Bacharel de Direito, estudante de Teologia, pós graduanda de Direito, escritora, empresária e blogueira. Quase mulher, quase gente, quase anjo, quase santa. Apaixonada por nuvens e mar. Nem muito doce e nem tanto amarga. Feita de carne, osso, pele, cor e poema.

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15 de outubro de 2016

Entre vítimas e culpados

Não ser uma homicida não faz de mim uma pessoa melhor. Não ser latrocina não me transforma em alguém mais honesta ou melhor do que qualquer outra. Calma!

Essas são atitudes que não tenho qualquer vontade de fazê-las. É uma conduta consciente, um acordo selado que envolve a moral e costumes que não me traz a vontade de realizá-las.

Existem outras atitudes que podem fazer de mim uma perversa. O mal nas coisas que não enxergo e não compreendo dos sinais ao meu redor. Explico: o mal existe quando não aperto a mão de um subordinado porque ele é inferior a mim. Quando não me preocupo com o caixa da quitanda que já faz quinze dias que não o encontro em sua ocupação habitual, no copo d’água que deixei de oferecer a quem não teve uma boa notícia ao falar ao telefone.

Na minha cabeça o perverso sempre habita no outro: quando me oferecem o troco errado [e eu já imagino ser propositalmente, nunca que ele possa está abalado por algum motivo]; quando furam a fila [e eu sempre penso que es
teja querendo tirar vantagem, sem compreender que ele possa está acometido de alguma enfermidade]; quando envio um texto dedicado e não tenho resposta, afinal destinei meu tempo e palavras do dicionário e a pessoa não me concedeu nem um sorriso amarelo [nunca quero pensar que a pessoa simplesmente não goste de ler ou que esteve abarrotada de trabalho].

Claro, estamos SEMPRE buscando justificativas para nos absolver de um júri formado em nossa cabeça. A culpa é sempre do outro, a minha culpa deve ser anistiada em primeira instância. Estou reagindo, antes que seja tarde demais, a cada vez que a minha cabeça tenta me absolver e absolvo o outro, talvez a perversa seja eu se agir diferente. Não estou querendo buscar a vítima e o culpado nas mais diversas situações que nos acontecem.

É uma mania de obrigar aqueles que nos rodeiam a nos recompensar pelo bem que achamos que fizemos, ou quando temos atitudes negativas precisamos ser entendidos, porque tudo tem um motivo e tivemos os nossos para agir assim, do contrário é muita crueldade.

Pomos o culpado numa cadeira elétrica e damos a pena mais pesada por suas batalhas e sempre tentamos convencer aos jurados sobre as nossas possíveis finalidades a fim de que nos seja concedido não uma pena, mas uma benesse em público, sim, sempre em público.

Se colocar na cadeira do culpado é difícil, sobretudo quando falta empatia, quando os olhos não são capazes de enxergar o que acontece em nossa volta, quando somos tão desatentos que convidamos o ego para ser o nosso par.

Juliana Soledade


Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 15 de Outubro de 2016.

21 de setembro de 2016

Agulhas: a eterna saga

O médico sinaliza a necessidade de alguns exames. Me mantenho em jejum após as 22:00 horas, uma fome descontrolada por saber que eu não posso mais comer. Acordo três vezes na madrugada me dirijo até a cozinha, abro a geladeira e bebo água, apenas. Acordo com mais fome do que o normal e me apresso.

Após a preparação psicológica para enfrentar as agulhas, encaro o caminho do laboratório. Mãos frias, sudorese por todo o corpo quando o meu nome completo é acionado pela enfermeira com cara de poucos amigos.

Pede que eu me sente, acomode a bolsa e relaxe o braço. Relaxar é a única coisa capaz de fazer naquela manhã de terça-feira. Ela põe o garrote no braço, e eu quero fugir da cadeira. Prepara as seringas, coloca a A-G-U-L-H-A e pede que eu feche a mão. Duas lágrimas de cada olho, não, pera, são três. Não é possível que ela ainda vai tentar encontrar minha veia com a agulha em mãos. Não tem mais nenhum vaso para contar história, só tem um corpo estático com taquicardia, choroso e desesperado.

A pressão despenca, trazem um copo de água, um pouco de conversa até que veia trai a minha confiança e surge no dorso de minha mão. Primeira espetada e já estou passeando entre os anéis de Saturno. A sala ao lado percebe o meu tímido choro, a enfermeira perde a veia, eu digo que vou embora. Me arrependo, volto, outra enfermeira me atende e refaz todo o procedimento. Minha filha segura na minha mão e garante que não vai doer, mas dói e como dói. Sinto o meu corpo inteiro formigando ao ver quatro seringas cheias de sangue, me sinto anêmica, nem precisa mais de resultado. Peço duas bolsas de sangue para repor tudo o que foi tirado, todos riem. Eu continuo chorando.

Minha menina contou e disse que foram 35 segundos para as quatro seringas, eu contei 5 horas ininterruptas e fui uma verdadeira almofada de alfinetes. Sorry, baby!

