Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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1 de junho de 2016

Lá na AFI..

Iniciei os meus estudos naquele colégio, ainda bem pequena. Foi ali que dei os meus primeiros tombos, que aprendi a rabiscar, desenhar e escrever. Foi ali que aprendi o que era autoridade longe de casa, entre muitos puxões de orelha e pisões no pé, entre castigos de olhar para a parede ou escrever milhões de vezes a mesma frase. Foi ali que aprendi a pular o muro, a descobrir esconderijos e a matar aula. Foi ali que aprendi a ser encrenqueira, a manipular os colegas e fazer ser temida. Foi ali que aprendi a rezar, que me tornar conhecida e que aprendi a ler.

O Colégio Ação Fraternal reúne os meus primeiros passos na vida; dos bons aos ruins, sem distinguir. Dali saíram amigos, saberes e sabores para a minha existência. E mesmo sem frequentar a sala de aula todos os dias, indiretamente continuo adicionando diariamente novos aprendizados. 

Foi na AFI que me permitiram sonhar. De onde saíram os meus primeiros escritos, e lá mesmo foram eternizados. O meu primeiro livro saiu desse colégio, na antiga terceira série. Foram poemas e poesias reunidos. E posso dizer que foi na AFI que também me ensinaram o que é ter sonhos realizados. Tem coisa melhor?

No último dia 25 de maio tive a oportunidade de me reunir entre uma meninada animada para falar sobre literatura, justamente nesse colégio que sempre fui acolhida com os braços e coração aberto.

Ouvidos atentos à oportunidade de ter os seus primeiros contatos com escritores, com olhos que mal piscavam; é incrível como existe a mágica de poder conhecer aqueles que lemos – e admiramos – seja qual for o estágio de vida. Para eles memória, para nós memórias também. Os olhos cintilam independentemente da posição em que estamos.

Confesso que a melhor parte não é ser somente escritora, o mais gostoso é saber que entre milhares de olhinhos curiosos tinha um par de olhos negros brilhando em minha direção, e burburinhando com os coleguinhas ao lado: - é minha mãe!


Nessa arte de juntar palavras eu me transformo todos os dias.  E Quem diria que tempos depois eu me tornaria a escritora mais realizada que possa existir? Bom, ninguém diria, nem eu.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 28 de Maio de 2016.

26 de setembro de 2015

Mães

Nasce uma mãe quando dois riscos no exame da farmácia sinalizam uma gravidez, confirmada pelo ultrassom com os primeiros batimentos cardíacos, a emoção apenas acumula, explodindo no primeiro choro do bebê.
Ao abrir de olhos no nascimento de um filho, nasce imediatamente uma empreiteira:
- Restaurante delivery, primeiros socorros e intuição aguçada. Um polvo, uma máquina de cafuné e nasce uma fortaleza.
Mãe perde o medo de baratas, morcegos e aranhas. São leões famintos prontos a serem desafiados. Se atiram frente aos dragões para a segurança do filho.
A criança poderia dormir diante uma febre de 40 graus, a mãe jamais dormiria. Sempre controlando a temperatura, a tosse ou um suspiro diferente no meio da noite.
Mãe consegue induzir tranquilamente a um filho saltar no meio do oceano sem proteção, a não ser a dela, é óbvio. Filhos abraçam suas mães depois da queda e com apenas um beijo curam as dores do universo.
Filhos podem dormir em outros cômodos, em outras casas, podem estar a milhares de quilômetros de distância. Mãe sempre sabe quando alguma coisa está errada ou no mínimo desconfia que o filho comeu Mc Donalds, quando deveria comer pão integral com suco sem gelo.
Mãe sente a dor como a carne cortando quando não consegue salvar um filho das mazelas do mundo. Como numa situação de emergência, sabe ser uma equipe numa só: médico, paramédico, enfermeiro e motorista.
Somente mãe consegue cantar em sequência e sem perder o ritmo as músicas da Xuxa, galinha pintadinha, Aline Barros e Peppa Pig. Conhece as falas dos personagens nos desenhos, reconhece o Patati e Patatá pela voz, e por mais que reclame prefere assistir junto com o filho. A certeza de que em pouco tempo nada disso mais fará parte do roteiro assusta.
- E os brinquedos são seguros? As mães pensam.
Enquanto os filhos gritam enlouquecidamente para se atirarem aos brinquedos mais perigosos.
Apesar de tudo, pensam que nunca estarão completamente prontas. Desconfiam da médica, do vento ou do sono no meio da tarde. Trabalham fora, cuidam da casa, das roupas e da comida. Preparam com afeto a cama e aprendem a rezar com toda a fé que nunca tiveram. Adormecem antes do previsto, choram escondidas no banho e saem sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
Mães sempre sabem esfrangalhar o seu coração para suturar o do filho. Camuflam as suas dores com um largo sorriso, voltam a brincar de bonecas e carrinhos. Caem, se machucam, e se derretem com um beijo estalado.
A vida segue de um lado com um amor que escancara em forma miniatura, do outro uma mãe sempre exposta aos mais profundos sentidos, rigorosamente consciente do equilíbrio necessário, entre o medo e tentativa da inteireza da maternidade.


