pés gemiam a cada passo. Respirou fundo e quase flutuando entrou no veículo. Sabia que, dali em diante não seria mais os mesmos.
As palavras trocadas frente ao ar frio do ar condicionado eram permanentes sussurros, olhares perplexos de desejo e anelo, a pergunta feita por ele foi surpreendida pela resposta rápida e direta:
- Para onde vamos?
- O motel mais próximo, por favor!
O carro parecia mais acelerado, igual a respiração. Asa mãos tocando as pernas do rapaz o deixou levemente inconsciente no trânsito, recebendo sinalizações sonoras de outros veículos. Não havia muito que escolher, no primeiro luminoso avistado a seta à direta foi acionada.
Entraram e a partir dali decidiram serem um até o momento de cruzar a porta novamente. E foram, soltaram as amarras e se entregaram aos beijos cálidos. Realizaram as promessas, ela permitiu que ele fosse o seu novo dono. Sozinhos, numa bolha de lascívia eternizaram amor, sorveram pecados e foram deuses de seus espinhos. O corpo e o rosto eram quentes, como brasas acesas. Fascinados, debruçaram na urgência, foram urgentes. Foram um.
Num instante seguinte os corpos começam a se abandonar, fazia parte do acordo. A silhueta vista entre as luzes que se mexiam, começou a ser a ser cortinada. A lucidez que se prepara para o retorno se junta ao sentimento faminto.

E, afastando-se do carro que o levou para as melhores sensações, ela suspira, sem tristeza. Apenas consciente – mais do que nunca – da sua própria individualidade (e felicidade). 
Na madrugada, em que ainda paira no ar o cheiro de pecado, ela sorrir, pensando: - Naveguei, porque é preciso.



1 de setembro de 2014

Aniversário

Meu avô fez aniversário outro dia, 96 anos. Está lúcido ainda, mas percebo um pouco de desânimo, com o olhar perdido fala constantemente sobre a morte, ele discorre sobre ela com certo cansaço, como quem fica procurando e nunca encontra.

Ele gosta de ficar sentado em sua cadeira, as mãos trêmulas desistiram dos trabalhos minuciosos e hoje repousam sobre o seu colo. A televisão ligada é desinteressante, ouve minha conversa de recém-casada sem muito entusiasmo, mas ainda assim dá um sorriso tímido, como se fosse apenas por mera delicadeza e generosidade de sua parte. As minhas visitas sempre foram diárias e a cada vez que eu cruzo a porta, puxo conversa e faço carinho. Ultimamente ele me responde monossilabicamente. É frustrante, confesso.

No dia em que mudou de ano, não foi diferente. Estava perfumado com a doce fragrância de leite de colônia, os seus cabelos muitos alvos e bem finos compunham a idade avançada, junto com a calvície. O que me incomodava era o seu olhar desbotado, era de quem clama socorro, sem brilho, sem vida.

O presente ofertado mal foi desenrolado da embalagem, escolhi com tanto cuidado, ele apenas encostou no canto da mesa.

Ao vê-lo neste 25 de Abril, pensei instantaneamente no avô do meu tempo de menina, quando ele ainda era mais forte e enxergava com os dois olhos. Naquela época, ele adorava contar histórias – histórias mal assombradas. Nos dias de chuva, vento forte com raios e relâmpagos, ele contava do tempo na roça, do raio na árvore, dos animais que estavam abrigados e morreram e da barcaça que passou por cima da sede por conta do vento. Eu sempre chorava quando ele ia tomar banho nos dias que Iansã guerreava no céu. Tinha medo de um raio acertar a antena que ficava bem em cima do banheiro.

E agora, anos depois, eu continuo sendo a única neta que ouviu todas as ‘contações’, e ele me olhando com o seu quase sorriso, tão quieto. Eu ainda bagunço o seu cabelo, aperto os seus dedos, e quando sento na cadeira ao lado, nada sei dizer. Mas sempre acabo dizendo, digo sobre o amor, o nosso, e só assim o olho que enxerga sorrir pra mim, o outro continua sem reação.

Itabuna, 28 de Abril de um ano qualquer.



PS: Escrevi esse texto pouco antes da morte de meu avô, e escreveria hoje novamente, com todo o afeto que existe em mim.