Na saída do laboratório me entregaram um comprovante com acesso ao resultado pela internet. Ótimo! Dois dias depois começo a via sacra, cada dia libera um exame diferente e eu encaro as telas do Dr. Google para descobrir cada doença que me ronda, a cada pesquisa os sintomas se assimilam. Começo a ler os artigos científicos, pesquiso sobre sintomas de forma individual, não batem com o resultado, mas continuo pesquisando, encontro os remédios para curar a tal doença. Entro em pânico. Aviso que estou nos últimos dias de minha vida, faço plano funerário, testamento e declaração de últimas vontades.

Corro para o consultório com todos os resultados em mãos, ao entregar o exame de cabeça baixa ao médico ele sorri e alega tudo bem com os resultados, eu sorrio junto, ao menos valeu a pena todo o esforço [e desespero], guardo minhas neuroses e vou embora.


Juliana Soledade

28 de agosto de 2016

Meritocracia

Era um caminho normal, acordar aos sábados e antes de ir ao trabalho passar na padaria e comprar os jornais do fim de semana, logo depois fazer à conhecida ‘fézinha’ no ilegal jogo do bicho na porta do estabelecimento e encarar o dia de trabalho mais tranquilo da semana. Era realmente para ser um sábado qualquer, mas ao estacionar o carro um pedinte antigo da cidade, no entanto jovem na idade, encostou e pechinchou:

- Tia, me dá um real? – Seu bordão famoso.
- O que vai fazer com o dinheiro? – Questionei

Eu sou um pouco avessa a entregar dinheiro, sempre pergunto como vai gastar a quantia e se for algo que possa comprar, vou lá, compro e entrego.

Nesse dia, ele me disse que gostaria de comprar um café, logo o convidei para tomarmos café juntos, mesmo com a ausência da fome. Entrei na padaria, pedi dois cafés duplos com leite, e perguntei se ele encarava um misto. Seus olhos brilharam e concordou silenciosamente.

Percebendo que ele permanecia em pé o tempo inteiro, fiz um convite a se sentar:

- Não doutora, quero não – E foi se aproximando da porta da padaria.

Cheguei bem próximo e alertei de que nós dois poderíamos nos sentar e que era um direito de nós consumidores, mas ele recusou, veementemente apreensivo. A atendente também não gostou da minha proposta, passou a nos olhar de cara feia e nos tratar com rispidez.
Peguei os mistos, paguei a conta e saímos. Perguntei aonde iria se alimentar e apontou para a calçada, questionei se poderia dividir o momento, e ele afirmou com a cabeça.

Sentamos nós dois no meio-fio da calçada da padaria e tomamos nosso café. Conversamos por mais uns 20 minutos. Ele me contou que tem dias que faz apenas uma refeição, depende de alguém para ajudar no dinheiro, ou com algum serviço ou com comida. Eu faço todas as refeições e metaforicamente, de modo imediato, levei o primeiro tapa na cara.  Ainda me contou que mora numa casa abandonada, e eu moro em casa própria sempre inventando uma benfeitoria aqui ou ali. Segundo tapa. Ele me tratou de forma respeitosa e grata em cada momento do nosso café, mais um tapa, por acreditar que um pedinte sempre vai nos roubar. Cada um seguiu seu rumo, não antes dele me dizer que o dono e os atendentes não gostam de pobre, e que sempre é mal tratado. O último tapa, afinal sempre fui muito bem recebida e nunca me olharam ‘torto’.

- Já eu não gosto de pobreza de espírito – Salientei.

Deixei de frequentar a padaria, menos o jogo do bicho ainda que permanece na porta e eu continuo insistindo na ‘fézinha’, entretanto hoje de uma forma diferente: que o respeito exista independente de sua classe e que eu acerte no jogo. Porque a vida, meus caros, é muito dura fora da bolha, e carece de doses de sensibilidade no cotidiano.

Juliana Soledade


Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 27 de Agosto de 2016

9 de julho de 2016

Aos olhos de uma canceriana

Canceriano apesar de astuto fica magoado num piscar de olhos. E dessa mágoa nunca esqueceremos, pode ser um salgadinho que você não ofereceu em 2000. Anos adiante vamos dizer em tom de ameaça: “e depois de tudo que eu fiz por você...”.

O canceriano se doa sem reservas, mas quando feridos se fecha como uma concha, que nem o mais potente maçarico é capaz de abrir. Não olhem torto, não diga o não de forma ríspida, não o ignore sem motivos. Se tiver razões, o abrace. Se não tiver, o abrace também.

Canceriano tem uma memória incrível. Será um mestre em gravar datas que não são importantes, placas de carro dos amigos, o CPF do pai, do namorado e a data de emissão do RG.

Canceriano vai ter TOC, antes de sair de casa vai verificar se as janelas estão fechadas, se desligou o fogo e se trancou o portão, mesmo assim retornará da metade do caminho para conferir novamente. Canceriano gosta de lar, não é de casa, mas sim do conforto, aconchego e segurança de um lar.

Cancerianos são românticos até o último suspiro, difícil de desistir de um amor. Finge que esqueceu, bloqueia o número de telefone, faz cara de paisagem, mas no fundo sempre acredita nos recomeços. E quando se entrega é com a alma, com o coração, quando magoados se enclausuram completamente, até reunir todos os caquinhos, costurar todos os retalhos e formar uma linda colcha para aquecer novamente.