Juliana Soledade

9 de abril de 2015

Para Maria 6

Hoje fui acordada com um beijo no rosto e um afago na cabeça, uma maneira apaixonante de desejar ‘bom dia’. Os olhos marejados de quem avançou a madrugada, os cabelos desengrenhados e a voz rouca nas primeiras horas da manhã não foram empecilhos para os elogios conferidos: - Você está linda, mamãe!

Apesar da necessidade de iniciar o dia com as atividades diárias e corriqueiras, nada fiz a não serajustar a princesa de quase um metro e quarenta centímetros no colo e dedilhar em seu corpo as melhores poesias que uma mãe pode ofertar a sua filha. Quando disse que só tinha amor a oferecer, ela respondeu: - Isso é tudo, mamãe. Suficiente.

Quando imaginei que as surpresas de uma quinta-feira chuvosa haviam acabado, ela surge novamente no início da tarde, retira um livro da prateleira da biblioteca e leva para o ballet, disse que leria no intervalo de uma aula para a outra. Não dei créditos a essa iniciativa, mas desejei boa sorte na leitura, mas sou uma tolinha elevada à décima potência, Maria não só leu como me apresentou o resumo do livro com uma letra redondinha e um sorriso estampado no rosto . Atitudes memoráveis e delicadas de uma menina de oito anos de idade. 

Faço esses escritos ao fundo da folha do resumo do livro, apenas para atestar [e registrar] o quanto essa menina me orgulha. Maria me refaz todos os dias e permite a possibilidade de enxergar o mundo com outros olhos, àquele que por vezes se faz esquecidos debaixo do travesseiro; os olhos do amor, do companheirismo, e da fidelidade.

Sim, sou a mãe mais babona que existe por aí.


Itabuna, 9 de Abril de 2015



23 de março de 2015

Para Maria 5

Maria é um labirinto com oito estágios, o eixo está devidamente posicionado no lado esquerdo. Em cada idade foi distribuída uma nova página, que são autônomas, mas ao se integrarem, constituem-se – assim, a figura enriquecedora de pouco mais de um metro e 35 centímetros hoje nos oferta uma visão global.
Imagino-a deste modo para que eu possa ir montando o seu próprio livro, desta forma a vida não lhe será confusa e desordenada, quem sabe, aos poucos terá a sua ficha biográfica devidamente organizada.
Dona de um encanto particular, que é sempre necessário falar de minhas renúncias e declínios para vê-la ascender. Em parte, sinto saudade da presença de quando engatinhava, em outra parte, porque estou convencida de que os primeiros tropeços aconteceram para que hoje soubesse caminhar como a criança forte que consegue ser.
Há ainda uma terceira razão por meu olhar diferenciado, Maria se expressa com elaborada certeza que a existência dela em minha vida se baseia em fluir o tempo presente, e em cada um desses presentes me ajuda a encaixotar o nosso passado e prefigurar o nosso futuro glorioso.
Parece-me sempre bastante necessário não admirá-la de modo linear, o interessante nessa criança é ir descobrindo as suas inquietudes, o avanço de seus argumentos, seus crescimentos pessoais, e táticas de defesa, constituindo um pilar fundamental em sua essência. Permitindo que o seu riso seja o meu bálsamo e conforto.
A vida continua assim, como um livro sempre aberto, para ser completado por múltiplas e diferentes leituras. Desde a pergunta inicial do nosso nome, o porquê de nossos interesses, os diferentes lugares e tempo que nos agregaram lembrança e sim, quais as águas que impregnaram a nossa memória.
Só bem adiante poderei vislumbrar a convergência de duas vertentes ou talvez legados de dois progenitores e, observar como a fusão pode consistir no reflexo futuro. Até lá intensas travessias com companheirismo e dedicação.
Atesto meu sempre amor por você