24 de julho de 2014

Confrontando perdas



Os últimos dias foram, no mínimo, dolorosos por demais para nós brasileiros, leitores ou escritores. Em dias sequenciais perdemos três nomes importantíssimos da nossa literatura, o baiano João Ubaldo disse adeus sem muita conversa, logo em seguida Rubem Alves silenciosamente foi se despedindo, e agora, menos de uma semana de dois nomes relevantes terem partido, um personagem marcante e encantador saudou os céus, o Ariano Suassuna.
Esse comunicado já seria angustiante de qualquer modo, porém, o desprezo nos canais de televisão foi desastroso.
No domingo, dia 20, esperei um documentário mesmo que breve sobre Rubem Alves, no Fantástico, sobre o seu leque de informações e conteúdos durante a sua vida. Uma biografia que compõe uma média de 150 livros publicados, e é referencia em diversas áreas. O programa em determinado momento, anunciou o luto, um mínimo reconhecimento já me acalentava a respeito do educador, teólogo, e pensador contemporâneo [que não é a ‘Valeska Popozuda’], contudo, a menção foi para o falecimento de Norberto Odebrecht, fundador daquela construtora que leva o seu nome. Concedo-me o direito de imaginar que se acaso ele não fosse um escritor e estudioso, mas sim, um cantor de ‘modinha’, teriam concedido não uma nota, e sim, um bloco inteiro, principalmente se for com hits de duplos sentidos e deploráveis.
Sinceramente, eu me ponho a confraternizar mais uma vez com os meus pensamentos libertos: qual a nossa expectativa diante uma mídia que deixa claro maior importância aos empreiteiros do que aos educadores? A imparcialidade perante a morte de Rubem Alves é antagonicamente proporcional sobre a importância concedida à educação no país. Não é rentável e não tem ibope.
Meu doce e educado R. Alves, assim como você, sou apaixonada por ‘Ipê amarelo’, não tenho na frente de minha casa, mas tenho bem perto de mim, na minha infância tinha sim um “balanço numa linda paineira”, semelhante ao seu.
O nosso baiano João Ubaldo Ribeiro foi mais sortudo, fizeram uma reportagem incontestável sobre a sua personalidade. Mesmo assim, mais se falou o quanto era estimado pelos amigos de bar do que falando sobre as suas obras. No entanto, o mais importante, é que ele foi lembrado.
Não deu tempo de retirar o luto do corpo, e Suassuna nos dá uma rasteira grande. O noticiário de sua morte me fez desaguar em choro, uma alma humana que me inspirou lirismo, e fez encantar a todos nós. A emissora tentou se retratar do furo passado e exibiu aquele filme contagiante ‘O auto da compadecida’. Hoje, de certo, “estará numa linda cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda história para nós”.
Estamos órfãos e capengas, por favor, segure Adélia, João, Rubem. Amarre Cecília, Chico e Luís. Apertem os cintos de Paulo, Martha e Fabrício. Conservem os nossos, eternizem todos.


Juliana Soledade é empresária, graduanda de Direito e teologia, autora do livro 'Despedidas de Mim' e edita o site www.irreverenciabaiana.com

25 de abril de 2014

Cem anos, sem você!


Suportar a traiçoeira saudade, costurando em linhas de ouro e bordando com cristais as lembranças rentes a nossa vida, inerentes ao nosso sentimento. Ao mesmo tempo, é a certeza de que vivenciamos as minhas primeiras experiências satisfatórias, inesquecíveis, duradouras, mas que o destino, chamado de morte nos tomou, dizendo: - A sua hora acabou!
À medida que se aproximam as datas chaves, iniciando pelo dia de São Jorge, comemorando o seu aniversário dois dias após e relembrando de sua morte em 60 dias, um filme é relançado em minha cabeça. Esse é o terceiro aniversário sem meu amável avô, depois de muito lamento comecei a aceitar de modo mais sereno a partida do patriarca, visto que a doença e debilitação súbita em um mês doíam demais meu coração.
Os seus aniversários após o seu descanso sempre foram muito dolorosos, porque enquanto 2010 eram de esperanças, os anos seguintes foram de pesarosas lembranças de sua partida e da docilidade de homem comigo. A dolorosa via sacra será encerrada apenas no dia 25 de Junho, data que irei sofrer novamente. No dia anterior a sua morte, me colocou em seu colo e afirmou o amor existente, selamos nosso afeto e perpetuamos o nosso elo. Dizia: - Eu te amo.
"Do que vale o paraíso sem amor?"
No dia de São João culminou o fatídico e que findou com minhas lágrimas, velando um corpo que apenas esfriava à medida que as horas corriam. Neste dia, com o jogo do Brasil na sala do velório, o semblante de esperanças estava ali amarelando, gélido, e eu não pude mais velar o sono dele, vovô me foi retirado abruptamente sem permissão e enterrado debaixo de sete palmos, assim ele o queria.
Hoje estou serena, mas é inevitavelmente impossível não chorar ao relembrar dos seus últimos passos de vida. Foram 21 anos convivendo ao lado dele, mas ao contrário disso, agradeço muito mais pela oportunidade de cuidar com amor do último mês de vida com a existência relâmpago de sua doença.
Neste tempo não sou mais metade, não sou mais sofrimento, tão pouco completo desespero. Essa chaga já cicatrizou, às vezes alternam os dias de maior ou menor intensidade de saudade.