Não, não existe ninguém mais emocional. Temos dois corações ao invés de um, somos o transbordamento do excesso. É ser filho do mundo e ao mesmo tempo acolher debaixo das asas quem tem um lugar registrado no peito. Canceriano é uma emoção que ninguém entende: é choro no riso, é choro na dor, é choro na despedida.

Amamos a água. Há quem nos confunda com peixe ou sereia. Há aqueles que sentem admiração incontínua pelas águas, seja doce ou salgada; é sempre uma entrega sem precedentes, e justificativas. É  do signo, vai por mim.

Cancerianos detestam ser esquecidos, seja na escola quando pequeno, no compromisso marcado, ou a data do aniversário. Se você tem um amigo canceriano, não esqueça a data do seu aniversário, ele só esquecerá a sua por algo muito relevante. Sabe aquelas mensagens prontas? Não envie para ele, diga de verdade o que o seu coração mandar, e ele saberá.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 09 de Julho de 2016

Aos olhos de uma canceriana

Canceriano apesar de astuto fica magoado num piscar de olhos. E dessa mágoa nunca esqueceremos, pode ser um salgadinho que você não ofereceu em 2000. Anos adiante vamos dizer em tom de ameaça: “e depois de tudo que eu fiz por você...”.

O canceriano se doa sem reservas, mas quando feridos se fecha como uma concha, que nem o mais potente maçarico é capaz de abrir. Não olhem torto, não diga o não de forma ríspida, não o ignore sem motivos. Se tiver razões, o abrace. Se não tiver, o abrace também.

Canceriano tem uma memória incrível. Será um mestre em gravar datas que não são importantes, placas de carro dos amigos, o CPF do pai, do namorado e a data de emissão do RG.

Canceriano vai ter TOC, antes de sair de casa vai verificar se as janelas estão fechadas, se desligou o fogo e se trancou o portão, mesmo assim retornará da metade do caminho para conferir novamente. Canceriano gosta de lar, não é de casa, mas sim do conforto, aconchego e segurança de um lar.

Cancerianos são românticos até o último suspiro, difícil de desistir de um amor. Finge que esqueceu, bloqueia o número de telefone, faz cara de paisagem, mas no fundo sempre acredita nos recomeços. E quando se entrega é com a alma, com o coração, quando magoados se enclausuram completamente, até reunir todos os caquinhos, costurar todos os retalhos e formar uma linda colcha para aquecer novamente.

Não, não existe ninguém mais emocional. Temos dois corações ao invés de um, somos o transbordamento do excesso. É ser filho do mundo e ao mesmo tempo acolher debaixo das asas quem tem um lugar registrado no peito. Canceriano é uma emoção que ninguém entende: é choro no riso, é choro na dor, é choro na despedida.

Amamos a água. Há quem nos confunda com peixe ou sereia. Há aqueles que sentem admiração incontínua pelas águas, seja doce ou salgada; é sempre uma entrega sem precedentes, e justificativas. É  do signo, vai por mim.

Cancerianos detestam ser esquecidos, seja na escola quando pequeno, no compromisso marcado, ou a data do aniversário. Se você tem um amigo canceriano, não esqueça a data do seu aniversário, ele só esquecerá a sua por algo muito relevante. Sabe aquelas mensagens prontas? Não envie para ele, diga de verdade o que o seu coração mandar, e ele saberá.


Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 09 de Julho de 2016

19 de junho de 2016

We are Brasil

O tal do modismo nos empurra para um abismo desleal. Por vezes eu tenho a sensação que estamos pragmaticamente perdidos.

Perdoem-me senhores, mas não vi manifestação além das fronteiras sobre o maior desastre ambiental do Brasil em Mariana/MG, sobre aquele menino do Rio de Janeiro, João Hélio, nem sobre o estado crítico de nossa política. Não vi que “we are” para o estupro coletivo, não vi “we are” para a modelo e apresentadora Ana Hickman, não vi “we are” para as vítimas da boate Kiss. Entenda, anunciar o fatídico é uma coisa, ter comoção generalizada, é outra bem diferente.

Será que somos todos Brasil depois do último jogo da seleção que levou a sua desclassificação da copa América? Será que somos todos Brasil com essa vontade de mudar de país pela quantidade de impostos e essa crise de desempregos? Será que somos todos Brasil com essa violência desenfreada?

Ninguém foi Brasil com a famosa derrota dos 7x1, ninguém foi mais Brasil com a votação do impeachment, ninguém foi mais Brasil quando retiraram os cobertores dos moradores de rua de São Paulo, enquanto os termômetros seguiam em temperaturas baixíssimas. Ao contrário, fomos menos e estamos menos.

Mas vejo pessoas extremamente sensibilizadas pelos atentados que ocorrem pelo mundo afora. Nas punições de outros países. Nos crimes de outras nacionalidades. O brasileiro é aquele sujeito solidário, que sabe ser um leão na rede social e um gatinho frente aos problemas sociais.

Não é colocar uma bandeira colorida em rede social e pensar que já deu sua contribuição social para a humanidade, sendo que aqui continuará sendo homofóbico e odiando os gays. Ninguém que ser da favela, do morro ou de um vilarejo. Ninguém que ser benevolente com vítimas do desabafamento da igreja evangélica.