16 de dezembro de 2014

Para Maria

Não sabia como era segurar um recém-nascido no colo quando engravidei de minha menina. Não sabia me portar como uma grávida; não ia às filas preferenciais, não me incomodava com a barriga. Não sabia dos cuidados pré e pós-parto. Não dei importância aos internamentos emergenciais. Não sabia da importância de fazer um bebê arrotar após a mamada. Pior, não sabia nem como dar de mamar. Não sabia fazê-la dormir, o que me fez te levar no hospital aos berros.
Não me preparei psicologicamente para engravidar. Não esperei a hora, fiz a hora acontecer despreparadamente. Não descansei no dia em que nasceu por não poder permanecer ao meu lado. Desmaiei e quase morri de emoção quando a vi pela primeira vez, mobilizei médico e enfermeiros, enlouqueci a família.
Eu apenas era uma menina com 17 anos que pensava que filho não crescia. Uma menina que trocou a preocupação dos estudos com a de ninar uma princesa. De fazê-la suportar as batalhas necessárias de um início de vida como quem carrega maço de algodões.
Apresentei a vida e a morte, amores e desafetos. Apresentei o casamento e o divórcio. Apresentei o peso da dor e a leveza da alegria. Segurei-te no medo, mesmo estando com mais medo que você. Inúmeras vezes determinei que fosse forte, enquanto fragilizada escondia meus anseios. Dos momentos que estendi o meu braço e colhemos sangue juntas, apenas para lhe dar apoio. Escondi algumas lágrimas, outras te fiz beber do mesmo sofrimento.

Brindamos sorrisos, viagens, passagens, cafuné, sonhos, e diversas realizações. Anunciamos partidas, comemoramos chegadas. Dividimos travesseiros, cobertas e escovas. Emprestei minhas canetas para ver escrever com essa letra redondinha. Ensinei a ler e hoje anda palpitando sobre os livros da biblioteca. Calça meus sapatos de salto alto, põe colar, anel, passa batom, segura o celular numa mão, noutra a bolsa, apenas para reproduzir a mãe cheia de tarefas. Já chorei por não terem me concedido o direito de falar contigo ao telefone estando a milhares de quilômetros longe de você.
E hoje, minha pequena, quando te vejo cheia de planos e de responsabilidade, enalteço. Ver-te menina-bailarina, que me fez aprender a costurar as meias-calças na marra, a cuidar de cada uma das bolhas ou machucados que me apresenta, que me pede escalda-pés depois de um dia intenso de treinos. A mãe que se vira, pinta os sete mais que você só para te proporcionar as realização dos seus sonhos, uma mãe desvairada que chora, toma as dores e luta incessantemente pela razão e pelo seu bem, que é capaz de subir no mesmo palco que você para ajustar os canhões de luz em sua direção e vê-la brilhar.
Aprendi a ser pai, concedi o direito a outros de serem pais, sou mãe aos tropeços, por vezes irmã, na maioria dos momentos amiga. Sempre unidas, como se o cordão umbilical ainda estivesse ligado, mas hoje quem depende do alimento sou eu.
Confesso que rememorar é como tivesse ligado a máquina do tempo, e entre tantas variações de estágios pudemos partilhar de um elo que atrai distintamente, não somente é o sangue, é o amor.
Te amo minha sempre Maria.