Fico por aqui, Vovô, feliz aniversário, feliz centenário.

Um salve, meu Jorge, meu amado.

28 de fevereiro de 2014

Partejando o luto


A dor da perda descansa enquanto dorme, até o momento do abrir de olhos, coçar a cabeça, sentar na cama, e antes mesmo da primeira oração diária, apoderar da certeza de que não foi um mero sonho, tão pouco pesadelo dos mais inesperados.
Há pobreza no respeito, mesmo que o luto deva ser sentido, poucos conseguem entender. O luto é um trabalho de parto, onde dói a partida, e posteriormente, é preciso conviver com a quarentena. Efeito doloroso, porém necessário para colher a valorização dos risos futuros.
Lembro que quando eu te perdi Vovô, eu me sentia como “uma molha encolhida”, segundo Lulu Santos. A dor era de parto. A quarentena perdurou, e se empendurou em minhas costas, o peso apenas aumentava com o acumular de horas.
Só conseguir atravessar a quarentena quando, recente, abracei algumas fotografias, segurei a sua bengala, sentei na cama onde dormiu por décadas, e por mais terrível que fosse, a sua certidão de óbito já não me dilacerava ao ver seu nome em letras garrafais dispostas naquele documento. A dor passou quando eu passei longos minutos cheirando o seu RG e não existia mais aquele perfume peculiar.
O parto é um exercício exclusivamente solitário, assim como o luto. Para nascer, é preciso sentir as dores, abandonar o ventre ou renascer. Abrir mão das cascas encrustadas é, sem dúvidas, encarar o mundo com outros olhos e aprender a viver nesse novo mundo. A morte é um absurdo, porém aceito silenciosamente.
Não sei quantas lágrimas rolaram quando apenas escutava o seu primeiro nome por vozes alheias, não sei a exatidão de textos citando a saudade por você como referência, também não sei quantas vezes falei sozinha fingindo conversar contigo - disfarçando a falta e cravando a faca em peito -, já pedi a Deus, Buda, Oxalá, anjos, arcanjos, estrelas, até para aquela formiga miudinha para lhe trazer de volta, você Vovô, não veio, nem enquanto estava gélido naquele caixão e as minhas luzes se mantinham apagadas.
A quarenta parece encerrar, quase quatro anos depois. Me apodero da certeza de que ela, a quarenta, está indo embora pela falta de desespero em te encarar enquanto morto. Não compreendo o motivo da inaceitação absurda que foi construída por mim sobre a sua morte, e tão pouco quero compreender. Ela, a morte, doeu mais em mim do que em você. Enquanto serenava com a janela entreaberta e sua alma partia para o encontro com Deus, eu sofria a dor de parto.
A sua partida separou vidas, uniu sentimentos, afastou ligações, contudo Vô, não há culpa sua nisso, nós adultos complicamos, e ao invés de apertar os laços, desfazemos, e aqueles conselhos tão bonitos sobre lealdade, honestidade e verdade ficam apenas nos corações que estavam abertos para os conselhos e a prática com o exercício diário.
Não há mais camisas, meias ou cuecas, não existe mais aquele cantinho organizado do seu jeito, as fotografias não estão mais no lugar, as colchas da família já se foram e os cristais invadiram outra casa. E em breve, o único elo de toda essa lembrança dolorosa será desfeita: os tijolos virarão entulhos. Mas o amor estará muito bem guardado feito uma joia rara da família.
Hoje Vovô, deixo-o em paz, talvez seja uma das últimas cartas escritas em tom de perda. Entretanto, uma perda superada e a lágrima hoje derramada sobre as letras são com um sorriso bonito, iguais àqueles que tínhamos na porta de casa, em que eu sentava no seu colo para admirarmos o cair do dia.

Até breve,

Sua neta, aquela que fazia cosquinhas e lhe beijava no ‘cangote’,


Juliana Soledade