Em ano de eleições percebo que levaremos mais rasteiras com essas atitudes. Enquanto não abandonarmos o pensamento mesquinho, e abraçar o plural, teremos muitas dores de cabeça.

Amigos, é fácil se convalescer com a dor do outro, contudo, precisamos ser mais Brasil, onde se mata negro, favelado, mulheres e crianças TODOS OS DIAS. É preciso se comover com a criança que pede esmola. O SUS mata TODOS OS DIAS pela falta de medicamentos e equipamentos básicos. O terrorismo aqui é ver pacientes jogados em corredor por falta de leitos.

Precisamos de “Pray for Brasil” e que isso venha do mundo inteiro.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 18 de Junho de 2016.


*We are: somos todos (tradução livre)

*Pray for Brasil: Reze pelo Brasil (tradução livre)

11 de junho de 2016

Que dure apenas enquanto fizer bem


Amadurecer significa abandonar algumas certezas e frear alguns atos e emoções. Não faço mais questão de altar e vestido de noiva, tampouco de uma aliança com generosas pedrinhas de brilhantes. Isso não me deixa enlouquecida. Não mais.

Em tempos de liquidez, amor com compromisso é ouro, isso me faz feliz. E não precisa de registro no cartório ou testemunhas no altar. Serenidade é encontrar a paz com felicidade, sem qualquer formalidade definida. É ter confortáveis braços a se entregar, é ter certeza de que não necessitamos de provas ou argumentos para atestar que um tem o outro.

Aprendi a abrir mão de determinados festejos para manifestar a minha ou a felicidade somada. Quando guardamos em segredo, aliviamos o martírio de alimentar a curiosidade alheia. Quem conhece intimamente, entende o amor e isso é o suficiente. Os não tão chegados percebe o brilho nos olhos. Isso basta.

O juízo assina uma parceria com o equilíbrio quando percebo que não procuro mais um marido, um namorado ou alguém para chamar de meu numa cerimônia pomposa. O tempo nos apresenta o significado da palavra companheiro, e de forma harmônica proporciona lealdade e união. Ser companheiro é excluir os rótulos e completar institivamente o outro sem insistentes cobranças.

Os presentes caros não me são importantes, a minha importância nos dias do outro é que sempre me fizeram ser diferente. Não são fotos, registros, ou comemorações em dias especiais que nos fazem melhor. A diferença se completa em ser ‘sequestrada’ em uma sexta à noite e ser devolvida despretensiosamente numa segunda-feira pela manhã direto no trabalho com a alegria evidente no rosto. Não quero fotos de sorriso forçado ou declarações na asa de um avião. Quero lembranças, partilhas e entregas, sempre!

Evoluir me fez perceber que eu nunca estive verdadeiramente em busca de um marido para seguir protocolos. Os insucessos de duas tentativas convieram para evidenciar que a vida partilhada com as tantas regrinhas quebradas é mais muito leve.

Amadurecer é também compreender que o eterno seja somente o que tiver que durar, enquanto nos fizer bem. E dentro de toda a serenidade das nossas vidas, desejar ser apenas de uma única pessoa.

Feliz dia dos namorados-companheiros-xodós-amasiados!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 11 de Junho de 2016.

23 de abril de 2016

Mulheres do lar

Há alguns anos atrás quando dava entrada nos papéis de casamento no fórum, a servidora indagou algumas informações para dispor no documento do casório. Animados, até então apaixonados e decididos sobre o nosso futuro respondíamos sem titubear sobre os dados questionados, exceto quando a pergunta foi sobre a nossa ocupação. Ele, todo pomposo relatou a sua atividade principal ($$), enquanto na minha vez fui interrompida sem direito a replica: “ela é do lar”.

Confesso que senti a carne cortando quando ele deu essa afirmativa, primeiro porque não apenas tinha ocupação, como havia planos muitos maiores que eram sucumbidos, e em seguida percebi o papel que deveria exercer.

Ao visualizar a reportagem no estilo de Revista Caras como se fosse uma coluna social, porém dentro da Revista Veja, me senti dentro de um casamento que não suportou 45 dias e que precisei abandonar o barco antes que ele afundasse por completo.

Simone de Beauvoir uma filosofa intelectual afirmou: “que a liberdade seja a nossa própria substância”, e isso cheira ao século que estamos inseridos. Por favor, não confundam as bolas, a mulher pode ser sim quem ela quiser, ela só não pode ser obrigada a agir de forma diversa como gostaria.

Relembro que para não contrariar o quase futuro marido permaneci calada, ele não gostava de ser contestado, tampouco aborrecido em público. Dormi com a frase “ela é do lar” e acordei com ela ressoando em minha cabeça. Não custou para tirar o carro da garagem, ir até o fórum e pedir alteração colocando a minha real ocupação.  A servidora riu do acontecido, rimos juntas. Talvez aquele riso tivesse uma ironia em relação a minha péssima escolha do pretendente.