Verão, 16 de Dezembro de 2014

1 de novembro de 2014

Sentidos


Era uma sexta-feira chuvosa, concluí os afazeres matinais e fui buscar a menina Maria na
escola, depois de um final de semana agitado entre mar e piscina a garganta da pequena reclamou um pouco, e lá se foram dois dias sem dormir direito e sem comer também. Devidamente medicada com um remédio de embrulhar o estômago, na manhã deixei animada na escola: tinha aula de Tio Luís, a educação física desde o meu tempo de serelepe era a mais esperada. Com Tio Luís aprendi a brincar de baleado, de atirar bolas na cesta do basquete, bandeirinha e cabo de guerra, dificilmente escapava desta aula. Maria envereda pelo mesmo caminho.
A foto foi no outro dia, sem chuva!
Em dias chuvosos, as crianças não vão para o pátio, e sim em suas salas ou no corredor. O pátio não tem cobertura, em verdade nunca teve, e é esteticamente bonito pelas árvores, os canteiros bem tratados, as flores e a possibilidade dos alunos se sentirem fora da gaiola. Além de ser a terceira geração na mesma instituição de ensino, o ponto chave para matricular no início de sua vida escolar, foi justamente esse espaço interessante.
Pois bem, o dia mesmo em seu pé de água não tirava a minha vontade de ver o dia bonito, até o momento em que cruzei o portão e delicadamente subia as escadas para buscar a danada menina que navegava feito um avião com os bracinhos abertos pelo pátio superior, sim na chuva, soltando gritinhos do tipo: uhuu!!!
Maria era a sensação, outras coleguinhas admiravam a sua coragem, e diziam: - corre mais, Fernanda. E Fernandinha corria, liberta, solta feito um passarinho que passou a sua vida preso. Alegria durou pouco, a minha presença provocou uma aterrissagem de emergência, e com os dedos acertadamente encaixados na orelha, uma ordem foi dada: -pegue seu material e passe aqui!
Confesso eu quis gargalhar, depois do puxão de orelha, fiquei imaginando o quanto minha mãe suportou os meus aprontes. Enquanto Maria recebe elogios contínuos sobre a sua conduta, minha mãe recebia reclamações diárias com direito a castigos intermináveis de Tia Graça, de certo, era apenas quando ela me alcançava.
Enquanto dirigíamos ao carro, ameaças surgiam, não era a bruxa má, mas era uma mãe brava que trocou noites para monitorar o seu sono, e para buscar a todo custo uma medicação compatível a sua dorzinha. Mas as ameaças cessaram, depois de dez minutos que passamos dentro do carro pensando no errado que ela fez, desbravei o silêncio perguntando: - A chuva estava boa?
De cabecinha baixa ela responde: - Sim, mamãe, estava geladinha!
Queria ser criança, queria ser estudante de primário, queria ser uma coleguinha de Maria, assim poderíamos correr na chuva, com o vento no rosto, gritando e ouvindo a alegria a cada gota chuva que pingasse em nosso corpo.

Vovô dizia: quem herda não furta, nem degenera a raça.  Vovô sempre teve razão!