O meu entojo e o espanto da maioria sobre a reportagem seja, justamente, pelo fato de não sermos educadas para cozinhar, lavar e passar. Somos doutrinadas a ter um bom currículo, falar fluentemente duas línguas e sermos livres para escolher onde pousar. Felicidade e submissão não são palavras que se entrelaçam. Não para mim. Felicidade rima com liberdade e com serenidade.


Somos capazes de odiar uma batedeira de presente de aniversário, ou um jogo de panelas antiaderente. Mas somos capazes de amar ilimitadamente aquele que sabe caminhar junto de mãos dadas, seja no lar, seja na rua, na chuva ou numa casinha de sapê.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 23 de Abril de 2016

17 de abril de 2016

Para Vovô 2

Vô,

Eu sei que já prometi que não escreveria mais cartas, até afirmei isso publicamente para tentar frear esses desejos instintivos dessa humilde escritora. Estou sendo falha, conscientemente falha, me perdoe.

Hoje talvez seja véspera de outro dia qualquer, eu fico daqui amuada entre o meu quarto escuro e as cobertas, escutando a chuva fina que delicadamente cai do céu, e ao mesmo tempo buscando produzir conexões lógicas e não-verbais, acalentado o espaço e a distancia que temos um do outro (se é que elas existem), com as lembranças que me restaram. O silêncio é sempre um fiel aliado para essas possíveis conexões. Te sinto perto, e isso me acalma.

Tenho saudades, principalmente quando chamava de meu avô, com um pronome possessivo que fazia toda a diferença, quem sabe esse fosse o motivo que te chamar milhões de vezes por dia, o fato de saber que poderia ser meu avô, ou meu amor... Saudade também daquele que não sabia me julgar, mas sabia me compreender; que não se afastava, mas que amava, até o seu ultimo suspiro. E creio que essa tenha sido a verdade mais linda: a do amor exposto, entregue, mas nunca vulnerável. Eu tinha certeza do seu amor.

Com aquele olho que enxergava me permitia viajar por aventuras incríveis, desde as corretas até as necessárias, tinha sempre o olhar de encorajamento para mim, e eu nunca fui reprimida. Aprendi com os erros, mas sabia que ao fim de cada um deles poderia me
jogar no seu colo, porque a cada arranhão doloroso, estava ali sentado em sua cadeira vermelha para me escutar, acolher, e amar.

Hoje vovô, entre tristeza e felicidade (porque elas são sensações autônomas e coexistem entre si), relembro quando não permitia que os meus amigos, por mais próximos que fossem te chamasse de avô. Briguenta e carente tomava posse todos os dias da missão de ser sua neta na sua vida. Ciumenta e possessiva desse amor, desde sempre.

Eu sei que Deus não nos trata como um brinquedo que, quando envelhecido ou com a sua utilidade limitada será descartado e outro será posto em seu lugar. Eu sei que esse mistério da morte representa muito mais do que sabemos ou cremos. É um mistério que somente a fé, intensa e significativa, pode serenar quem fica, mas nunca explicar. A fé não explica a razão.

As nossas fotografias revelam motivos que não cabem nos conceitos das palavras. É como se fosse a ponta do cordão que amarra as nossas vidas, e sustenta todo o sentido [e sentimento] do amor.

A minha dor é floreada de saudade é um território santo. E aqui, assim como Moisés ouviu de Deus “Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa”. Para reviver todos os anos convividos ao seu lado é preciso desnudar o presente e embarcar com ternura ao passado.

Sempre com amor,

Sua neta.


Itabuna, 17 de abril de 2016.

16 de abril de 2016

Eu, o pintor e meu lar

Após convidar um pintor que já trabalha comigo há bastante tempo, fomos aos detalhes:

- Do que precisa, doutora?
- Então, estou querendo substituir esse azul por branco, o friso por dourado e o ‘encardido 
desbotado’ por um marrom-claro que se chama areia.
Algumas sugestões e acordos firmados sobre a data de inicio e data do fim, lista da material em mãos e rumo às compras com preços pela hora da morte.

Ao desembarcar nessas lojas de materiais de construção os homens sempre nos olham com um olhar de prepotência como se não estivéssemos sabendo exatamente o que estamos indo comprar. Mal sabem eles que já temos loja e vendedor preferido, e produtos escolhidos previamente. Bem como uma consulta antecedente em todas as lojas possíveis no nosso raio de alcance.

Apesar de poder contar com uma eficiente ajudante, um ‘simples retoque’ é capaz de sujar todos os móveis e todos os cômodos com um pó branco capaz de irradiar as mais possíveis alergias. Um ‘simples retoque’ significa idas e vindas a lojas de material de construção em busca do dourado perfeito para o detalhe do sanca do gesso, e a lista de materiais sempre triplicam do inicial. Para o nosso desespero, no meio do serviço percebemos que a data estipulada será maior do que a prevista.

Do meio para o fim, embora com todo o desespero tomamos gosto por aquilo que nos agrada e vamos investindo no nosso bem estar, no nosso refúgio, no nosso cantinho desejado nos momentos de cansaço e de tranquilidade. Ter uma casa aconchegante é qualidade de vida, e disso eu não abro mão. Nem do meu conforto, nem do meu deleite.