26 de fevereiro de 2014

Frustação

Espantada, chateada e muito irritada, foi assim que fiquei a receber a primeira reclamação de Maria, ao longo dos seus cinco anos de vida escolar da pequena.
Apesar de dispersa, nunca me deu problemas, as queixas das ‘tias’ sempre foram por preguiça ou querer conversar demais na aula, não vejo nada de tão grave nisso, apenas reaver a conduta para que melhore o seu desempenho, dentro e fora da classe. Isso eu tenho feito até hoje, com ajuda, inclusive.
Vivemos debruçadas sobre uma rotina, ainda que cansativa e exaustiva, com o passar da semana nos alegra por encaixar atividades que realizamos com estima, seja o ballet e jazz dela ou o meu momento de escrita, quer o sapateado ou o meu happy hour com amigos, ora a fugidinha para um sorvete ou brincar juntas de patins no final de tarde para alegrar o dia puxado. Compensações que esvaziamos nossa mente de tantos afazeres obrigatórios.
Com tabela de horários a serem cumpridos, vou buscá-la na escola, e sou surpreendida com a reclamação de uma mãe da colega de Maria, minha menina desferiu palavrão a coleguinha e indiretamente a mãe. Uma típica briguinha de meninos nessa idade. Por Maria discordar de uma coleguinha, ela bateu em minha pequena, que revidou e a ‘briguinha’ se tornou um lançamento de xingamentos de um contra o outro.
Não temos hábito de insultos ou ridicularizar o outro com palavras de baixo calão e, muito menos andamos nesses ambientes. Repudio atitudes e dizeres desse nível. Entretanto, longe dos nossos olhos, muita água rola debaixo da ponte, principalmente no recreio escolar.
O fato é que foi dito e gerou desconforto em ambos os lados. E apesar de todo esse mal estar causado regado a muito choro e diálogo, Maria pensou logo como amenizar a situação: escrevendo uma cartinha de desculpas para ela e a mãe. Escreveu ontem à noite com muito carinho e boa vontade, eu corrigi, ela passou a limpo numa folha bonita, decorou e deixou prontinha para entregar a coleguinha hoje pela manhã.
A reação de Maria ao sair de casa com a cartinha era de alegria por conseguir pensar em uma solução, contudo, o esboço ao pegá-la na escola não foi das melhores. A coleguinha leu, rasgou e jogou fora a cartinha. Mesmo que tenha feito a malcriação, ela entendeu que a atitude merecia um pedido de desculpas.
Infelizmente minha pequena lidou hoje com umas das primeiras frustadões de sua vida.
Aos poucos, ela entenderá que nem sempre o arrependimento vai selar a dor, mas que o perdão sempre será o remédio para o machucado, mesmo que demore de sarar.

Vida que segue.

20 de fevereiro de 2014

Um metro e trinta centímetros

Um metro e trinta centímetros, essa é a nova altura da pequena, revelada na consulta com a médica.
Impossível não me assustar, pode até parecer exagero, mas remetendo as lembranças de sete anos atrás, você tinha apenas 48 cm. Eu, prematura na função de ser mãe, sequer conseguiria te imaginar com todo esse tamanho. Exagerada podem me chamar, mas qual a mãe que não chama o seu filho de bebê e enxerga como tal? Contra gosto sou chamada até hoje de bebezão(!!!)
Enquanto imatura na tarefa te acolher como filha, não fazia e não faço contas de como essa eterna menina vai se revelar em alguns anos adiante. Mãe faz conta de quando o filho está longe, de quanto tempo precisa medicar, dos minutos que demora no banho, do tempo de riso e alegria pela surpresa. Mãe não pensa "eu quero ter trinta para você ter doze."
Um metro e trinta, dois dentinhos moles, 3°ano na escola, bailarina e um coração maior do mundo. Nem tão pequena no tamanho, mas uma imensidão de amor cerca ou liberta as nossas vidas.
Você pequena, me deixa sem respirar algumas vezes, me faz gargalhar com suas perguntas e afirmações, me desespera e me faz doar o melhor de mim.

O 'estou contigo' de hoje, garante o educar, colaborar, ajudar, empenhar e amar tão intensamente que voltarei a ficar sem respirar por mais algumas vezes.

16 de outubro de 2013

A banalização da vulgaridade e a infância [praticamente] perdida

Li hoje uma frase que achei tão sensacional, tão sensacional, que imediatamente minhas conexões neurais dispararam, fazendo associações as mais diversas. Bom, sem mais falatório, ei-la: "O luxo não está na riqueza e no excesso de enfeites, mas na ausência de vulgaridade(Coco Chanel)





Parece bobagem, porque é uma frase de um ícone da moda, e moda [para alguns] seria mera futilidade. Muito longe disso, a frase casa com outra coisa que acabei compartilhando lá no Facebook, e colaciono aqui:



Vivemos uma triste realidade atualmente: vulgaridade banalizada. Não sei se eu sou conservadora, ou se os valores estão sendo invertidos, à medida que o tempo passa. Nossas crianças são expostas, desde praticamente o ventre, à programação massiva da tv, excessivamente violenta e pornográfica. Confesso que fico chocada quando vejo uma criança repetindo passinhos ou cantando "Anitta", ou ainda, as letras machistas e desvirtuadamente erotizadas do carro-chefe das rádios aqui no Nordeste, inclusive o axé.