Não somos tão sexo frágil assim, tocar uma pintura, uma obra ou uma empresa, parece difícil, os desafios são imensos, inclusive aqueles que absorvemos ao longo dos anos por ser uma tarefa masculina. Bom, confesso que fiz uma escolha errada, mas no restante acertei em cheio aos meus desejos. E isso é o que importa.

E o que são alguns espirros no meio de uma crise alérgica, quando o nosso cantinho fica exatamente do jeito que planjamos desde o primeiro momento? São apenas alguns espirros contidos com antialérgico!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 16 de Abril de 2016

2 de abril de 2016

Nós dois

A maioria dos casais não escolhe namorar quando se conhece, tampouco já dá o primeiro beijo pensando nos filhos resultantes daquele ato, ou depois da primeira conversa sai anunciando o pretendente como o marido/esposa até o fim dos dias.

Começamos a intuir que aquele investimento vai dar certo quando os sorrisos se entrelaçam numa conversa séria, quando os abraços são os mais desejados no meio de uma multidão, quando percebemos a frequência que os pés se unem à noite, quando temos prioridade em ser o primeiro "bom dia" e último "boa noite". A vida começa a ficar mais alegre, isso é fato.

Por mais que tivéssemos ambos saído de relacionamentos afirmando que passaríamos um longo período na estiagem, que daríamos um tempo desses namoros superficiais, que não queríamos tentar novamente ‘por agora’. Aí pimba!, acontece e pronto, as juras de solteirice caem por terra. Você já vai acordar pensando no príncipe que deveria ter chegado a cavalo, mas que chegou apenas com um olhar e para você está de bom tamanho.

É sempre muito curioso quando começam as apresentações desajeitadas sobre o novo ‘affair’: a mãe sempre diz que é para cuidar bem do bom rapaz; o pai sempre olha atravessado para a paixão da filha; a vizinha da avó fica agoniada para visitar a amiga e conhecer garota que chegou de mãos dadas; e se tiverem filhos de relacionamentos anteriores, é preciso sempre uma dose de cautela e cuidado, afinal o que antes era exclusivo passará a ser ‘dividido’. Mas a convivência se encarrega de mostrar que cada um tem o seu lugar organizado: o namorado da mamãe não chegou para substituir ninguém, e vice-versa.

O melhor de tudo é crer que, para o amor, assim como para a felicidade, não é preciso plateia, que a vida segue o seu curso normal sem tantas satisfações ao universo. Porque num mundo onde tudo é absurdamente virtual, faz bem viver esse amor de verdade, livres dos grilhões do destino.

No fundo, apesar das mutações afetivas do novo século, um relacionamento é acreditar que todos os mil parafusos serão ajustados ao longo da convivência, que teremos o colo para acolher, e uma história incrível para acreditar, apostar e viver como se fosse a última.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 02 de Abril de 2016

19 de março de 2016

As estrelas vermelhas

A verdade veio a tona, vale-se lembrar que a verdade que eles negam juntos e piamente. Uma verdade comprovada e declarada aos quatro cantos do mundo. Sejam eles os grampos, as delações premiadas, os documentos de prova ou os cofres recheados de bens do ex-presidente.

Permita-me questionar se vale a desordem com o regresso? Não tão de repente, e não tão inesperado as estrelas vermelhas se juntam para celebrar o indigesto: uma marionete que sempre a favor do rei tropeçou à custa de sua proteção.
Por favor me apresente qual o brasileiro precisa simular uma ficção com tamanha realidade acontecendo no nosso país?

Entendam, a política é um jogo. O juiz Sérgio Moro apenas deu um xeque-mate, uma típica jogada de mestre. Apertou Lula, mas não o prendeu, mesmo tendo competência e possibilidades, preferiu grampear o telefone do barbudo e sepultar o mandato de Dilma. Uma jogada fantástica, o juiz assustou, prendeu os ‘amigos’, deixou apavorado, e solto o suficiente para que no seu desespero comprometesse os seus comparsas. Simples.

Quer compreender o quanto isso tem afetado as nossas vidas? Desde a prisão coercitiva de Lula o dólar que estava na casa dos R$4,10 chegou a R$3,58, a bolsa de valores teve um aumento considerável. Não importa se você quer comprar dólar ou não ou adquirir ações, importa que isso interfere diretamente no seu arroz e no seu feijão. E ele segue completamente instável com a posse de ministro suspensa. Isso é o Brasil reagindo a essa grave crise política.

Uma pesquisa realizada com 20 economistas e estrategistas mostraram que as variações das taxas de câmbio até o final do ano podem variar brutalmente, de R$2,50 a R$5,00, tudo depende da permanência da atual presidente no poder. E você daí achando que está tudo indo muito bem? Veja o preço do combustível, da energia, do mercado, da taxa de desempregos, de importações... Estamos em níveis assustadores.

O que mais assusta é que não sabemos quais são os próximos capítulos e qual o mal que isso pode ter para o coletivo. Estamos mais uma vez de pés e mãos atadas, apenas tendo o grito como uma força inimaginável. E apenas mais um favor, não use o argumento que temos o que merecemos, ninguém merece tanta sujeira, tanta corrupção. E isso independe de partido.


Política é um jogo, e Moro é um jogador espetacular.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 19 de março de 2016

5 de março de 2016

Quem somos?

Tornamo-nos independentes, essa é a verdade. Não precisamos de motorista, de trocador de lâmpada ou de acompanhante no estádio. Sem autorizações para o trabalho externo ou uma viagem inesperada.

Somos mais machos do que muitos machos por aí. E não falo apenas de força física, eu falo é de força intelectual mesmo. De aguentar o tranco com o combo: trabalho + estudo + manter a casa em ordem + ser mãe, e muitos casos mãe e pai. Sim, isso é bem normal, mas não é fácil.

Essa nova geração é capaz de chorar uma noite inteira, mas acordar refeita na manhã seguinte, encarar o patrão, os percalços, o pneu furado ou ônibus lotado no início do dia.

Somos criadas para ganhar o mundo. Para viajar sem medo. Para entender bem de diversas culinárias, tipos de queijos e vinhos. Para mergulhar no amor, na decepção e na amizade, e se não der certo, sacudir a poeira e ir em frente: “let’s go”.

Estamos aprendendo que a violência, ameaça e a perseguição não nos prende em um casamento. Que as dores não devem ser sucumbidas, e sim postas à mesa, discutidas, dialogadas e resolvidas.

Aprendemos diariamente que ficar sozinha não significa ser mal amada. Estamos adultas, seguras, firmes, sabendo na maioria das vezes exatamente para onde vamos. E se não souber, o coração aponta. Ele nunca erra!

Uma geração incrível de mulheres inteligentes o bastante para dirigir o próprio veículo, tomar uma bebida qualquer num balcão de boteco, e conquistar aquele almejado cargo de chefia, e por que não ser dona do próprio negócio?

Cicatrizes no ventre, marcas de estrias, inúmeras celulites, as linhas do rosto, feridas de guerras combatidas. Não queremos viver anos em formol e SPA para fingir que estamos vivemos.  Mulher é coragem, luta e determinação. Mulher de verdade é quem carrega o mundo nas costas com milhares de tarefas adquiridas para manter a vida conjugal, a vida profissional, o equilíbrio emocional, tantos desamparos e ainda sorrir com um bom batom sobre os lábios femininos.

É do nosso ventre que nascem todos os homens machistas, todos os heróis, todos os guerreiros, do nosso íntimo recinto que carregamos as primeiras histórias de vida deles, delas, nossos...


Somos nós que fornecemos o leite materno, nós que ninamos, nós que amamos como mãe, um amor que transcende barreiras e abandona os sinais do tempo. O sagrado em corpo feminino. Mas antes de mãe, nós somos mulheres!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 05 de março de 2016

13 de fevereiro de 2016

Frutos do desejo

O desejo não amordaçado é aquele que te faz abandonar sua confortável cama, te leva ao aeroporto à compra de passagens de última da hora, a atravessar estados para compartilhar a pessoa almejada. E isso pode ser “na rua, na chuva ou numa casinha de sapê”, o importante dessa geração é não se limitar [e nem se reprimir] por qualquer motivo, tenha ele o tamanho que for.

O poder da realização de um desejo é tão potente quanto a Hiroshima e Nagasaki, não importando o que ou quem estará à frente. O desejo nos torna em verdadeiros cego-guerreiros; Sabe-se que estamos lutando e para o que estamos lutando, mas o meio pouco importa: convém cartão de crédito, milhas de companhia aérea, ou o bico no final de semana. O importante é o resultado final.

Estamos na magia dos sem-limites, nos anseios potencializados, no ‘eu quero, eu posso, eu consigo‘, sabe Deus como são as formas para a realização desses desejos desproporcionalmente ilimitados.

E não existe família, filho pequeno ou cônjuge enfermo. Meu amigo, quando se deseja alguém nem gravidez desejada segura o marido em casa. Tem o jogo de futebol com amigos, treino funcional sem uma gota de suor, o carro quebra e o guincho demora uma vida para chegar, tem celular tocando freneticamente, “oi amor, já estou chegando”, tem paciente com crise no pâncreas as duas da manha e vez ou outra o celular fica desligado, “estava sem sinal”, ou “acabou a bateria”.

Nas teorias indianas o desejo é definido como fonte do sofrimento humano, e também como a prisão da existência humana. Já o respeitado pensador da modernidade Bauman qualifica as relações afetivas da contemporaneidade como líquidas, ou ainda estamos imersos em tempos líquidos, e faz o maior sentido.

Estamos na compulsão da experiência sensorial que perdemos o sentido [e sentimento] dos acontecimentos. Estamos no efeito carnal de sonhos solidificados, materializados... E os nossos sonhos não estão mais em condições de inexecutáveis. Tudo é absurdamente possível!


Enquanto de um lado o poder do desejo é a rede moinho para intensificar as suas realizações, do outro impera a falta de racionalidade, mas até onde se vale ser racional? 

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado em 13 de Fevereiro de 2016.

23 de janeiro de 2016

Odisseia da vida perfeita

Outro dia parei frente à televisão e fiquei abobada com a terapia intensiva dos comerciais em busca da vida perfeita, já faz cinco anos que não assisto televisão. Primeiro por não encontrar opções inteligentes na rede aberta, e segundo por preferir utilizar esse curto tempo em atividades mais rentáveis.