Para mim, ao contrário da maioria, é decepcionante ver a inocência se esvaindo em meninas cujas roupas estão, cada dia menores e cada vez mais cópias do vestuário adulto. 

Até salto alto as pequenas já usam. Morre um pedaço de mim quando escuto uma criança cantando "lek-lek", como se estivesse cantando uma cantiga dessas que permeou minha infância. Sim, porque a criança não sabe distinguir uma da outra, então só repete aquilo que ouve, reproduz os estímulos aos quais é exposta. Então não pense que ela passará incólume ao seu rádio sintonizado numa dessas fm's de massa. E um futuro não muito distante vai mostrar que eu tenho razão, e você provavelmente vai se arrepender.

Na mesma direção, o fato de ignorar a classificação etária da programação de tv, especialmente os canais abertos. Se as novelas causam espécie as adultos, imagine o que faz com as cabecinhas em formação; aliados, claro, ao ambiente familiar, escolar, social... a combinação pode ser catastrófica. Então, papais e mamães, voltem seus olhares ao mundo que vocês estão oferecendo aos seus pimpolhos. Será que a tv precisa ficar o dia inteiro ligada, a ponto de a criança saber de cor e salteado a grade de programação? É realmente necessário ouvir músicas de duplo-sentido quando a criança está por perto? 

Não seria o caso de incentivar a leitura, estimular a criatividade, ou mesmo o básico, que é mostrar interesse na rotina da criança? Criança precisa de atenção direcionada (não é a presença no mesmo ambiente, é a-t-e-n-ç-ã-o), ouvir música de criança, ver programação de tv para criança, enfim, ser criança. Os ganhos virão em curto prazo, e tendem a ser positivos e perpetuados.




Crédito para a Tati

26 de março de 2013

Plié, Demi-plié, Derriére, Developpé ...


Eu quando criança sonhava em ser bailarina, me via em sapatilhas, meias rosinhas, coque no cabelo e aquela saia rodada. O fato é que a nossa condição financeira não permitia que esse sonho viesse a ser realizado. Lembro que na época (não faz tanto tempo assim!), o custo era alto, esse esporte feminino cercava apenas a classe mais favorável. E assim sendo, se tornava um luxo quem poderia fazer.

Recordo-me de milhões de promessas feitas a mim por minha genitora para dançar, só que no ano em que obtive essa decisão positiva, o grande bailarino viera a abandonar esse plano  e aquela academia de dança na Av. Nações Unidas, assim como os planos que eram feitos a mim partiram junto com ele.

Enquanto isso, estudava na AFI  tinha várias colegas que faziam na renomada Tchu e Cia. Lembro-me de Samilly, Cely e Natália, se produziam tão lindamente que eu ficava a admirar a beleza de ser bailarina. Como lá em casa não haviam ‘birras’ nem revoltas, quando não podia, respeitávamos. Não podia e pronto, mesmo com as sapatilhas de ponta rodeando os meus sonhos.

De tanto sonhar capotei no sonho vindo a ‘me realizar’ depois de passado o processo de meninice, dancei durante um período e parei por aí. As inúmeras atividades profissionais e acadêmicas falaram mais alto e o projeto bailarina foi abandonado.

Entre as colegas, duas delas: Samilly e Natália se tornaram proprietárias de academias de dança, fazem o que amam, com entusiasmo e tenacidade. Admiro muito todo o empenho de ambas.

Ser mãe de menina me colocou na condição de realizar um sonho (Ok, a terapia explica que não podemos fazer isso), mas a alegria em questão é saber do quão dedicada sua filha se impõe dentro de toda indumentária.

Chorei, vibrei, vieram sorrisos e satisfação ao vê-la dançando lindamente e sem se importar com uma platéia enorme em seu primeiro festival. Uma postura impecável, os passos bem treinados, ela com um contentamento radiante e eu como a mãe mais abobada que pudesse existir naquele Centro de Cultura.

Ainda hoje, intercalando as atividades profissionais com o facebook aberto, recebo algumas informações do desenvolvimento da pequena que se divide em aulas de Balé clássico, sapateado e com o olhar insistente no Jazz.