Desculpem o blá blá blá, mas estamos envoltos numa vida de perfeição, de cartões de créditos ilimitados, de extremos. Uma busca insana pelo corpo perfeito de Gabriela Pugliese; pela energia de Ivete Sangalo, treinos que cansam apenas de ver pelo ‘Snapchat’. Hugo Gloss com uma vida badalada com os famosos, onde nada parece ter limite.

Estamos nos arriscando o tempo inteiro pelo perfeito (sem sermos completos ou inteiros), e será que de fato existe isso? Estou inserida nisto também, quando digo que quero um sorriso impecável como o de Ana Hickmann, o condicionamento físico de um corredor profissional, ou todos os sapatos da última coleção. Por horas é preciso ser mais consciente, coerente. Pé no chão, falta para mim também, confesso.   
Até as crianças são imbuídas nessa vida de conto de fadas: as férias precisam ser inesquecíveis, as mochilas escolares, bem como todo o seu material precisa ser melhor do que todos os outros colegas. É viagem para a Disney com o dólar pela hora da morte, é roupa da melhor marca, sapato importado, bonecas reborn idênticas a um bebê (e que custam uma pequena fortuna).

Por favor, PAREM!! Vamos nos aceitar com aquela estria que nasceu a partir da gravidez, do quilinho a mais ou do hormônio desregulado. Abandonem as cismas pelas celulites, definitivamente, elas não têm culpa de nada para receber tanta carga negativa. Aceitem quando uma programação não deu certo. Troquem a cerveja gourmet pela água de coco ou pela cachaça ruim de boteco.

Estamos pagando um preço cada vez mais alto pelos padrões impostos pela sociedade e pela mídia. Esquecemo-nos da saúde, das nossas limitações, e de amor-próprio. O que importa nessa vida é abandonar as amarras que criamos por uma vida tão perfeita para de fato se unir pela leveza que podemos ter/ser. Assim, sozinhos, sem depender de ninguém, ao não ser a nossa própria companhia. Beleza e feiura é fácil acostumar, só não é possível conviver com a loucura do perfeito.

Vaidade, tudo é vaidade...

Juliana Soledade


Crônica produzida para o Jornal A Região, publicado no dia 23 de Janeiro de 2016.

8 de janeiro de 2016

Perfil organizado

Morei em Itabuna, passei o dia no litoral, virei praieira. Vou e volto. Amo e desamo. As palavras me perseguem. No fim me entrego ao silêncio. Sou fascinada por minha dor.

O ciclo era este: Vovô ministrava amor em doses cavalares, Vovó me ensinava à paciência de preparar bolos confeitados, Painho cuidava dos machucados com muito esmero, Mainha fazia os almoços memoráveis de domingo. Tia Fátima virava adolescente, meu primo Adriano apresentou a comédia. Tia Marília a geometria, Tia Clery a compreensão.

Na minha vértice de escritora, vou expulsando verbos, anjos e demônios. Vou me vendendo, me comprando, me reinventando.

Nunca fui centro das atenções. Gosto da possibilidade de nem sempre ir com todo mundo, com todas as culinárias e especiarias, com raças diversas. Com pouca consciência ou sentimento.

Dou um braço pelo azul, e o traio com vermelho. Abandono o azul e o vermelho pelo branco. Mudana. Nasci assim. Sempre desconfiada. Inquieta. Se soubesse dançar, não teria uma só palavra parada, nem uma música sem ritmo corporal. Respeito acima de todas as coisas a seriedade dos sentimentos, e aceito a simplicidade dos sentidos, primata ou contemporâneo.

Fico eufórica com os anúncios de viagens turísticas. Contemplo me entregando as Ilhas Maldivas, ao caminho de Santiago de Compostela e a paz do Tibete. Penso nos deuses indianos, no tango argentino, no vinho Italiano. Posso abandonar a euforia em um sono entre o almoço e o futuro.

Não tente qualquer discurso para me convencer. Acorrento minhas mãos para não aplaudir pregações idiotas. Ancoro meus pés em minha fortaleza para não me dispor em ambientes intoleráveis.

Vivo me perdoando, porque é doce perdoar. Às vezes me destruo, porque é mais leve reconstruir. Sou fascinada em minha dor.

Devoro uma moqueca baiana como se não houvesse amanhã, mas sei deixar escorrer um espumante gelado por minha garganta como uma fina europeia. Às vezes me satisfaço com pão e água como banquete.

Divirto-me na chuva, viro menina levada, sei tomar banho de bica. Com o sol me banho com água salgada, invado o mar. Me invado, reinvento, escorro em mim como lágrimas, desamarro-me para recompor, para escorrer sempre que preciso, e inventar, reinventar e escorrer de novo.

Vou e volto é o meu direito, uma obrigação que grita, afirmando: você é liberta. Vou e volto com quem me perturba, quem me abusa. Amo, desamo, faço e refaço.

Perdoo o mal que me atingiu, me aconchego com o bem. E vivo de palavras, ditas e não ditas. Elas me agarram, as imagens me agarram. Não tenho simpatia.

De tudo resta o silêncio, minha maior liberdade. Sou fascinada em minha dor.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 9 de Janeiro de 2016.