As noticias são as melhores, uma criança de seis anos que frequenta todos os dias o estúdio de dança, tenta sapatear escondida em casa com aquele sapato do barulho agradável, super dedicada, aplicada em suas aulas, com um desenvolvimento surpreendente e um senso de humor que todos elogiam. Professora contente com o progresso da pequena e já pensando em adiantar de turma.

Falando em professora, ela é Natália, foi colega na escola, bailarina desde a barriga da mãe, com um talento belíssimo e muita garra para também realizar os seus sonhos e de outras tantas meninas e meninos que compartilham no mesmo estúdio.

Mariazinha como é chamada por lá, é muito feliz com tanto carinho que recebe dos colegas, das professoras e da família Azevedo, como mãe agradeço eternamente.

Eu tenho a discordar da terapia quando diz que não podemos realizar os sonhos em nossos filhos. Ela faz o que ama, eu a deixo fazer o que amamos.  

Em questão, o estúdio de dança Natália Azevedo se encontra ao lado do Hospital Manoel Novaes, o telefone é (73)3613-7274

Tenho dito, tem coisas que devem ser registradas!

Juliana Soledade

27 de fevereiro de 2013

Jeito Mãe de ser


Hora cheia, meio dia. Após deixar o turno do trabalho e ir buscar a filha na escola, ainda no carro, sou surpreendida com questionamentos e confidências que me deixaram com o cabelo em pé.
- Mãe, preciso te contar uma coisa que aconteceu – Assim diz a menina com a voz doce e suave.
- Diga filha. - Arqueando as sombrancelhas e tentando enxergá-la pelo retrovisor.
- Neto, meu colega, me pediu em namoro – Disse colocando as mãozinhas no rosto.
- Como? – Pergunto perdendo a marcha, acionando a seta e tentando encostar o carro.
- Sim, mãe, ele me pediu em namoro. – Respondendo pausadamente.
- E você? O que disse? O que sentiu? – Passo as mãos pelos cabelos com a mente confusa.
- Ele me abraçou e, eu falei que gostei do perfume dele – Ela responde vermelhinha.
- Então? Aceitou o pedido de namoro? – Desejando internamente a resposta negativa, mas como sempre, ela me deixa pasma.
- Mãe, eu disse ‘mais ou menos’.
- Mais ou menos, filha? – O que seria namorar ‘mais ou menos’, penso eu. Pedindo aos anjos a maior serenidade e calmaria naquele momento.
- Sim, mãe, ‘mais ou menos’. Ele brinca com os amigos dele e, eu brinco com as minhas amigas. Mas, ele me abraça de vez em quando.
Retornei a pista, guiei o carro dispersamente entre as melodias que ecoavam das caixas de som, e uma série de pensamentos que inundavam a minha razão ‘Mãe de ser’. Apesar de receber os confortáveis ventos frios do ar-condicionado, minha Maria continuava vermelha, como os quase 40 graus que se mantinham no exterior do veículo. Permanecemos mudas.
Ao acionar o portão eletrônico e aguardar ele abrir, passo os olhos no retrovisor e a vejo entre o cinto de segurança aguardando alguma fala minha, o olhar sereno confortou a menina que me confidenciava os primeiros flertes da vida dela. Ao descer do carro sou surpreendida, mais uma vez, recebo o abraço caloroso e agradável, ela encaixa a cabeça no meu peito, de modo que pode ouvir o meu coração e diz:
- Mamãe, eu te amo, não fica brava comigo. – Ela diz com calmamente com a voz mansa, mas com inquietude.
- Eu te amo, filha. E não ficarei brava. – Recebo outro abraço, ainda mais apertado, com afeto e minhas lágrimas.
As recomendações, dicas, conversas, mais confidências, diálogos com o ‘mais ou menos’, estão vindo, dia após dia. Eu continuo imersa de pensamentos que não consigo explicar, uma emoção de ver a filha crescendo e as responsabilidades caminhando lado a lado. Contudo, o companheirismo e cumplicidade ‘mãe-filha’ é a minha maior satisfação, claro, a orientação, razão e os cuidados são maiores do que sensação de curtos momentos de comoção. 

Juliana Soledade
Itabuna/BA, 27 de fevereiro de 2013